É dar o que não se tem a quem não o quer, como zombou Lacan? Ou é dar tudo o que se tem a quem com nada se contenta?

É o amor um sentimento nobre que não inveja nem busca seus próprios interesses, como escreveu o apóstolo Paulo? Ou será o amor um tirano que aflige e oprime o ser amado, como acusou o seixo de William Blake?

O amor é só um embaraço de pernas, uma união de barrigas e um reboliço das ancas, como ironizava Gregório de Matos? Ou será que é a mais transcendente e transfiguradora de todas as experiências humanas?

Amor é querer estar preso por vontade, como afirmou Camões? Ou será que é estar preso contra a própria vontade?

É o amor uma empresa em que os sócios entram com a mesma cota de afeto? Ou será que estava certo Thomas Mann quando, em seus romances, sugeria que toda relação de amor é também uma relação de dominação (“o que mais ama é o subjugado e tem que sofrer”)?

Amar é inventar uma religião com um Deus falível, como queria Borges? Ou será que amar é se deificar para que outros nos adorem?

Pode até o amor verdadeiro ser comprado pelo dinheiro, como sugeriu Nélson Rodrigues (provavelmente citando Onassis)? Ou será que o amor só pode ser conquistado à força de devoção e de sacrifício?

Amor é tudo aquilo de que você precisa, como cantavam os Beatles, ou é só uma merda que não faz falta nenhuma?

O amor nos torna clarividentes, fazendo-nos enxergar o que não víamos antes? Ou é só, como escreveu Nietzsche, o ápice da ilusão humana, o melhor estado para ver as coisas como elas não são?

O amor é cego, como diz a sabedoria popular e como tentou provar aquele filme com o Jack Black e a Gwyneth Paltrow? Ou será que o amor é dependente da percepção da beleza, como efetivamente provou aquele filme com o Jack Black e a Gwyneth Paltrow?

O amor é um encontro entre iguais? Ou será um desencontro entre incomunicáveis?

No amor, será que os amantes se fundem ou será que se anulam? Dois viram um, ou será que um vira nada?

Afinal de contas, o que é o amor? Seria o amor alguma dessas coisas de que dele falam? Ou poderia ser todas elas ao mesmo tempo? A dificuldade em defini-lo estaria na sua incogniscibilidade ou na sua multiplicidade? Seríamos os combatentes derrotados de uma cruel esfinge que nos pergunta sem obter respostas, ou apenas seres impotentes demais para apreciar cada uma das suas numerosas facetas? Neste último caso, quantas outras facetas do amor ainda existiriam para ser descobertas e catalogadas?