Discussões religiosas nunca acabam bem. No entanto, usando de uma certa audácia, embrenharei nas searas mitológicas do cristianismo com o intuito de entender algumas “passagens” do seu famoso livro, que não ficaram muito claras para mim.

Já nos versículos iniciais, provavelmente entediado com a solidão da eternidade, o great designer resolveu criar o mundo e, em seguida, o homem à sua imagem (Genesis 1:27). Posteriormente, criou as “árvores agradáveis” e a “árvore do conhecimento do bem e do mal” (Genesis 2:9).

Um pouco mais à frente, o trecho ordena que da “árvore do conhecimento do bem e do mal” o homem (construído à sua imagem) não deveria comer, pois certamente morreria (Genesis 2:17).

Façamos uma pequena pausa para singelas elucubrações. Se o nobre arquiteto criou o homem à sua imagem, creio que o criado também deveria acompanhar a inteligência do primeiro, evitando comer da árvore que o levaria à morte certa. Mas não!

Segundo e importantíssimo detalhe: se a nobre excelência divina não queria que o homem comesse da já citada “árvore”, por que ele não escolheu, em lugar desta, um pé de tucum, que seria menos atrativo para aquele que fora criado?

Finalizando esse primeiro tomo, questiono-me: se havia realmente uma necessidade de criar a “árvore do conhecimento do bem e do mal”, por que sua reverência, já que tinha a seu dispor todo o resto do mundo, não a colocou num lugar demasiadamente distante do criado, para que este não pudesse alcançá-la?

Enfim, voltando ao livro de “estórias”. Passado certo tempo, o mundo, agora habitado pelos filhos de Adão, Caim e Abel, tiveram a brilhante ideia de entregar (em mãos) uma oferenda ao santíssimo. Entretanto, este se agradou mais da oferenda de Abel, provocando algum tipo de sentimento outro, no excluído Caim (Genesis 4:5)

Acredito que não é preciso ter uma imaginação verniana ou quixotesca para adivinhar que dali não sairia boa coisa. Batata (teria dito Nelson Rodrigues se já tivesse sido inventado). Caim usou da confiança do irmão para levá-lo ao campo (o que qualifica o crime: motivo torpe). Em meio à relva, Caim desferiu o golpe fatal contra o irmão indefeso (Genesis 4:8).

Penso que devamos parar por aqui, pois já há dilemas demais a serem resolvidos. Sem a instauração de um inquérito ou de uma comissão parlamentar, o sapientíssimo, usando de uma ironia desnecessária, pergunta a Caim: onde está seu irmão Abel? (Genesis 4:9).

Caim sequer teve direito a um julgamento justo no qual pudesse expor os motivos que o levaram a cometer um ato tão cruel. Fora julgado e condenado a viver errante pelo resto do mundo (técnica que posteriormente seria usada no regime militar para exilar alguns artistas).

Expulso do paraíso, Caim perscrutou a aridez dos terrenos baldios que circundavam o paraíso entregando-se a todo tipo de sortilégio. Apesar do que se comenta à boca pequena pelas cercanias afora, pouco se sabe a respeito desse período, ou mesmo do fim que levara o criminoso irmão.

Em suma, sobram perguntas para essa narrativa criada pelo mais sábio dos sábios que já se tivera notícia. Ao contrário das mito-poesias gregas, que presenteavam sua criação com o direito de discorrer sobre os deuses, a anterior negava aos seus o direito de reelaborar as linhas contidas no livro supostamente sagrado.

Quem sou eu para sugerir alguma leitura para alguém, ainda mais para deus. Mas, se alguém tivesse mais intimidade com o cidadão, poderia sugerir alguma leitura que melhorasse seu problema de discurso e a falta de coerência em alguns trechos.

“Verdade e método” do Gadamer é uma boa sugestão. Mas se ele quer apenas ganhar a discussão, sem maiores explicações, sugiro “A arte de ter razão ou Como vencer um debate sem precisar ter razão” do Schopenhauer.

Só pra descontrair, seria legal se ele lesse “Caim” e “O evangelho segundo Jesus Cristo” do Saramago (precisamos concordar que essas versões ficaram melhores que as dele).