A expressão “cidadão de bem” surgiu em 1913 com o “The Good Citizen”, jornal periódico que apoiava a Klu Klux Klan – uma organização “fraternal” fundada no final do século XIX nos Estados Unidos por soldados vencidos na guerra civil americana e que promovia, sobretudo, atos de violência contra os ex-escravos negros, então libertados. Tratava-se de grupos de protestantes extremistas que tinham como símbolo uma cruz dentro de um círculo com uma gota de sangue no centro (simbolizando “o sangue derramado por Jesus como sacrifício pela raça ariana”) e que pregava a supremacia branca (crianças aprendiam cedo a pegar em armas para se defender de outras raças), o antissemitismo, o anticatolicismo (apesar de defender a “moralidade cristã”) e a xenofobia.

A Ku Klux Klan foi classificada como um “Hate Group”, uma entidade terrorista. Embora sua força seja hoje quase inexistente, há muitos de seus militantes espalhados por aí, radicados em grupos ainda mais violentos, como a Nação Ariana e outras organizações neonazistas.

A mesma expressão foi também cunhada para Hitler por seus seguidores (um “legítimo cidadão de bem”), após o sucesso de sua “Bíblia nazista”, o livro Mein Kampf, que também disseminou ideias espúrias e ilídimas – sobre as quais não vejo necessidade alguma de me estender – e arrastou uma multidão. A partir daí, tornou-se habitual referir-se aos linchadores e justiceiros como cidadãos de bem, e as definições e interpretações foram se moldando ao longo dos anos de acordo com as necessidades de cada sociedade. Em suma, a origem desta definição vem de práticas e ideais separatistas e segregadores, de radicalismos religiosos e/ou ideológicos, de aversão xenófoba, homofóbica, e de cidadãos que defendem uma sociedade armada e a justiça com as próprias mãos.

O que se pode então concluir de uma expressão originada no mal, fundamentada no mal e exaustivamente aplicada por pessoas que exaltam o mal utilizando o bem como subterfúgio, ao mesmo tempo que o banaliza? A meu ver, a resposta é simples: trata-se claramente de um simulacro. Em poucas palavras, um simulacro (apesar de, não coincidentemente, também se referir a armas e estratégias de guerra) é uma simulação, uma falsificação que se supõe verídica por ter partido de algum princípio/modelo real. Há veracidade no simulacro, porém uma veracidade que distorce e deforma o sentido real. A definição de simulacro em que me baseio é extraída de Gilles Deleuze e, a quem interessar possa, pode ser encontrada no final* deste artigo. Parafraseando-o, o simulacro do bem não é o próprio bem, tampouco uma cópia do bem. O simulacro do bem encerra a potência positiva da bondade negando tanto o bem em si quanto sua representação.

Durante a ditadura militar brasileira, tínhamos bem delimitados os dois lados da moeda: os “cidadãos de bem” e os “subversivos”. Não importava que os subversivos pudessem ser boas pessoas ou que os apoiadores do regime militar pudessem ser más pessoas, caso você resolvesse ir contra o regime tornava-se automaticamente um criminoso, com todos os seus direitos de cidadão cerceados. Não à toa apoiadores da ditadura afirmam, sem hesitar, que “em um regime militar, se você for um cidadão de bem, nunca terá o que temer”, ou seja, você tem duas opções: 1- se curvar ao poder totalitário e aceitá-lo de cabeça baixa, sem sofrer consequências ou, 2 – ser violento e truculento o bastante para se juntar a ele e fazer com que os outros se curvem a você. Sendo assim, o que há então a temer?

 

O que temos presenciado nos dias de hoje por parte dos autoproclamados cidadãos “de bem” é um discurso embasado em falsas moralidades e amparado por este jargão egocêntrico em que a pessoa se supõe um semideus. Falarei sobre isso adiante. Esta falsa moralidade foi apresentada por aqueles que Zygmunt Bauman – em seu livro Vidas Desperdiçadas – chamou de “nós”, em contrapartida àqueles de caráter duvidoso, denominados “eles”. “Nós” somos os irretocáveis exemplos da moral e dos bons costumes, que devem ser seguidos por todos, enquanto “eles” são os maus, os bandidos imorais que devemos desprezar e exterminar da face da terra. Podem ser definidos como sujeitos supérfluos ao desenvolvimento econômico, à sociedade capitalista. Nas palavras de Bauman: “Sempre há um número demasiado deles. ‘Eles’ são os sujeitos dos quais devia haver menos – ou, melhor ainda, nenhum. E nunca há um número suficiente de nós. ‘Nós’ são as pessoas das quais devia haver mais. (…) Os supérfluos não são apenas um corpo estranho, mas um tumor canceroso que corrói os tecidos sociais saudáveis e inimigos jurados do ‘nosso modo de vida’ e ‘daquilo que respeitamos’”.

