Reportagem cedida pelo jornal Tribuna de Minas

Por Daniela Arbex

Repórter 

Por trás da violência letal, existe um mundo paralelo de drogas e um exército de sobreviventes, que vai ter que enfrentar a existência sob um novo ângulo: o da cadeira de rodas ou o da cama de um hospital. Além dos custos sociais e humanos, há o impacto financeiro. Na prática, a conta  da matança está sendo paga por cada juiz-forano. 

O que acontece depois do tiro? Para discutir os efeitos da violência crescente que afeta até quem não está envolvido nela, como a família da comerciante Elizane Aparecida Moreira, 36 anos, baleada há oito dias dentro da sua pizzaria no Bairro Manoel Honório durante uma briga de adolescentes de gangues rivais, a Tribuna mergulhou fundo no universo dos assassinatos ocorridos este ano na cidade e descobriu que, para cada pessoa morta por arma de fogo ou faca, há pelo menos três feridos que ficaram incapacitados de maneira permanente. Por trás da violência letal que fez até agora 129 vítimas no município em 2016, existe um mundo paralelo de drogas e um exército de sobreviventes – jovens do sexo masculino na sua imensa maioria -, que vai ter que enfrentar a existência sob um novo ângulo: o da cadeira de rodas ou o da cama de um hospital. Se você ainda pensa que não tem nada a ver com isso, pode se surpreender. Além dos custos sociais e humanos dessa guerra urbana que não se consegue conter, há o impacto financeiro da violência que levou 317 feridos por perfurações de tiro ou faca para o HPS entre 1º de janeiro e 17 de outubro. Se forem consideradas as vítimas de agressões provocadas pelo uso de pau, pedra, tijolo ou capacete de motocicleta, os números somam mais 1.344 pessoas atendidas na urgência e emergência do pronto-socorro em dez meses. Na prática, a conta da matança está sendo paga por cada juiz-forano.

Em média, a internação de uma pessoa baleada dura cerca de um mês e custa em torno de R$ 30 mil aos cofres públicos. Se sobreviverem ao tiro, muitas vítimas acumulam sequelas permanentes, sendo a paraplegia a principal, além de amputação de membros e problemas neurológicos graves. Os jovens afetados acabam sendo aposentados. Além do benefício pago pelo INSS, eles ficarão dependentes de insumos, como fraldas ou sondas, e passarão por reinternações em função de infecções ou problemas respiratórios.

Simone Mathiase, diretora do HPS, conhece de perto as consequências da violência alimentada por uma vingança que parece não ter fim. “A gente atende vários tipos de violência. Recebemos pacientes de todas as formas, porém o que mais nos choca não são os trazidos pelo Samu, mas os que chegam por meios próprios. Os que vêm com o Samu já chegam estabilizados, entubados, com uma sala de urgência e um centro cirúrgico preparados. Quando a família é quem traz, o paciente é manipulado de forma equivocada por amigos e parentes naquela ânsia de o salvar, fazendo com que perca a chance de ter um primeiro atendimento que poderia evitar sequela posterior. Essa é apenas uma parte do problema. Como a maioria tem baixo poder aquisitivo, a família passa a ter despesas que não tinha. Já tivemos casos de familiares que vinham a pé do Grama nos horários de visita. Além disso, quando os pacientes vão para casa, não têm um ambiente favorável e acabam retornando com infecção ou escaras. São pessoas que demandam um cuidado intenso e nem sempre possuem alguém que possa ficar com eles para dar assistência.”

Entrevado aos 31

É o caso de Roberto, 36 anos, que há quatro tem uma bala alojada na coluna. Desde que ficou paraplégico, em 12 de outubro de 2012, não tem um cuidador 24 horas para auxiliá-lo. Morando sozinho em um barraco próximo à casa do irmão, no Bairro Esplanada, ele conta com a ajuda do familiar para banho e apoio dos profissionais do Departamento de Internação Domiciliar do município. Porém, na maior parte do tempo, precisa se virar, uma realidade dura para quem depende da cadeira de rodas e de uma bolsa para coletar a urina, já que não possui controle do esfincter uretral.

