A espécie mais perigosa do planeta está diante de um paradoxo – entre estratégias de alheamento e o, ainda, negacionismo quanto às Mudanças Climáticas, redimir séculos de distorções industriais e equívocos socioambientais. Detalhe sórdido: a única certeza é de que partimos de uma economia narcisista em todos os níveis, focada na escassez e de uma insensibilidade que se sobrepõe a qualquer valor civilizatório, sem tributo ao humanismo ou à ecologia, sem compromisso ético com ninguém, além de si mesma.

Personificar a economia é redundante? Redundante é perceber que a enrascada épica em que o narcisismo econômico nos meteu escancara o mais autossustentável e contagioso círculo vicioso já criado, onde cada cidadão do planeta é refém e cúmplice do que o oprime – ladrão do futuro de seus descendentes.

Somos nós, a economia narcísica. Entre assassinato e suicídio acreditamos, mesmo quando nos colocamos contra o sistema, que não há outro caminho além de lutarmos individualmente para preservar parcos privilégios de consumo que, pantograficamente, engordam os donos do mercado.

Baixos índices de pertencimento e cidadania, os nossos. A espécie que inventou conceitos como República e Democracia prefere lutar por privilégios a direitos.

Rendidos ou em luta, independente de ideologia ou postura, cada um de nós transa gostoso com o mercado, goza com seu padrão de qualidade, sua estética de obsolências e persegue necessidades cada vez mais distantes do essencial…

A tralha burguesa é ensinada a cada um de nossos bebês. As famílias, nossas famílias, reproduzem o padrão do mercado gratuitamente, investem certezas na possibilidade de ascensão social. Apostam no mercado…

O consumo é nossa lei. A incompletude é nossa eternidade. Nossas listas de compras começam pela prioridade básica: – Eu preciso!

Nossas precisões sem questionamento são o motor do mercado que nos assombra e devora…E ainda que uns poucos entendam que a riqueza maior de nossos tempos é não precisar, os anseios das pessoas repercutem os anseios do mercado… Entretidos de tudo o que não importa e mais um pouco, simplesmente, não ousamos fazer de outro jeito. Os poucos que ousam sabem o preço que pagam.
Somos bilhões investindo em privilégios e plástico dourado. Acreditando em groselhas institucionais, protocolos sociais, empreendedorismo escudado no ego, obrigações de conforto e segurança sem direito a paz, enquanto remuneramos o lucro alheio. Vendemos nosso tempo e esforços a preços irrisórios, e ainda competimos pelo poder de consumo.

Enquanto a panela planetária esquenta, o mercado ensaia dancinhas de marqueting verde, edita a gosto sua ética de preservação, faz biquinho de sustentável, mas segue na direção que aponta seu nariz, preservando a onipotência industrialista, mudando sem mudar de fato. Buscando adequação à redução das emissões de carbono, sem tirar o pé dos investimentos na manutenção de hábitos e anseios individuais já insuflados.  É preciso manter a inconsciência para manter o faturamento! A liberdade de desejar justificará tudo, inclusive, a prisão aos hábitos.

Queira e compre. Se não comprar o que quer, sofra… Necessário ou não, compre… Não importa se você quer ou não quer uma descascadora elétrica de bananas – terá uma — movida a energia solar — numa cozinha com design futurista, com a velha e escassa água caindo da torneira de grife no grande mistério do ralo, com os mesmos detergentes coloridos e perfumados de sempre. De brinde, mais um traste para lavar.

A moral dos privilégios individuais imunes ao coletivo segue intocada em todo o espectro social, independente da temperatura planetária. Que autoestima extraordinária! A situação é mais dramática que parece. Mas quem capitula primeiro?

Sem concessão a prioridades, ostensivamente, cresce a naturalização da psicopatia como método de sucesso. Somos todos guerreiros disputando privilégios para preencher o oco de direitos que temos, mas não ousamos. Se ousássemos nossos direitos, escolheríamos sem desesperos.

Disputas ideológicas à parte, ainda estamos longe de um modelo político que dispense o consumismo porque não nos arriscamos a fazer por nós mesmos, muito menos, porque não damos um passo sem autorização social. Nossa vulnerabilidade finge estar distante o suficiente para que não nos arrisquemos a percebê-la no canto da sala, negando nossa soberania como indivíduos.

