Entendo o turismo como algo impossível – ao menos, da maneira como tem sido conduzido na atualidade – mas, igualmente, entendo que podemos superar suas mazelas e produzir algo novo. Abro meu texto com essa provocação e com um convite a debate amplo sobre esse tema, que merece a atenção de todos nós. Precisamos pensar na forma como o turismo tem sido produzido, comunicado e consumido ao redor  de nosso planeta: terra, ar, mar, cavernas, florestas – nenhum lugar escapa ao turismo, e a – nós – turistas.

Escrever sobre turismo é sempre algo instigante, pois é uma matéria que é vista por muitos como algo extremamente superficial, por outros como ‘algo apaixonante’: poucos são os que, efetivamente, se ocupam de sua – imprescindível – análise crítica. Num primeiro momento, turismo muitas vezes está relacionado ao lazer das pessoas em seu período de férias. ‘Merecido’, ‘direito’, ‘necessário’, ‘fantástico’, ‘maravilhoso’, ‘apaixonante’ são algumas palavras normalmente associadas ao ato de viajar, que em nosso tempo acabou sendo conhecido como ‘turismo’.

Sou professor em Cursos Superiores na área do Turismo (Turismo, Hotelaria, Gastronomia) e tais profissões são vistas como relacionadas ao lazer. Até mesmo os próprios discentes demoram muito tempo para (se é que conseguem, em alguns casos) se desvencilhar da ideia de ‘maravilhoso’, ‘apaixonante’ que foi associada ao turismo por obra do mercado. Para se desenvolver pesquisa séria e isenta, não se pode considerar seu objeto ‘maravilhoso’ no sentido que se atribui ao turismo pelo mercado. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Atualmente, pelas estatísticas da Organização Mundial do Turismo (Annual Report 2015), 1.184 bilhões de turistas viajaram em 2015 (50 milhões a mais que em 2014). Isso representa algo em torno de 15% da população do planeta Terra com condições de fazer turismo. Representa, igualmente, um aumento de 4% em relação a 2014: são 50 milhões a mais que no ano anterior. É o sexto ano consecutivo de aumento no número de turistas ao redor do globo. A previsão do organismo internacional é de 5% de crescimento para 2016.

A OMT fala em um 1.184 bilhão, mas sabemos que muitas pessoas decolam e pousam várias vezes num único ano. Tomemos por base que, efetivamente, 10% da população da terra possam viajar com turismo. Isso indica que há um seleto grupo de pessoas que tem esse poder e liberdade, portanto, o turismo internacional hoje se mostra como isso: a movimentação de uma elite global desterritorializada.

Mas, os números da OMT igualmente nos mostram algo mais preocupante: é ‘apenas’ 10% da população do planeta que pode fazer turismo: O que isso pode significar?  Pode significar várias coisas, citemos duas:

(1) que 90% estão fora da festa do turismo – e não podem tornar-se viajantes internacionais por diversas razões – dentre elas, provavelmente, a principal seja a econômica;

(2) que estes 10% que se deslocam já causam um imenso passivo ambiental para o planeta, se pensarmos ‘apenas’ na questão das emissões de poluentes dos aviões.

A atividade do turismo internacional para 10% da população do planeta se constitui num PRIVILÉGIO DE POUCOS que deixa um rastro que é socializado para TODOS OS DEMAIS. Daí imediatamente surge o ponto principal desta minha análise de inauguração desta seção da revista Língua de Trapo: se apenas 10% da população podem fazer turismo e se o turismo é um direito de todos, os outros 90% também têm esse direito, certo?

Começam nossos problemas. Enquanto apenas ‘nós’ fazemos turismo, tudo bem. O planeta sofre, mas não é nada que ele não dê conta de somar ao seu – já gigante – passivo ambiental. Mas, e se ‘eles’ começarem a fazer turismo? E se os outros 90% da população que terrestre pudessem se acomodar nas aeronaves e circular pelo planeta? Já pensou nisso? Na inviabilidade disso?

Afirmo: o planeta Terra não tem condições de suporte para uma atividade turística que realize o ‘direito pleno ao turismo’ a todos os seres humanos. Agora, se isso é um fato, e isso é um fato, o direito ao turismo – nas condições tecnológicas atuais – é uma falácia e é uma falácia amplamente promovida pelo mercado para poder atingir seu único e inequívoco objetivo: o lucro. E nesse discurso de ‘direito’ ao turismo nos moldes do mercado embarcam quase todos: turistas, comunidades locais, poder público e, principalmente, a academia – reproduzindo acriticamente essas ideias. É preciso lançar um olhar extremamente crítico (acreditem, isso não é pecado, nem ‘coisa’ da esquerda) sobre o turismo. Para esquentar nosso debate, proponho algumas questões:

  1. Se o turismo tornar-se direito de todos, ou seja, se os sete bilhões e meio de pessoas deste planeta puderem viajar pelo globo terrestre, como fica a condição do planeta Terra para suportar, por exemplo, a movimentação de tantos aviões, ou ainda a produção de alimentos, hospedagem? Como encarar esta situação?
  2. Como conseguir manter a verdade das pessoas e lugares que se tornam turísticos, e não transformá-los em espetáculos para consumo dos turistas?
  3. No atual nível tecnológico, o turismo tem condições de ser explorado de maneira que não venha a destruir aquilo que explora? Como?
  4. Devido ao gigantismo do movimento do turismo em nosso tempo, seus impactos são sempre significativos: quais as relações éticas que surgem quando saímos de férias?
  5. Qual é o direito que ‘nós’ temos de fazer turismo, que ‘eles’ não podem ter?
  6. Quais as relações de hegemonia global entre os lugares emissores de turista e os receptores?

Ao mesmo tempo que o problema do privilégio se apresenta, precisamos refletir sobre a ideia de ‘fazer’ turismo. Esta se apresenta como a possibilidade de novos encontros, nos quais as pessoas podem (se) permitir o contato aberto com outras formas de vida, outras paisagens, e outras pessoas. A essência das movimentações físicas (e simbólicas) promovidas pelo que se convencionou chamar de turismo são as pessoas. São pessoas que viajam e que querem conhecer outras pessoas, outras culturas, outros ambientes. Os deslocamentos humanos forjam encontros entre diferentes pessoas, e esses encontros podem ser prenhes em possibilidades de aprendizado.

Neste sentido, o ‘turismo social’ tem sido pensado a partir de uma preocupação mais elaborada – no que se diz respeito, por exemplo, à questão da qualidade da viagem, do encontro, das experiências. Não obstante, ele é realizado no mesmo substrato que os demais tipos de turismo: o planeta Terra. Isso nos coloca as mesmas questões: meios de transporte, alimentação e hospedagem e a íntima relação que estes têm com as questões ambientais, físicas ou mesmo simbólicas.

Estas são algumas inquietações pessoais minhas. Senti-me à vontade para partilhá-las com vocês que chegaram até aqui. Que tal um retorno? O que você acha disso tudo? Quem sabe possamos instituir um debate franco que encare essas questões fundamentais e que balizam toda a discussão profunda sobre os sentidos do turismo em nosso tempo.