O drama de Roberto, no entanto, começou bem antes dos três tiros que tomou. Tinha menos de 10 anos quando o pai foi embora de casa. Com a mãe doente, ele e o irmão tiveram que se criar. Foi nessa época que Roberto abandonou a escola na segunda série do ensino fundamental. Não demorou muito para ser adotado pela rua. “A gente não tinha merenda para levar para a escola. Fazíamos o arroz e não colocávamos água. Só torrava e comia com café, fubá suado. Tinha dias de a gente pegar comida no quartel para não passar fome. Conheci o mundo muito cedo. Comecei a fumar maconha aos 10 anos e, aos 17, a usar crack. Para manter meu vício, eu roubava, traficava e me prostituía”, revela Roberto que, mesmo sem ser homossexual, fazia programas com homens. “O dinheiro mandava. Falava que dava R$ 10, R$ 20 para usar uma droga, não pensava duas vezes. Muitas vezes, eu não usava camisinha.”

Aos 31, Roberto vendeu a TV por R$ 70 para um adolescente que traficava no bairro. Quando a ex-mulher deu falta da televisão, levou a polícia na casa do fornecedor de drogas. “Ele teve que devolver a TV e me cobrou o dinheiro da droga. Eu só tinha R$ 30. Faltavam R$ 40, mas ele não esperou. Me deu dois tiros, recarregou a arma e atirou de novo. Quando o médico disse que eu não ia mais andar, chorei. De lá para cá, entrei várias vezes em um quadro de septicemia, por causa de sonda, e amputei parte do fêmur.”

Apesar de toda a dor, Roberto diz que hoje se sente inteiro e feliz. “Agradeço a Deus por estar vivo. Por ver meus filhos crescerem.”

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Roberto, 31 anos – Fotografia de Leonardo Costa

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Vingança sem fim leva jovem para cadeira de rodas

Na casa de Luciano, 19 anos, o ódio impera. Da cadeira de rodas onde foi colocado após ser baleado com 12 tiros por um desafeto na praça do bairro onde mora, em fevereiro deste ano, ele jura que vai se vingar de quem fez isso. Se conseguir, não será a primeira vez que mata. Aos 17 anos, Luciano assassinou o traficante que confiscou seu chinelo da marca Kenner, no valor de R$ 160, por causa de uma dívida de drogas. Ficou uma semana acautelado, embora o Estatuto da Criança e do Adolescente estabeleça até três anos de medida socioeducativa.

Antes de sofrer os tiros, um amigo foi assassinado. Quis se vingar, mas acabou sendo vingado antes. Por causa dos tiros que levou, dois parentes dele foram presos acusados de matar o irmão do rapaz que o deixou paraplégico. “Enquanto quem fez isso não morrer, não vou conseguir mudar de vida”, diz, sem perceber o quanto sua vida já mudou, mesmo que involuntariamente.

De fraldas, ele não consegue nem se vestir sozinho. Está com o corpo coberto de escaras, em função da pouca mobilidade e dos quase três meses de internação no HPS e no João Penido. O jovem perdeu o movimento, mas não o olfato. Desespera-se ao sentir que o corpo cheira mal por causa das feridas. Aos 19, definha pela falta de perspectivas. Recentemente, tentou se matar com uma faca.

A mãe, uma auxiliar de serviços gerais de 49 anos, lamenta as opções do filho. “Não posso me culpar, porque tudo de bom que podia falar para ele eu disse.” Nessa hora, Luciano se traiu. Mudou o tom de ameaça e entregou o tamanho da dor. “Não queria isso nem para meu inimigo”, desabafou, ao mostrar a cadeira que o impede de fugir de si mesmo.