Vivemos, em escala global, o pesadelo da imposição de demandas. O consumo de massas impõe o curto-circuito entre os anseios básicos e os delírios institucionais-corporativos. O Estado de bem-estar social é o Estado da promiscuidade público-privada com seus efeitos colaterais variando segundo matrizes e filiais…

Porém… Entre a cozinha geopolítica e a democratização da informação, parte da humanidade está aderindo ao que, talvez, mude este quadro: a politização do consumo!

Que maravilha se esta fosse a nova utopia…

Pela internet e no chão de países com raízes culturais e educacionais relativamente preservadas – não por acaso, matrizes das corporações que mais destroem mundo afora — a consciência ambiental busca sua vocação para a racionalização do uso de recursos no plano doméstico. Paralelo ao mundo fictício do mercado há um resgate de modos de vida ancestrais que filtra e atualiza culturas, e evidencia uma luta aberta contra o desperdício, talvez, retomando rumos e hábitos de vida anteriores à onda consumista do pós-segunda guerra…

A consciência ecológica emergente mostra a crescente recusa à degradação ambiental. Tais populações, não sem estímulos, entenderam o recado da ciência, transcenderam o senso comum. Para muito além do mercado verde, adotam uma postura política ao consumirem – ou não consumirem – com reflexos diretos em governos e empresas.

Jovens que não querem automóveis não são mais exceções. Fogem do método de vida tradicional. Viajam de trem, de bicicleta, a pé. Estudam, plantam, buscam a simplicidade. Saem das cidades ou lutam por verdejar as cidades mesmo. Para muitos, sustentabilidade é um novo valor de cidadania, um valor não corporativo.

Cidades banem automóveis de imensas áreas, incrementando transportes públicos, ampliando espaços de convívio, praças e parques ao ar livre; surgem ciclovias, inclusive, para longos percursos, e adaptam-se meios de transporte para bicicletas… Por toda parte, hortas públicas e domésticas. Telhados verdes, jardins comestíveis, florestas verticais, fazendas permaculturais urbanas, ações de ocupação e liberação de calçadas para plantio… Políticas públicas buscam o redesenho de sistemas de energia, do uso de espaços urbanos… Energia eólica, painéis e telhas solares, biogás em novos sistemas de calefação, enfim, estão aposentando décadas de um padrão energético que, comprovadamente, não cabe mais.

Ainda que timidamente, a mudança de hábitos segue um fluxo inexorável. E com um detalhe promissor: a maioria destes movimentos germina em meio urbano e viraliza… Claro, não é regra. Não é o nirvana. Há resistências. Há tradições. Há luta social e há os “negócios”…

Quem manda notícias da Europa, Japão, Estados Unidos, Canadá, apenas como exemplo, conta que, por toda parte, pequenas iniciativas simples e diretas são postas em prática por um novo modo de vida. É ao consumirem que as pessoas estão inaugurando o basta à insustentável tirania de mercado do século XX.

A retomada das vendas a granel ao consumidor, o banimento das sacolas plásticas e exageradas embalagens comerciais, a luta contra a poluição visual e sonora, a reivindicação de uma publicidade menos frívola, rótulos mais completos, produtos sem rótulos e surgimento de lojas vendendo produções artesanais  também não são mais novidades. Muito menos é novidade a tomada de posição de consumidores críticos carregando seus próprios recipientes – privilegiando materiais duráveis e de reuso – para os estabelecimentos onde compram… Contra o desperdício e a cultura do fausto secular, comércio livre de produtos com data de validade vencida ou frutas e outros alimentos com pequenas deformações – a política de descontos para os que não se importam em ter mais tempo, gastando menos, para comprar a mesma coisa, sem o status estético, ganha espaço e deve trazer uma transformação importante ao mundinho míope do marqueting e do design.

Campanhas de partilha de excedentes, grupos de reaproveitamento de tecnologias – de eletrodomésticos a computadores e celulares –, reconstrutores, reformadores em luta permanente contra a obsolência, cafés de trocas de tudo que se possa imaginar, empresas e aplicativos especializados em escambos e compartilhamentos, desconstrução estética em todas as áreas, multifuncionalidade, enfim, o mundo  despertou para os cinco erres que inauguraram o século XXI – Repensar, Recusar,Reduzir, Reutilizar, Reciclar.

