Estranho o tempo em que a vida política tem menos dignidade que sua negação e no qual outsiders antissistema alçam largos voos rumo àquilo que aparentam combater: o coração das instituições estabelecidas, pleiteando ocupar, dentro delas, o governo do Estado. Um dos exemplos mais destacados destes prestidigitadores não se construiu como transcendência, como narrativa arcaica de uma história irrecuperável; ele, ao contrário, prometeu sair de seu Olimpo, se fazer carne e habitar entre nós, e, às avessas, mistificou a negação da política como a mais concreta das singularidades históricas. O prefeito de mil peles, trajes, máscaras e nomes: O Eficaz, O Gari-Cadeirante Por Um Dia (Dia De Princesa?), ele mesmo, o Júnior que nos faz lembrar ao mesmo tempo de uma marca de margarina e da obra maior de Oscar Wilde – Doria Gray, O Exterminador do Grafite – merece ser compreendido pela lógica do governo que tem imposto à capital paulista.

O Programa Cidade Linda talvez seja o emblema mais visível do modo Doria de governar. Inútil dizer que beleza, há muito, deixou de ser critério para a estética como forma de compreensão do mundo; tampouco faria sentido negar que ela, a estética, é um elemento a ser levado em conta nos projetos de cidade tanto pelos especuladores urbanos quanto por aqueles que, ao contrário dos primeiros, querem para nossas urbes algo mais que a razão dos engenheiros e planejadores. Devemos, por isso, olhar como a aplicação do parâmetro genérico “beleza” faz parte de um projeto que, incorporando uma estetização bem definida do espaço urbano paulistano, contudo representa um projeto político de escopo bem maior.

Seria bastante tentador apelar a uma comparação dos efeitos do Cidade Linda sobre São Paulo e verificar que outras cidades Doria teria em mente, que modelos estéticos de cidade poderiam inspirá-lo, que tipo de visualidade ele poderia querer transplantar à metrópole que dirige. Parece-me que esse tipo de comparação é possível, mas se limitaria a uma análise bastante ingênua de que a inspiração de modelar o espaço de uma cidade seria da mesma natureza que o impulso mimético que mobiliza criadores no campo da cultura. Sem querer incorrer na perigosa lógica do “gênio (do mal)” e de magnificar Doria Gray, arriscaria dizer que este, se talvez não inventa a roda, no mínimo aprofunda e põe a nu (nada artístico) um projeto de Estado muito peculiar.

O que vimos ocorrer nos episódios dos grafites, da Virada Cultural e da Cracolândia não é simplesmente uma opção de Doria pelo apagamento intempestivo, pela segregação violenta, pelo desrespeito ao patrimônio afetivo e institucional e pela estetização cáustica como políticas de cultura e de gestão do espaço urbano. Todos esses episódios, mas em particular aquele que Doria classificou como “bobagem” – a ameaça de agressão feita por seu secretário de cultura, André Sturm, a agentes culturais –, revelam a consolidação de um Estado autoritário e privatista por trás de sua suposta eficiência.

Conquanto o autoritarismo do secretário Sturm tenha causado espécie a alguns, falar em privatismo pode parecer uma enorme redundância em se tratando de um prefeito que promete “privatizar tudo o que for possível”. (A fala é de Michel Temer, mas cabe perfeitamente na retórica doriana.) Se a arte é o terreno das aparências, não menos é o das verdades políticas, que, mesmo quando não mentem, conseguem dissimular a si mesmas. É que a privatização de Doria vai muito além do entreguismo da coisa pública ao setor privado. O autoritarismo de Sturm, aliás, é uma peça-chave sua em gestação desde os anúncios de mudanças no formato da Virada Cultural. A bem da verdade, trata-se menos de um autoritarismo pessoal do secretário de Doria do que a institucionalização de um autoritarismo de Estado. Tanto no início de sua gestão à frente da pasta da cultura quanto no caso da ameaça em razão do debate com o Movimento Cultural Ermelina Matarazzo, Sturm afirmou, sobre o sentido do espaço urbano e das formas de a população ocupá-lo, que “O espaço é público, é do governo”. Isso, na lógica do secretário e de Doria, tem significado a impermeabilização do Estado e do bem comum à pressão de determinados atores sociais – exatamente aqueles que não temem se afirmar como agentes políticos.

“Privado”, “privada”: não são só adjetivos para o tratamento da cidade, mas para a relação de retirada de parcelas da população da vida política de São Paulo. Doria não apenas incorpora a máscara da falta de política, mas também impõe essa falsa subtração àqueles que nela querem viver e agir. O “privatismo” doriano tem, pois, três sentidos: a privação da responsabilidade sobre o domínio da política pelo falseamento das próprias ações políticas; a privatização da cidade, na forma do esvaziamento das responsabilidades do Estado; a privação da possibilidade de intervenção e apropriação do Estado pela população, da qual a fórmula paradoxal e autoritária “o público é o governo” é bastante significativa.

Dessa dissimulação generalizada de que se banha o espetaculoso prefeito de São Paulo, nada mais se pode esperar senão a conversão do próprio Estado em ente privado. Que não é só autoritário, mas também autocentrado em relação a seus cidadãos. Que é privado não só porque se converte em posse dos que detêm sua máquina, mas privado do sentido do que orienta sua própria razão de ser. Doria Gray, pelo visto, não só apaga aquilo que acha feio. Sua estética do absurdo golpeia de morte igualmente a boa lógica, a democracia e a vida em comum.