A educação tóxica, aliada à mídia hegemônica e à elite “escravagista”, nos forja a imagem de personagens históricos de modo a torná-los heróis de nossa pátria. Deliberadamente deturpam os feitos maléficos de seres corruptos e genocidas, para que nós, desde cedo, ainda nos antros educacionais concebidos pela elite dominante, possamos admirá-los, heroicizá-los e passarmos, de geração para geração, suas sagas vitoriosas. Assim cavamos a sete palmos embaixo da terra a história dos verdadeiros heróis de nosso país.

O objetivo das instituições de ensino ao manipular as epopeias destes personagens – que estavam sempre em favor da aristocracia – é apenas um: ao fechar nossos olhos para os que seriam os verdadeiros heróis e guerreiros de nossa pátria mãe, encobrem os maiores crimes cometidos pela elite e colocam os menos favorecidos na posição de entrincheirados por natureza, mantendo todos adormecidos e a lamentar por suas condições sem perspectivas de mudanças, afinal, a história é assim desde a época dos os seus antepassados. Dessa forma, mesmo que sem intenção, permitimos a continuidade da elite dominante no poder e condicionamos cada vez mais os cidadãos excluídos à baixa autoestima, à falta de esperança.

Vejam, nossos livros didáticos de história colocam os portugueses como descobridores do país, como se aqui não houvesse habitantes nativos, como se a inóspita terra tivesse sido descoberta pelo bondoso Pedro Álvares Cabral. Este homem generoso, ao chegar ao nosso território, tratou de abrir caminho para catequizar um povo sem alma, sem religião e que estava fadado ao inferno. Ó Santo Pedro! E não para por aí; o português, magnânimo que era, tratou de trocar suas ferramentas valiosas (espelhos e outras quinquilharias) pelo abundante pau-brasil, além, é claro, de oferecer a eles trabalho em troca destas ferramentas.

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Contudo, não nos revelam que o que houve foi um estupro em nossa terra Brasilis, cujos donos legítimos eram os índios, que aqui já habitavam, portanto, a terra não foi descoberta e sim invadida. Os europeus arruinaram suas diversas culturas e crenças, os escravizaram nas lavouras e na extração do pau-brasil e os dizimaram – até a chegada dos portugueses estima-se que ocupavam nosso território cerca de 4 milhões de índios, que atualmente não chegam a 1 milhão.

Diversos são os personagens construídos para que acreditemos em seus atos heroicos, mas por trás de cada uma de suas ações há uma maldade exercida por estes perversos, que visavam sempre a manutenção de seus bens e poder, nunca o bem comum, nunca a igualdade de direitos. Podemos citar rapidamente alguns exemplos, como: D. João VI, D. Pedro I, D. Pedro II, os Bandeirantes, Tiradentes, Marechal Deodoro, Princesa Isabel, José Bonifácio, Duque de Caxias e incontáveis outros segregadores e genocidas, ditos como heróis em nossas instituições de ensino.

Paralelamente a isso, está o processo de escravidão. Este é um dos capítulos mais deploráveis e nefastos da história do Brasil, e nossos livros acobertam as maiores atrocidades cometidas pelas versões brasileiras do Donald Trump. Atrocidades cometidas pela mesma aristocracia que há séculos comanda este país e que, ainda hoje, permanece no poder. Elite esta que ergueu seus impérios e construiu fortunas à custa do suor do homem negro, do sangue do homem negro, que sempre foi tido como inferior – e, muitas vezes, ainda é -, algo corroborado pelos nossos livros de história.

Navio Negreiro

Estes mesmos livros de história contam de uma bondosa princesa que contra tudo e contra todos aboliu a escravatura, mas será que ela foi tão heroica assim? E depois da abolição da escravidão, o que aconteceu com os negros? Viveram felizes para sempre? Ou ficaram à margem da sociedade sendo substituídos pela mão de obra imigrante, e condenados mais uma vez aos subempregos e empregos informais, ou, em grandes casos, desempregados? Por que os livros não nos contam a saga daqueles que, de fato, construíram esta nação?

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É fato que, antes da abolição da escravidão, grande parte dos negros já havia conseguido sua liberdade, uns através de conflitos com seus algozes e à custa de muito sangue e suor, outros compraram suas cartas de alforria ou tiveram suas cartas compradas por parentes ou congregações de negros que ajudavam uns aos outros. Após a abolição, principalmente em São Paulo, os negros foram deixados de lado, preteridos pela mão de obra imigrante europeia, fruto de um processo que buscava a eugenia social. Os homens, em grande parte, desempregados ou em empregos informais, e as mulheres, na grande maioria, trabalhando em subempregos. Ambos convivendo com o racismo velado. Agora tente imaginar o quão duro é você olhar uma placa de anúncio de vaga de trabalho escrita desta forma: “Precisa-se de empregado, preferência por Alemães e Italianos”. É a forma mais sórdida de racismo, é o racismo velado, o racismo à moda brasileira.