Os três erres da Eco 92 ou a teimosia detida no erre da reciclagem estão se tornando passado… [Cabe deixar recado: no mundo a caminho, o educador socioambiental que se recusar a considerar o Consumo Crítico em sua pauta estará sonegando cidadania aos alunos].

Parece que o mundo quer compreender que a questão ambiental é primordialmente urbana, necessariamente socioambiental – e que seu epicentro é econômico. Esta é a consciência ecológica no século XXI. O resto, o que não amarra as pontas de causa e consequência, é constatação inócua da destruição.

Mas… Essa gente quer preservar o quê?

Decerto, os países mais preocupados com a preservação ambiental não globalizam o problema apenas em função de seus recursos, ainda que meio ambiente seja parte de qualquer questionamento de qualidade de vida.

Se o planeta tem um limite de recursos naturais, óbvio que soberania será, proporcionalmente, um artigo de luxo reservado às matrizes das corporações. Países ricos em reservas naturais onde os valores republicanos mal transcendem homenagens póstumas a ladrões em placas de ruas; podem lutar para preservar à vontade: estão fadados a preservar para outrem, e viver em diáspora ambiental na própria casa.

Preservar para quem? É a bizarra pergunta a fazer quando falamos em temas “humanitários” como Aquecimento Global e Mudanças Climáticas. Não, ainda não é em nome da humanidade que está acontecendo tudo isso.

Se não quisermos entender a relação entre a consciência ambiental do povo com a forte tendência à privatização dos recursos naturais, bobagem falarmos em soberania…Alguém vai cuidar do que você não cuida.

E o que vemos? Que uma grande confusão entre a necessidade real de redução da “pegada” e a apropriação de recursos faz cada dia mais sensível a membrana que separa causas em sociais e ambientais, segundo países soberanos e sem-soberania.

A separação é mais nítida em países como o Brasil. A miragem é criada a serviço corporativo… A cisão entre a luta social e ambiental corta diretamente no pertencimento para focar na exploração, na urbanização e na industrialização seletiva de áreas naturais. Condomínios pra cá, indústrias pra lá. Estradas aqui. Centros comerciais acolá. Fazendas de um lado, jazidas de outro: e o povo sem lugar!

O bizarro persegue o país das instituições venais e, justamente, pelos vínculos profundos de nosso povo com a natureza, expõe outra aberração: a exigência de escolaridade para definir consciência ambiental… O prejuízo maior fica para a qualidade de vida das populações de menor renda, sempre expurgadas da participação nas decisões, por não serem letradas, por não trazerem contrato social no sovaco, por estarem constrangidas, por não terem tempo, por serem pobres, etc…

Enquanto promovemos a indiferença da sociedade brasileira à causa ambiental – ou reservamos a causa para a academia e os editoriais de mídia, sob o olhar romântico e raso de classe média –, do outro lado do mundo, a realidade soa concreta para os cidadãos comuns escolarizados e conscientes que clamam preservação ambiental global, lá de seus países de recursos e espaços esgotados.

Para o país dos sem-soberania, repleto de matas – a mata derrubada é sempre distante. Não importa se o quintal está cimentado, se o barraco do vizinho faz sombra ou traz inundação, se há lixo no barranco, se a floresta ao lado virou pasto, se o rio virou represa ou o morro de trás virou estrada… Importa apenas a narcose do povo: o meio ambiente a preservar deve continuar intangível, lá longe, onde a mídia mostrar!

O mantra da devastação ambiental é útil à privatização. O discurso é sempre seletivo. É o lero-lero de que o Estado é ineficiente e que é preciso excelência e eficiência, etc., etc… Mas não há novo paradigma, nova mandrakaria, odes à sustentabilidade em curso nos países cuja soberania é relativa: há apenas a manjada fórmula de apropriação, a mesma técnica de mercantilizar a desgraça e tomar posse do alheio.

Não vou engrossar mais o cordão dos que apontam o Brasil como atrasado. Não somos atrasados, nada. Somos mantidos assim, e isto é bem diferente… Somos um dos países mais ricos do mundo em diversidade sociocultural e ambiental, em conhecimento e sabedoria da natureza, em alimentos não convencionais, em espécies medicinais, em recursos naturais novinhos em folha… Prósperos em paisagens naturais, água, minérios, florestas não estudadas, culturas ainda preservadas… Temos recursos que reluzem aos olhos de “preservacionistas” de todo o planeta… Não somos atrasados, tenhamos claro – somos os sem-soberania!

