Muitos não sabem, mas, desde os fins dos anos 80 e durante a década de 90, devido a excessos em movimentos sociais (inclusive bem anteriores a essas épocas), em especial nos Estados Unidos, França e Alemanha, o mundo moderno passou a experimentar um novo tipo de reacionarismo. Que é uma espécie de reedição romântica do antigo conservadorismo, do obscurantismo e do irracionalismo. Deve-se reconhecer e detectar tal fato social na expressão “reacionarismo pós-moderno”.

 Esse tipo de reacionarismo tem em sua nascente política a Nova Esquerda (ou esquerda pós-moderna). A que surgiu em contraposição às lutas dos antigos socialistas do passado, que acreditavam que a raiz de todas as desigualdades era a classe social. Agora, os reacionários pós-modernos, além de desligarem-se das lutas da antiga esquerda, das ideias que visam buscar a justiça com base na igualdade, creem que a origem de toda opressão é, basicamente, a cultura, o gênero, a cor da cútis e a sexualidade. Ou seja, características curiosamente cada vez mais relativas e/ou individuais. O curioso é que esse novo reacionarismo aproxima-se até mesmo da extrema-direita por compartilhar alguns pontos comuns; em especial, a anticiência, o antiintelectualismo, o sexismo, e o racismo. Só que em sua forma “politicamente correta”.

 O reacionário pós-moderno vai atribuir normalmente a origem de todo o mal nas sociedades a uma opressão da “cultura ocidental”, a uma sociedade “eurocêntrica, branca, machista (ou para os mais letrados, “falocêntrica”)”. São bizarras generalizações ao melhor estilo “meias-verdades” e que remontam a excessos do culturalismo – aquele que vem dos ditos “estudos culturais”, que são uma versão contemporânea do antigo irracionalismo – e do relativismo em todas as suas formas. E como bem disse o poeta Alfred Tennyson, “a mentira que é meia-verdade é a pior das mentiras”.

Notável também é o fato de que o reacionário pós-moderno é, literalmente, um conservador avesso. Só que com um ar mais “blasè” ou “descolado”. É conservador porque é também sexista, racista, etnocêntrico e sempre está reinventando preconceitos já antigos, só que sempre “do lado oprimido”. Dando-lhes um ar de “progressismo”, “revolução” ou, pior, de “justiça”. A diferença desses conservadores “new age” para os conservadores clássicos é o fato de que os pós-modernos, ao agirem desta forma, realmente acreditam estar combatendo e “desconstruindo” opressões.

 

Mas, com uma boa dose de senso crítico, ceticismo metodológico e um senso de honestidade que não se deixa levar por dogmas sectaristas de tipo secular ou político, é possível saber muito bem que essa gente na verdade age de forma contrária ao “senso de justiça” que tanto parecem buscar. Em especial, qualquer pessoa que estude qualquer coisa de forma rigorosa e honesta sabe que são o contrário de tudo o que afirmam. Aliás, “rigor” é uma coisa que todo tipo de reacionário detesta, e com o reacionário pós-moderno não é diferente: ele sempre precisa simplificar o mundo a suas visões e experiências pessoais, subjetivas. Por mais limitadas ou mesmo mentirosas que sejam.

O reacionário pós-moderno não sabe nada de ciência, técnica ou tecnologia. E acredita que tais coisas são indissociáveis. Ele crê, explícita ou implicitamente, que tais coisas são as culpadas pelo desenvolvimento da bomba atômica, pelos experimentos nazistas ou pela matança sistemática de coelhinhos e beagles. Bem como crê que podem ser também uma sinistra manobra para oprimir mulheres, homossexuais ou transgêneros. Isso para não citar que também podem ser a “ideologia da burguesia”, do “capitalismo tardio” e sandices afins. O pós-moderno “progressista” é alguém que odeia ciência, técnica e tecnologia. Mas é como o conservador mais tradicionalista vivendo no século XXI: vai apelar para a medicina científica, caso esteja doente, em vez de procurar um pajé ou guru. Vai apelar para um computador com internet para escrever seus “textões” em vez de usar pena, tinta e papel. Vai viajar de avião construído com sólida engenharia científica em vez de repetir a façanha de Ícaro, personagem da mitologia grega que morreu nas águas do Mar Egeu ao tentar voar usando asas feitas com cera de mel de abelhas e pena de gaivotas.