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Luciano, 19 anos – Fotografia de Leonardo Costa

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“Sociedade apóia extermínio”

Para Paulo Fraga, vice-coordenador da Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFJF, a violência é um problema de saúde pública, embora pouca gente se dê conta disso. “Esse é um lado pouco explorado: a violência não letal, aquela que causa morbidade. Se uma parcela da sociedade não se mobilizar pelas vidas perdidas, deveria se mobilizar diante dos gastos de recursos públicos. Além dos anos de vida perdidos, estamos falando de pessoas jovens que perdem a sua capacidade produtiva.”

Pedro Lagatta, psicólogo do Margens Clínicas – grupo que trabalha em São Paulo com os impactos subjetivos da violência de Estado -, diz que uma parte da sociedade não só tolera como apoia a violência praticada contra os “inimigos” da paz social. “Não é possível explicitar claramente esses desejos de extermínio de certos grupos sociais, mas é certo que uma parcela significativa da sociedade deseja que determinados conflitos, principalmente aqueles envolvendo criminalidade e pessoas pobres e pretas, sejam resolvidos a partir de soluções finais. Basta analisarmos alguns indicadores, como a máxima popular ‘bandido bom é bandido morto’. Também não é desprezível o apoio à pena de morte no Brasil, nem o desejo de intervenção militar, visto que, na ditadura, o modus operandi mais específico do regime civil-militar era justamente a autorização do uso da violência letal para lidar com a dissidência política.”

O fato é que a indiferença diante da violência que se aceita contra os considerados menos humanos do que outros tem trazido para cada vez mais perto aquilo que as pessoas se recusam a ver. “Não é possível continuar a pensar que o bom é deixar que esses jovens se matem. É necessário reconhecer que há o problema na cidade. Depois, é fundamental haver mediadores que promovam a paz. Que sociedade é esta que legitima práticas de extermínio em vez de enfrentá-las? A juventude tem que ser prioridade. Há uma lacuna nas políticas públicas para jovens.”

Uma rua pra brincar

A contadora de histórias Flávia Nascimento poderia ter vivido uma cena de novela se o que se passou com ela não fosse incrivelmente real. Há poucos dias, a professora da Escola Municipal Olinda de Paula Magalhães foi visitar a mãe no Bairro Santa Luzia, mas um barulho ensurdecedor acabou atraindo Flávia para fora da casa. ‘Era um helicóptero voando baixo. Quando saí, o policial me viu, e fiquei na mira do fuzil. Minha mãe gritava: pelo amor de Deus, sai da frente. Respondi que não. Acho que ele foi chamado no rádio e deu a volta’, comenta. Flávia só sentiu o efeito da experiência dias depois.

Impactada, acabou levando para a sala de aula aquele episódio que foi contado a alunos do terceiro ano do ensino fundamental. ‘Eles não se impressionaram. Poucos acharam aquilo de ordem fantástica, porque era um evento comum para eles’, afirma Flávia, que pediu para outra turma desenhar a sua rua. Ela queria que eles descrevessem como a rua era e como as crianças gostariam que fosse. O resultado foi surpreendente. Alguns desenharam carros de polícia, armas, sangue. Sobre a rua com que sonhavam, tinha árvores e brinquedos. “Um deles me disse: eu gostaria que minha rua não tivesse tanta violência. Já outro, que gostaria de poder brincar na rua”, revelou, Flávia, admitindo que os alunos têm medo de brincar na praça do Jardim Esperança, onde está a escola que é referência em projetos culturais.

A tranquilidade na escola contrasta com o entorno de violência provocada por disputas de tráfico e desavenças entre jovens. O pior é constatar que crianças de 8 anos já percebem o perigo. “O medo deles é real”, lamenta Flávia, que só tem uma arma contra a violência: “Instrumentalizar esses meninos para que eles almejem coisa melhor e saibam que poderão ter a chance de estudar. Procuro conscientizá-los como cidadãos sobre os direitos e o respeito ao outro”.

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