‘Udenismo’ é um termo que passou a designar uma prática política que se resume a acusar o adversário o tempo todo de corrupção, a governos que constroem infraestrutura de o fazerem por propinas, a mobilizar o judiciário e a imprensa para denunciar adversários e, sempre que acumulado o poder necessário, praticar golpes de estado.

Ele vem do histórico da antiga UDN, partido direitista brasileiro que existiu de 46 a 68, nunca venceu uma eleição nacional e tinha como expoente máximo o “corvo”: o jornalista Carlos Lacerda, maior golpista da história do país. Um homem que tentou derrubar quatro presidentes, levou um ao suicídio, outro à renúncia e finalmente golpeou o quarto, Jango.

Geralmente o udenismo é uma prática de direita.

E por que a direita usa o discurso denuncista contra a corrupção?

Não, não é a moral burguesa. Muitos se equivocam quanto a isso.

Pessoas de direita, no Brasil, praticamente só votam em ladrões, sabendo que são ladrões, desde que tiram o título de eleitor.

Minha família, amigos de infância, todos só votaram em ladrões a vida inteira, nunca votaram em ninguém honesto. E eu garanto que sempre souberam o que estavam fazendo.

No Rio, este ano, eles votaram em Crivella ou nulo, o que dá no mesmo. O fizeram com o coração tranquilo, só escondidos por este ser um bispo neopentecostal.

A corrupção não importa à direita, desde que seja a de quem, como eles, se vendeu para ou apoia o sistema.

Ela usa o discurso udenista primeiro porque transformar uma eleição numa disputa sobre corrupção afirma a ideia de que os problemas do país se devem ao não cumprimento da lei, e não ao fato de termos que mudar leis injustas. É um discurso essencialmente conservador.

Segundo porque eles simplesmente não podem ganhar votos populares ou de esquerda falando o que querem realmente executar no poder, que é sempre, basicamente, concentrar renda pela desregulação do mercado.

Por fim, porque a direita não deixa de votar em candidato de direita porque ele é corrupto. Eventualmente, é a esquerda que o faz com denunciados de esquerda.

É a nós e àqueles que não têm consciência de classe que eles conseguem atingir quando denunciam supostos desvios éticos de quem deveria estar lutando contra o sistema.

Temos muito pouco a ganhar quando adotamos o discurso udenista. Eventualmente, só um ganho eleitoral circunstancial de parte do voto despolitizado.

E só quem pode se servir desse discurso é aquele tipo de esquerda que para se manter virgem ideologicamente renuncia a alianças, a concessões discursivas e ideológicas.

É aquela esquerda que troca um executivo compartilhado por uma nesga parlamentar exclusiva.

Pelo comando de um sindicato.

É a esquerda que, como dizia Sartre, não “coloca a mão na merda” do mundo.

Nós nunca teremos na democracia burguesa a máquina de denúncias da imprensa e a máquina de repressão e injustiça do judiciário.

Entrar nessa seara é entregar ao inimigo a escolha do cenário das batalhas políticas.

A esquerda só ganha eventualmente batalhas em democracias burguesas quando se torna esperança. Quando propõe políticas públicas e denuncia políticas públicas. Quando mostra quem no poder faz pelo povo e quem não faz. Quando mostra que o udenismo é uma tática para enganar a população. Todo dia. Todo mês. Toda eleição. Porque o povo esquece.

O povo esqueceu Jânio, a ditadura, Collor, FHC, Serra. Já esqueceu até Aécio.

Com o udenismo, o resultado será sempre o que vemos no Brasil hoje, por todo canto.

A agenda será a da exploração máxima da classe trabalhadora, baixa e média.

E os decentes serão os ladrões, e os ladrões os governantes.

Porque o udenismo é o nome político da hipocrisia.

Ele é a versão brazuca do fascismo: seu inimigo máximo não é a esquerda.

É a própria democracia.