E quem costuma ser, deliberadamente, o “eles”? O jovem pobre, preto, favelado e funkeiro, os ateus enviados do diabo, os indígenas que lutam por terras que “não são suas”, os sem-terra, os sem-teto, as prostitutas, os homossexuais, LGBT’s e todos aqueles que, desde sempre, são postos à margem.

Aqui em nosso país os autodenominados cidadãos de bem são, em sua exorbitante maioria, membros da família tradicional brasileira, patriotas que prezam pela ordem e pelos bons costumes, trabalhadores/empresários neoliberais, religiosos e predominantemente heterossexuais. É aquele cara que fala em Deus o tempo todo, mas desrespeita o porteiro e a empregada doméstica, sabe?! É aquele cara que reclama da corrupção, mas combina com o filho adolescente modos de colar na prova enquanto transita pelo acostamento. É aquele cara que reclama do trânsito, mas não hesita em infringir as leis ultrapassando o sinal vermelho e os limites de velocidade. É aquele cara que sempre se esquece de pagar o IPVA e, quando parado na blitz, solta 100 pilas “pro cafezinho” na mão do PM, ao mesmo tempo que ouve pelo rádio algum escândalo no Congresso e brada: “Bando de corruptos malditos!” É aquele cara que molha a mão do contador pra que ele consiga notas frias ao declarar o Imposto de Renda. É aquele cara que, ao ouvir falar sobre o Bolsa Família, diz: “Essa merda de bolsa esmola que me faz trabalhar pra sustentar vagabundo!” É aquele cara que aponta o dedo pro amigo que fuma um baseado, mas não passa uma noite sem seu bom whisky importado e suas altas doses de Rivotril e Lexotan. É aquele cara que acha lindo ter ciclovias na Europa, mas no Brasil isso é coisa de comunista. Aí ele vai pra Miami fazer compras e, ao voltar, forja o pagamento da taxa de importação sobre o produto, mas não sem antes se revoltar com o fato de ter se deparado com o filho do jardineiro do amigo milionário viajando ao seu lado na primeira classe. É aquele cara que é absolutamente contra o aborto, mas a favor da redução da maioridade penal e da pena de morte; afinal, se crescer e virar bandido, tem que matar. Mas, claro, é contra o aborto só até o limiar de sua própria necessidade, porque ele é aquele cara casado – o “pai de família” – que tem uma amante e, quando ela engravida, coloca nela toda a culpa e a faz abortar, já que ele arrumou uma amante pra trepar e não pra botar filho bastardo no mundo e pagar pensão o resto da vida. É aquele cara que comemora quando algum inocente morre na guerra do tráfico na favela – afinal, “bandido bom é bandido morto!” -, mas que lamenta a morte do inocente na orla do Leblon. É aquele cara que chama Bolsonaro de mito e acredita que só a população armada tem poder.

Lembram-se da Marcha da Família com Deus pela Liberdade? Aquela ocorrida em terras tupiniquins em 1964 e composta pelas camadas mais conservadoras do catolicismo, e que flertava com o regime militar por acreditar que ele seria capaz de frear o “comunismo ateu” em nome da Virgem Maria? Capitalizada por aqueles que apoiavam o golpe de Estado que nos meteu em duas décadas de ditadura? Então, o homem de bem é esse cara, e também aquele outro que em março de 2014 foi pras ruas fazer uma reedição desta marcha, hasteando bandeiras pela volta dos militares e pela morte dos “subversivos”.

(1964)

 (2014)

É aquele cara que, no estádio de futebol, durante a Copa do Mundo e ao lado do filho pequeno, mandou com todas as letras a Presidente da República tomar no cu, mas que acha um absurdo Lula ter usado o mesmo palavrão em um papo ao telefone dentro da privacidade e da intimidade do seu lar. O cidadão de bem brada contra a corrupção “petralha”, mas é incapaz de mover uma única palha contra a corrupção cotidiana e corriqueira dos executivos e CEOS das empresas que financiam seu consumismo desenfreado.

Aquele cara também serve para aquela mina. E todas essas pessoas, homens e mulheres “de bem”, nada mais são do que hipócritas dissimuladas. E dissimuladas por quê?

Por que se dizem a favor das leis e dos bons costumes ao mesmo tempo que os corrompe? Não, mais, muito mais que isso. Porque se supõem dotadas de uma idoneidade moral soberba que em nada condiz com a condição humana. Voltando ao meu grifo anterior: porque, intrinsecamente, se supõem semideuses. Nenhum homem, seja ele caracterizado social e eticamente como bom ou mau, está livre de, ao longo da vida, cometer graves equívocos ou infrações, e romper com as noções da boa conduta, e qualquer conceito criado a fim de justificar estruturas comportamentais será sempre passível de enganos.