Se tem uma coisa na qual a elite foi competente ao longo da história em nosso país é a forma como conseguiram fazer com que a maior parte de nossa população se sentisse culpada pelo seu próprio estado de penúria e miséria. Para isso é necessário ter o total controle das engrenagens que movem o nosso sistema. Aliado à história da escravidão e aos campos de concentração periféricos e todo o universo de mazelas sociais que o envolvem, temos um sistema educacional precário e intoxicado por um condicionamento sociocultural, que visa desestimular as crianças do nosso país a adquirir conhecimento e cultura. Um sistema que priva os nossos jovens de crescer intelectualmente e ter uma visão crítica sobre a posição que ocupam no tabuleiro sociopolítico brasileiro. Um sistema que nos divide e rotula em classes e nos faz crer que a ascensão social se faz por intermédio do consumo e poder aquisitivo.

Porque nunca ouvimos falar em nossos livros didáticos em nomes como: Ganga Zumba, Anastácia, Dandara, Lino Guedes, Lamarca, Marighella, Antônio Conselheiro, Chico Mendes, Espertirina Martins, Preto Cosme, Pai Inácio, Adelina, Manuel Calafate, Luís Sandin, Malunguinho e etc. Alguns internacionais como: Malcolm X, Martin Luther King, Patrice Lumumba, Alex Halley, Panteras Negras, Steve Biko, George Jackson, Nelson Mandela, Oscar Schindler e incontáveis outros.

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Parando para refletir um instante, veremos que os maiores nomes de nossa música e literatura são negros e afrodescendentes. O mesmo ocorre no esporte mais popular e praticado no Brasil, o futebol, e também no golfe, basquete, atletismo, boxe, para citar apenas alguns. As nossas cidades e metrópoles, assim como as fortunas das elites, também foram erguidas pelas mãos dos negros e afrodescendentes. Além disso, eles representam mais de 60% da população brasileira, mas por que representam a minoria nos assentos do Congresso e nos altos cargos das empresas? Por que a inteligência e capacidade de ambos são destinadas, na grande maioria, a subempregos?

A verdade é que o negro foi relegado na história brasileira ao papel de escravo e selvagem, e nossos livros didáticos, desde a infância, nos vendem a imagem de uma África atrasada socialmente, onde não havia civilização, onde imperava o caos e todos eram controlados apenas pelos seus instintos. Por que não aprendemos no colégio sobre os grandes impérios e reinos africanos? Sobre as grandes nações e riquezas dos povos da África? Dos grandes Reis e Rainhas, negros e negras? Por que não aprendemos sobre suas tradições culturais, suas músicas e danças? Por que não aprendemos sobre quão competentes e organizados eles são, a pontos de sustentarem por séculos os grandes impérios? Por que não aprendemos sobre quão habilidosos eles são na manufatura e etc?

A resposta é simples: se nos contam a verdade, os crimes cometidos pela nossa elite ao longo destes mais de 500 anos precisarão de reparação, serão desvelados, e os menos favorecidos, em especial os negros e afrodescendentes, que representam de 60% a 70% da população do Brasil, verão que suas condições sociais são um crime hediondo e que a desinformação à qual estão submetidos é um crime digno de júri popular com escândalos midiáticos – assim como o caso dos Nardoni – e pena máxima de reclusão – 30 anos. Verão que as condições sub-humanas e violentas às quais estão submetidos diariamente (moradia, alimentação, emprego, saúde, transporte público, opressão policial e etc), nada têm de naturais e que sua baixa autoestima imposta ao longo de 500 anos é fruto de um golpe de Estado aplicado por abutres carniceiros que não têm coração e não veem nada além de dinheiro e poder.

Se nos contam a verdade, a burguesia armaria a bomba-relógio contra si mesma, seria como colocar fogo no pavio do barril de pólvora para que, em questão de tempo, eclodisse uma revolução arrebatadora. Revolução inclusive que já acontece nas periferias de forma lenta e gradativa, mas não é transmitida pelos meios hegemônicos de comunicação. Revolução que não se acompanha sentado no sofá da sala assistindo televisão, nem pela tela do computador, desta forma você está se mantendo cada vez mais entorpecido por tudo aquilo que nossa elite dominante – formada por seres perversos e nefastos que não veem a humanidade se esta não trouxer mais cifrões a seus saldos bancários – transmite.

Enquanto não ampliarmos o olhar para a realidade que nos cerca, continuamos induzidos pelas ondas eletromagnéticas propagadas por nossos algozes. Ondas que hipnotizam nossa massa cinzenta e nos fazem acreditar que temos o mundo na palma da sua mão, como se fossemos o detentor do conhecimento de uma realidade que muitos não vivem e não conhecem, mas julgam mesmo assim.

“Existe um ditado que diz que a história é escrita pelos vencedores, na minha interpretação este ditado é alterado para: a história é escrita pelos assassinos, até porque morto não escreve”.