O pós-moderno está – ou diz estar – no rol das “lutas sociais” (que, quando organizadas por pós-modernos, em nada se parecem com lutas e sim com festas). Mesmo quando, no máximo, não passa de um simpatizante ativista de poltrona ou parte de um “DCE festivo” que nutre alguma “solidariedade” por elas. Mas o pós-moderno nada sabe sobre feminismo, humanismo secular, movimento negro, e acredita que sabe melhor que ninguém sobre essas coisas. O que é uma inverdade porque o pós-moderno é um deturpador de todas as causas sociais, conseguindo fazer com que o senso comum as veja como sexistas, racistas, segregacionistas ou avessas ao heterossexual e ao comum. Nunca estudou nada a sério sobre tais movimentos e, se ao menos estudou, é intelectualmente desonesto e falsificador de moeda cultural. Porque vai ser reacionário, anticientífico, pseudocientífico ou irracionalista em menor ou maior grau à medida em que diz defender os movimentos sociais. Em outras palavras, o pós-moderno e seu pós-modernismo são mais um inimigo do que um aliado das causas sociais. Porque, ao invés de convidar o senso comum ao debate e acepção dessas causas, faz com que se pareçam nefastas e indignas de qualquer diálogo.

Quando o assunto é direitos humanos, a situação é curiosa. O pós-moderno acredita que falar deles não é uma questão que interessa e deveria interessar a todas as pessoas. Em outras palavras, crê que os direitos humanos não abrangem a toda e qualquer pessoa. E nisso faz o desserviço, como os conservadores, de achar que direitos humanos são apenas para humanos direitos. Ou seja, enquanto para o conservador os direitos humanos só deveriam servir ao policial que encara o perigo ou às vítimas de algum assassino, para o reacionário pós-moderno os direitos humanos só serviriam para negros, mulheres, transsexuais, homossexuais, bissexuais e minorias. Torna-se claro que conservadores e pós-modernos buscam fazer dos direitos humanos, enaltecendo-os ou desprezando-os, uma bandeira para suas causas. O que torna o entendimento de um assunto tão sério, obscurecido por rixas políticas que vão do infantil ao repulsivo.

Direitos humanos na visão pós-moderna seriam uma questão de afirmação de grupos, e não da condição natural de seres humanos. Que, embora subjetiva, encontra respaldo histórico na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Mas isso não significa que eles só se estendam “aos oprimidos”, e muito menos “aos opressores”. Ou seja, para o reaça pós-moderno, os direitos humanos, pilares do Iluminismo já consolidados no Renascentismo, que visam a igualdade e a emancipação humanas independentemente de sua condição enquanto indivíduos, só deveriam servir a esses “humanos direitos”. Curioso é saber que o reaça pós-moderno está pouco se lixando para pessoas como ateus ou agnósticos, assim como os conservadores. Enfim, toda essa coisa de “Iluminismo, razão e ciência e igualdade a todos” é entediante, não é mesmo? Pois é, o reaça pós-moderno “fecha” com esse pensamento. Porque o ideário pós-moderno é uma reação contra os pilares da modernidade, ou seja, do Iluminismo.

A máxima do reacionarismo pós-moderno é o conhecido jargão popular “não confunda a reação do oprimido com a opressão do opressor”. O pós-moderno demonstra ter aprendido muito bem com Hegel, mesmo nunca tendo ouvido falar dele, a pseudofilosofia de guerra, que é a dialética. Então, que noção de igualdade e direitos humanos essa gente tem ou poderia ter?

Basicamente, o pós-moderno tem uma visão holista dos preconceitos e da opressão na sociedade. Ele vê toda a floresta, mas não vê as árvores. Ele acredita cegamente que o preconceito é só institucional ou cultural. Ignorando o fato de que todo preconceito nasce no indivíduo, porque todo preconceito é falha da razão, e todo ser humano saudável possui um cérebro em bom funcionamento. E também ignorando que o preconceito não existe apenas na sua forma institucional (ou grupal). E assim sendo, preconceito deve ser combatido nas duas esferas, seja a individual ou institucional. Mas, para o reaça pós-moderno, isso não interessa. Preconceito e opressão são apenas as partes “que lhe doem”.

O reaça pós-moderno detesta a política ao mesmo tempo que aparenta ter bastante interesse por ela. Mesmo dependendo dela, ele é o analfabeto político que Brecht bem descreveu. Esse tipo de reaça é muitas vezes um “anarcoxinha “ou “anarcoburguês” que se diz defensor dos mais pobres e crê que o Estado é a origem de todo o mal (inclusive de preconceitos que nascem no indivíduo, como o racismo e os de tipo sexista). Mas ele está lá, em seu “apê” na Serra da Cantareira, Asa Norte, Espinheiro, Ipanema ou Bela Vista ouvindo Edith Piaf, tomando finos vinhos e lendo todos os clássicos de Paulo Coelho.

 

É possível que o reacionarismo pós-moderno e seu subproduto, o reacionário pós-moderno, apareçam em trabalhos acadêmicos sérios em anos futuros. Porque a suposta “condição pós-moderna” prevista por Jean-François Lyotard, pai do termo “pós-modernismo”, além de ser inexistente, é na verdade algo que não tem nada a ver com avanços sociais ou com a superação de tempos modernos. É, na verdade, o maquiar do conservadorismo e do retrocesso em diversas questões humanas com uma capa de contracultura da segunda metade do século XX. E em meio a toda progressão tecnológica do séc. XXI.