Se fizéssemos uma pesquisa no Brasil hoje e perguntássemos à população qual é o maior problema do país na atualidade, não tenho dúvidas de que quase a unanimidade responderia que é a corrupção. Digo mais, muitos diriam que o principal problema do país são os políticos que institucionalizaram a corrupção.

O primeiro estranhamento diante de uma afirmação como essa é que colocamos a classe política numa grade diferente da nossa, das ditas pessoas comuns. Como se deputados, prefeitos e presidentes, entre outros, não fossem pessoas exatamente iguais a nós. Feitos da mesma essência.

Convido o leitor a voltar no tempo e refletir sobre parte da essência do ser humano que “elevou” o homem da condição de comunidade, quando ainda se associava sem finalidade, à condição de sociedade, quando passou a agrupar-se num estado de colaboração mútua.

Duas correntes filosóficas dividem as explicações mais plausíveis: a corrente naturalista que vai de Aristóteles a Ranelletti e diz que o ser humano se agrupa por uma natureza social, e a corrente contratualista de nomes como Hobbes, Locke e Rousseau, que assevera que o homem se agrupa por instinto de sobrevivência.

A ideia de que a natureza impõe ao homem o convívio social pode ser amplamente discutida – até questionada. Seres humanos não convivem em harmonia numa família de cinco pessoas; não convivem em harmonia com seus vizinhos; não convivem em harmonia com os colegas de trabalho, da academia, do colégio dos filhos, no trânsito. Quanto mais em uma sociedade complexa.

Então suponho, após um simples exercício dialético, que independentemente dos contratualistas estarem certos ou não a respeito de suas teses, do ponto de vista prático, ganharam a aposta. Quando Deus não é mais capaz de elaborar tábuas que reorganizem a conduta humana, o Estado precisa ser criado e fazer valer o bem da coletividade.

Mas o que acontece com aquele instinto de sobrevivência que levou o homem a se organizar em agrupamentos mais elaborados do início da formação da sociedade primitiva? Esvaiu-se com as leis de Estado que limitaram as pulsões individuais visando a manutenção da ordem como garantia final?

Não, amigos. Essa pulsão de sobrevivência continuou acompanhando o homem durante toda a linha da história. Pode até ter mudado de nome, de endereço, mas continuou impregnada no DNA humano.

Essa inclinação humana não distingue raça, não distingue credo, não distingue gênero e nem idade. Ela começa simples e inexpressiva quando alguém precisa contar uma pequena mentira para fugir de um compromisso, quando alguém fura uma fila de um banco porque está atrasado e quando alguém aceita o troco errado numa caixa de supermercado porque a sensação de tirar vantagem nos faz nos sentirmos espertos.

O fato engraçado nisso tudo é que, quando essa pulsão se realiza nos limites dos nossos quintais, ela ainda se chama pulsão, seja de sobrevivência ou não. Quando ela acontece nos limites além dos nossos terreiros, assume o epíteto de corrupção. É a lógica da regra frouxa quando envolve meus interesses e da moral rígida quando envolve os de outrem.

Nesse sentido, aqueles que terminam por ocupar as cadeiras da representação pública são os mesmos que um dia contaram uma mentira, que furaram uma fila, que aceitaram o troco errado, que burlaram o imposto de renda e que fraudaram algum negócio em benefício próprio.

São os mesmos homens humanos que fragilizam as normas para justificar suas inofensivas ações e vociferam discursos de conduta ética para cobrar punições pela degradação humana alheia. São os mesmos homens humanos, demasiadamente humanos.