É justamente por isso que Dostoiévski continua e continuará sempre tão atual: não por retratar personagens dotadas de arquétipos capazes de defini-las como vilões ou mocinhos, e sim por humanizá-las ao expor todas as suas contradições demasiado humanas, seja qual for sua postura ética ou moral. Sejam íntegras e admiráveis ou desprezíveis e hediondas, todas as personagens de Dostoiévski são pequenas em sua grandeza, e gigantes em sua pequenez. Tal qual o somos todos e cada um de nós. Para que exista um “cidadão de bem” é imprescindível que haja o outro lado, o “cidadão do mal”, ainda que ele não carregue o mal consigo. Ou seja, é o diferente de mim sendo automaticamente classificado como inimigo e indigno. Trata-se de um pensamento maniqueísta já na premissa, que elimina as sutilezas inerentes ao comportamento humano e reduz tudo e todos, de modo acrítico e infantilizado, a uma luta do bem contra o mal. Definir a si mesmo (ou ao outro) como homem ou mulher “de bem” significa preestabelecer-se superior, e dissipar nossas equidades e nossa isonomia cidadã, colocando num pedestal imaginário nossos próprios direitos, que nada mais são do que os direitos de todos os demais. E a única contribuição que a dicotomia deste modo de pensar e se portar pode nos oferecer socialmente é a consolidação dos abismos civis já firmados em grande parte das sociedades.

Eu, que ainda prefiro acreditar na possibilidade de sociedades mais justas, igualitárias e fraternas, me recuso, insistentemente e sem pestanejar, a carregar esta pecha.

*Definição de simulacro segundo Gilles Deleuze, em seu livro Lógica do Sentido: “Se dizemos do Simulacro que é uma cópia da cópia, um ícone infinitamente degradado, uma semelhança infinitamente afrouxada, passamos à margem do essencial: a diferença de natureza entre simulacro e cópia, o aspecto pelo qual formam as duas metades de uma divisão. A cópia é uma imagem dotada de semelhança, o simulacro, uma imagem sem semelhança. O catecismo, tão inspirado no platonismo, familiarizou-nos com esta noção: Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, mas, pelo pecado, o homem perdeu a semelhança embora conservasse a imagem. Tornamo-nos simulacros, perdemos a existência moral para entrarmos na existência estética. A observação do catecismo tem a vantagem de enfatizar o caráter demoníaco do simulacro. Sem dúvida, ele produz ainda um efeito de semelhança; mas é um efeito de conjunto, exterior, e produzido por meios completamente diferentes daqueles que se acham em ação no modelo. O simulacro é construído sobre uma disparidade, sobre uma diferença, ele interioriza uma dissimilitude. Eis por que não podemos nem mesmo defini-lo com relação ao modelo que se impõe às cópias, modelo do Mesmo do qual deriva a semelhança das cópias. Se o simulacro tem ainda um modelo, trata-se de um outro modelo, um modelo do Outro de onde decorre uma dessemelhança interiorizada (…) O simulacro implica grandes dimensões, profundidades e distâncias que o observador não pode dominar. É porque não as domina que ele experimenta uma impressão de semelhança. O simulacro inc1ui em si o ponto de vista diferencial; o observador faz parte do próprio simulacro, que se transforma e se deforma com seu ponto de vista. Em suma, há no simulacro um devir-louco (…).Consideremos as duas fórmulas: ‘só o que se parece difere’, ‘somente as diferenças se parecem’. Trata-se de duas leituras do mundo, na medida em que uma nos convida a pensar a diferença a partir de uma similitude ou de uma identidade preliminar, enquanto a outra nos convida ao contrário a pensar a similitude e mesmo a identidade como o produto de uma disparidade de fundo. A primeira define exatamente o mundo das cópias ou das representações; coloca o mundo como ícone. A segunda, contra a primeira, define o mundo dos simulacros. Ela coloca o próprio mundo como fantasma.(…) Então a semelhança não pode ser pensada senão como o produto desta diferença interna.  O simulacro não é uma cópia degradada, ele encerra uma potência positiva que nega tanto o original como a cópia, tanto o modelo como a reprodução. Pelo menos das duas séries divergentes interiorizadas no simulacro, nenhuma pode ser designada como o original, nenhuma como a cópia. Não basta nem mesmo invocar um modelo do Outro, pois nenhum modelo resiste à vertigem do simulacro.”

(A teoria de Deleuze acerca do simulacro é embasada em Nietzsche e Platão, e não se encerra nessas definições).