Eu fico pensando se faz algum sentido escrever sobre a importância do feminismo num Brasil tão machista?

Será que falamos apenas para os nossos, ou será que o que escrevemos, o que discutimos, o que problematizamos, tem algum efeito?

Eu tenho que acreditar que sim senão nada faz sentido. A nossa luta é pelos símbolos, pela construção do imaginário sobre a mulher e, principalmente, sobre a interpretação – a construção de significados – sobre o machismo. Não podemos nos omitir de lutar também nessa trincheira. Por isso escrevo.

Os acontecimentos reclamam sentido, isso é história. O crime de feminicídio que ocorreu em Campinas, na noite da festa de ano novo, é mais um acontecimento que precisa ser tratado por todos como um crime contra as mulheres; um crime cujo alicerce é o machismo, uma prática social e, portanto, de linguagem, que estrutura a soberania dos homens contra as mulheres, simplesmente porque são homens. Isso precisa ser dito dentro de casa, com os seus filhos, alunos, amigos, jornais, redes sociais e todas as outras formas que os seres humanos têm de se expressarem.

Feminicídio, aliás, é uma palavra nova no “dicionário” brasileiro, mas existe há muitos anos para falar sobre assassinato de mulheres e foi retomado há poucas décadas por uma teórica feminista inglesa, Diana Russell, que atentou-se ao significado misógino deste tipo de assassinato. Femicídio desde então designa o assassinato de mulheres que foram mortas por serem mulheres.

A carta do assassino, que matou sua ex-companheira, seu filho e as outras mulheres da família dela, não revela apenas um discurso de ódio contra as mulheres, mas, sobretudo, contra as mulheres que recusam o lugar de submissão; mulheres que desafiam o poder, que politizam e questionam o lugar do homem. Mulheres que recusam relações abusivas e dizem não.

O discurso da carta investe na típica culpa que se impõe às mulheres, mesmo mortas, pelo que os homens fazem, estabelecendo um elo entre o desejo do homem e seu crime. O discurso daquela carta quer imprimir em nós, mulheres, a culpa, até sermos eliminadas. Porque é isso que o machismo faz: nos elimina e elimina qualquer possibilidade de existirmos.

A carta não traduz o discurso de Sidney de Araújo, mas algo maior do que ele. Precisamos tratar esse fato como um efeito do patriarcado e não como um caso isolado, um drama familiar, uma novela.  Trata-se de um problema social grave. Quando mulheres morrem por serem mulheres, isso quer dizer que o patriarcado nos dominando.

Uma das grandes características do machismo é que ele é um princípio organizador da sociedade, que agrupa um saber, e faz circular discursos de ódio, opressores, violentos, sem que isso pareça ilegítimo. Isso é possível porque o machismo é um funcionamento social, o qual permite que alguns ditos permaneçam ditos e que outros nunca sejam ditos.

A própria compreensão sobre o machismo dentro da Ciência precisa se transformar, mas isso, claro, não se dará por tratado. Eu ouvi o noticiário no rádio nessa segunda-feira e presenciei vários psicólogos sendo entrevistados pelos jornais. Não ouvi de nenhum deles a palavra machismo, porque o machismo ainda é encarado por muitos como uma característica social e não como aquilo que sustenta a sociedade. Ouvi esses especialistas falando em crime passional, expressão usada para designar o homicídio que se comete por paixão, entendida, por sua vez, como uma forte emoção, que pode comportar um sentimento platônico, possessivo e dominador.  Mas o que domina mais do que o machismo? O que torna a mulher propriedade, portanto uma posse, senão o machismo? Podemos continuar dizendo que se trata de um crime passional e dessa forma não permitir que o machismo apareça no debate, mas saibam: essa interpretação não é isenta de um posicionamento ideológico.  Relativas o machismo-  ou silenciá-lo- é um dos efeitos do próprio machismo.

Ninguém é machista declaradamente. Ser machista é uma adesão, um lugar onde se articulam a história e o inconsciente. O machismo imprime normas…regras…valores…e um jeito de seguir normas…regras…e valores.  O machismo é uma espécie de crença incondicional dos sujeitos, por isso não há espaço para um debate sobre o outro, com o outro, apenas pretende-se conservar um sentido que fora eleito como fundador: o de que a mulher está sempre sujeita ao homem, conservando assim um estado de poder que sustenta um ideal.

O machismo não é o ápice da violência, as balas que saíram da arma de Sidney, mas tudo que sustentou esse crime. Nesse sentido, volto a dizer, o machismo é uma estrutura ideológica, um funcionalmente social.

Respeitar uma mulher e lutar pelo feminismo não deve ser feito porque isso tem relação com os direitos humanos. Respeitar a mulher é um ato político, porque somos todos governados.

Amanda Cotrim é jornalista, professora e analista de discurso. Lê Kafka e Florbela Espanca, faz teatro e tem um programa de rádio. Na vida, passeia entre o roque e a bossa nova, ama queijo gorgonzola e salas de embarque.  Nunca escreveu um livro, mas fez três filmes. Atualmente, é Doutoranda em Linguística pela Unicamp.