A maior demonstração de falência intelectual da elite brasileira é o mal-ajambrado disfarce de sua pouca instrução com o domínio de falaciosas manifestações culturais.

Como a alta-roda social só considera validados seus privilégios em função de uma formação, estirpe e sapiência superiores à dos demais mortais e como ler, estudar e apreciar afrescos ou esculturas de modo mais aprofundado são tarefas árduas demais para uma gente que de tão pobre só possui bens e dinheiro, resta-lhes apenas enganar a seus pares elevando a satisfação de suas necessidades fisiológicas ao patamar artístico.

Assim conhecer vinhos passa a ser “cultura’; alta gastronomia passa a ser “arte’. E tampa-se com cálices de cristal e folhas de endívias o vazio de erudição; troca-se o teatro tedioso ou a vernissage chatíssima pelo restaurante caro.

Há que se admitir que os disfarces desta pseudocultura são elaborados; há toda uma etiqueta ritualística de inúmeros talheres, porcionamentos minúsculos para evidenciar paladares apurados e indefectíveis termos franceses a completar esse patético mimetismo burguês.

Entretanto esbarram os amantes de vinhos e de restaurantes refinados em um problema conceitual: fritar batatas e pisar em uvas são ações que – apesar de nobres, pois comer e beber são formas de socialização humana das mais importantes– nada têm de manifestações artísticas legítimas.

Ainda que as conceituações de arte ao longo dos séculos sejam tão variadas quanto insuficientes, há uma certeza: a arte é imprescindível justamente por não ser necessária. E bifes e bebidas – por mais rebuscados e refinados que sejam – possuem serventia: saciar fome e sede.

Ainda assim o engodo da gastronomia “artística” e da enologia “cultural” segue tomando corpo. A sociedade de consumo aproveita-se desse público cativo e ávido por jantar e beber obras de arte para lucrar com sua pedância e com a ignorância aparatada com guardanapos nas golas de suas caras camisas e vestidos de grife; programas televisivos como “MasterChef” tentam levar esta “arte” à classe média que a absorve com apetite igual ao dos mais abastados, pois já que não possui as riquezas materiais da elite, resta a imitação dos costumes – ainda mais se isso não demandar esforços intelectuais muito grandes.

E no meio de tanta idiotice confesso que nunca ouvi ninguém dizer que defecou um Mozart ou urinou um Pollack.

Porque quem chama gastronomia de arte nada sabe nem de uma nem de outra.