Somos o país da carteirada, onde o simples e o simplório são enterrados na vala da impotência, ao lado da legitimidade dos anseios. Temos a autoestima espezinhada de berço para não lutarmos pelo país… Bom lembrarmos: quem tem a aristocracia brasileira não precisa de inimigos!

O bizarro do paradoxo brasileiro é bem outro… Fora do carimbo institucional, somos um país de gente simples, gente da floresta, da fazenda, da roça. Somos índios. Somos pretos. Somos caboclos, pantaneiros, ilhéus, caiçaras. Somos filhos e netos de estrangeiros maravilhados com esta natureza. Somos afeitos ao meio ambiente. Somos o país das benzedeiras, dos raizeiros, a pátria da garrafada, das velhinhas caminhando pela estrada com punhados de ervas espremidos nas mãos. Somos país de gente humilde crescida em quintal. Gente com histórias de planície, serra e cachoeira. Gente que pisou lavoura e pasto. Gente de infância, talvez até pobre, mas de extraordinária fartura de frutas, plantas, matas densas, rios limpos e peixe farto. A grande maioria dos brasileiros têm um pé na terra, não na impermeabilidade maçônica à venda. É gente do interior, filha de gente do interior, neta de gente que viu a industrialização e da urbanização sem critérios do século XX destruir seus quintais.

Não somos atrasados. Atrasadas são nossas instituições venais… A lição mais triste do modelo de expropriação que nos impuseram é a que ensina que ser simples, ecológico, da terra, do mato – é ruim… É preciso ser como aqueles de fora, os que têm soberania porque não temos… É preciso naturalizar a negação de nós mesmos… Nas vozes do mercado e, quase sem exceção, nas bocas de políticos e uns tantos intelectuais, nossos valores ambientais atualizados estão encarcerados em algum lugar entre os discursos ufanistas das ditaduras e as colunas sociais das confrarias municipais, onde tudo fede a cimento, carnês de impostos, especulação e negação das Mudanças Climáticas.

O senso comum mantido pela mídia e pela publicidade, pelos políticos e empreendedores  brasileiros é o avesso de empoderamento e soberania. É o insustentável ódio ao simples, o desprezo pelo natural, a ostentação material como modelo, a aversão ao popular. O Brasil oficial é o Brasil do atraso, do ódio de classes embutido no discurso de acesso ao mercado.

Enquanto parte da ciência “civilizada” alardeia até com acrescimento econômico como alternativa ao Aquecimento Global; ainda educamos, quando educamos, para a velha modernidade, para a deseducação sexual, para a religiões materialistas, para a indústria poluente, para o PIB, para a urbanização viciada, carimbada sobre a vegetação em simetrias de concreto escrituradas para manter os orgasmos cartoriais dos municípios.

Não bastasse a precariedade escolar, a consciência ambiental brasileira, seja pelos rumores dominantes, seja pelas iniciativas propositalmente rasas e inócuas de educação ambiental, está à deriva, sujeita à linguagem privatista, e é refém da mídia.

Mais que efeito estufa, o que aquece a Terra é a disputa pelo controle da subserviência dos povos sem-soberania. É o método do “meu pirão primeiro” que cai em cascata e escancara que as instituições são sócias do paradigma de subserviência ao modelo global, a partir do modelo de bem-estar burguês e do permanente olhar para o passado e para a reedição do passado.

Nós, os sem-soberania, continuamos olhando para trás. Separando em caixinhas bem-guardadas, o social do ambiental, a consciência política da consciência de consumo. Propondo educação ambiental pífia, meramente recreativa ou em cumprimento de tabelas. Estranhando o clima e negando as Mudanças Climáticas… Somos um país contraditório, repleto de recursos naturais preservados. Dizemos lutar por soberania, mas sempre deixamos a maioria dos brasileiros com a raspa do tacho…
Ainda estamos longe, muito longe de ver a causa ambiental como grande causa popular.

Resignados a país dos sem-soberania, obedecemos a ordem da economia da escassez – “Se a farinha é pouca, meu pirão primeiro”