“Corre, doutora!”

É assim que, geralmente, começam os diálogos em uma emergência. Saio da sala e, já no corredor, me diz a residente:

“Aqui, aqui! Ela chegou em franca insuficiência respiratória. Não entra nada, Júlia. Esforço intenso. O filho a encontrou em casa assim.”

Entramos rapidamente na sala de procedimentos. Somos uma unidade básica de saúde. Não atendemos casos de urgência com frequência. Mesmo assim, esta deve ser uma habilidade de todos os membros da equipe. As pessoas não escolhem lugar para pararem de respirar.

E lá estávamos, enfermeira, técnicos de enfermagem, médicos, a residente e a Dona Valéria. Era uma corrida contra o tempo. A paciente de  66 anos, buscava o fôlego com seus olhos arregalados e não encontrava. Rapidamente, começou a ficar torporosa, lábios arroxeados e mãos frias.

“Prepara tubo, ambu, acesso venoso, oxigênio. Carla, colhe a história com o filho lá fora.”

“Saturando 45, doutora. Pressão de 160X90. Esforço respiratório intenso.”

“Passa o ambu. Posiciona pra ambuzar. Cadê o oxigênio no ambu? Dona Valéria, confia. Fica calma. Já vai melhorar.”

Oxigênio! Era o que ela precisava. Alguém que “respirasse” pra ela através do aparelho, pois seus músculos já estavam fatigados.

Aos poucos, a cor da sua pele chegava mais próxima de sua cor normal. Seus olhos estatelados serenavam e todo esforço que fazia antes para buscar o ar que lhe faltava já não precisava ser tão intenso.

“Doutora, saturando 96, frequência cardíaca de 90, pressão 150 por 90.”

“Tá melhor, Dona Valéria?”

Ela balança a cabeça. Tenta falar ainda com dificuldade.

“Não se afobe, não. Depois a senhora me fala. Seu filho já tá nos contando tudo que a gente precisa saber.”

Volta a residente.

“Tossindo há uma semana, sem comer direito há uns 3 dias. Não teve febre. Não toma nenhum remédio. Não tem doenças registradas no prontuário.”

“Ambulância já disparada do SAMU.” informa outro colega.

Dona Valéria tenta se levantar. Ótimo sinal.

“A senhora precisa se acalmar. Se tentar levantar, a falta de ar pode vir forte denovo.”

Barulho de ambulância. UTI móvel na unidade. Para ela, uma questão de vida ou morte.

Enquanto discutimos o SUS que queremos nas universidades, nos hospitais, nos espaços de luta social, a Dona Valéria me fez lembrar do SUS que precisamos: integral, universal! O SUS é de todos os brasileiros. Não pode ser sucateado ou reduzido. Precisa ser fortalecido através de políticas públicas suprapartidárias. Trata-se de uma política de estado. É uma conquista histórica do povo brasileiro.

O SUS NÃO PODE ACABAR.