A cena do Garotinho sendo preso e a filha gritando me causou repúdio de várias maneiras diferentes.

Aliás, não acho que a palavra mais apropriada seja essa. Mas estou tão incomodado com aquilo que evitarei ficar procurando um termo mais adequado.

O episódio precisa nos fazer refletir sobre várias coisas. É possível compreender um crime – com devidas ressalvas, é claro – quando existe uma motivação muito forte por trás dele. Como  crimes famélicos ou crimes de autodefesa. Ambos estão ligados a um instinto natural do ser humano: o de sobrevivência.

Mas o que leva alguém a desviar um dinheiro que deveria ser usado para fins públicos, para atender à necessidade não de um, mas de milhares? Dinheiro que seria usado, em muitos casos, para as urgências uma parcela significativa da sociedade. Como saúde, moradia, infraestrutura e educação.

Não se trata mais de subtrair algo para se alimentar, para se manter em pé ou para dar comida a uma família que o espera em casa. Estamos falando de tirar dinheiro de uma classe que precisa para pagar uma garrafa de vinho de R$ 2000 reais, porque uma de R$ 50 não é suficiente para agradar o paladar.

Assim como se desvia para comprar uma casa de praia na Riviera Francesa, porque a que o cidadão tem em Angra já não atende mais às necessidades.

O que leva alguém a chegar a esse nível de degradação? É possível encostar a cabeça no travesseiro e dormir tranquilamente, como se nada estivesse acontecendo? Que tipo de morte da consciência é essa?

O segundo ponto angustiante é saber que existem centenas, se não milhares de Garotinhos e Cabrais, que cometem os mesmos crimes todos os dias e seguem sua vida impunemente. E o fazem pelos mesmos motivos espúrios – ou pela mais absoluta falta de motivos.

Olhando o desespero daquela filha, também penso nas milhares de famílias que perdem diariamente seus entes para o sistema prisional.

Não sou defensor de bandido. Acho que todos devem pagar pelos seus crimes. No entanto, é necessário ter a sobriedade de encarar os fatos. De saber que nem todos têm a possibilidade de escolher a vida que querem seguir. Como Garotinho e Cabral tiveram.

Precisamos olhar sem paixões ou ideologias baratas para os problemas. É imperativo ver além da caricatura do cara que não arruma emprego e cai na marginalidade. As coisas não funcionam assim, como se eu acordasse numa manhã de quinta e fizesse essa opção. Mas, um sistema que produz desigualdade colhe resultados dessa natureza. Por isso, o conceito de bandido precisa levar em consideração muitos fatores.

O último ponto que precisamos encarar é o nosso deleite com a desgraça alheia. Nós trocamos as execuções medievais em praças públicas pelo comprazimento da dor alheia através das lentes televisivas, ou de qualquer outra mídia que nos leve esse tipo de informação – e satisfação.

Reconhecemos que existe essa inclinação mórbida no ser humano. Mas existe uma dubiedade incômoda nesse sentimento de justiça. Entre o reavivamento da esperança de que viveremos num sistema mais justo e a satisfação em mandar alguém para “apodrecer na cadeia”.

Não quero dar uma de moralista. Nunca o faria. Mas acredito que precisamos repensar a nossa condição de humanos. Não podemos achar que o que vimos essa semana é algo normal.

Nós não seremos salvos por deuses. Eles não descerão dos céus para erigir novas velhas tábuas. Nós somos os únicos que podem nos salvar de nós mesmos.