Seu Tadeu era um velho boa-praça. Morava sozinho em Santa Tereza. Gordinho daqueles que não fazem  dieta. Sua glicose quase sempre estava alterada. Ele era um apaixonado pelo rock and roll. Tinha vários bolachões que valiam ouro.

O seu  pequeno apartamento, perto de  onde nasceu o clube da esquina, parecia um estúdio de gravação. Tinha várias guitarras Fender e Gibson , um baixo e uma bateria. Legado da época em  que tinha uma banda de garagem. Seu sonho era fazer sucesso com a música. Acabou funcionário público do Banco do Brasil. Ele nunca reclamou do seu trabalho. Mas, agora aposentado, entrou para uma escola de música para aprender tocar direito sua guitarra branca stratocaster da Fender. Sua guitarra favorita. Seu maior sonho era solar uma música do David Gilmour. Ele também gostava do Slash. Achava o Kurt Cobain um gênio do rock. Lamenta sua morte até hoje. Seu riff predileto era o da música Come as you are.

No prédio onde mora ,  ele tem um grande amigo, o Tales. Um adolescente que mora só com o pai. E seu pai odeia rock. Acha uma música barulhenta. Ele é apaixonado por música sertaneja de raiz. Só que Tales ama rock. Ouve o dia todo. Tales foi apresentado ao rock pelo seu Tadeu. Ele tinha cinco anos de idade. Seu Tadeu aplicou logo o Motorhead e o Nirvana na ”oreia” do moleque. Foi paixão à primeira vista.

Tales tinha dado uma sumida de seu Tadeu justamente por causa do ciúme do seu pai. Que falava que aquele velho maluco estava levando-o  pro mau caminho. Foram uns três meses sem falar com seu melhor amigo. Os dois estavam superangustiados. O pai de Tales foi muito duro com ele. Cortou a mesada e a guitarra neste período. Guitarra que tinha ganhado do seu Tadeu. Uma Gibson estilo do Slash.

Seu Tadeu estava muito triste com esta história de não poder conversar mais com Tales. Prometera que iria encarar o pai dele dia desses. Ficava treinando no espelho como iria encarar aquele homem forte e rude e de poucas palavras. Nestes vinte anos morando no mesmo prédio, eles pouco haviam conversado.  Só mesmo no dia do enterro das suas  mulheres. Os dois eram viúvos. Não tinham  quase que parentes e o que ligava os dois eram a solidão e o Tales.

Numa madrugada fria e chuvosa , seu Tadeu observou  da janela luzes vermelhas de ambulância. Por alguns segundos, fixou seu olhar para fora da janela. Estava curioso para  saber o que estava acontecendo na frente do prédio. Desceu e foi perguntar ao porteiro :

– Seu Edinho, tudo bem? O que está acontecendo?

– O pai do Tales sofreu um infarto e está sendo levado para o hospital.

Seu Tadeu não pensou duas vezes. Correu até o apartamento do Tales.

– Tales, meu filho, você está bem?

– Sim, estou. Papai é que não está nada bem.

Seu Tadeu se aproximou do pai do Tales, deu-lhe a mão e falou baixinho:

– Vai ficar tudo bem. Fique tranquilo. Vou cuidar do Tales.

Ele respondeu com um pequeno sorriso e um olhar de gratidão.

Ele pediu ao Tales que chamasse seu Tadeu para uma visita. Tales nem acreditou no que escutou. No mesmo dia, avisou o senhor Tadeu, que correu até o hospital.

Chegando, foi logo abraçando o pai de Tales.

Os dois conversaram horas e horas a fio. Deram gargalhadas, falaram sobre suas mulheres, futebol e tantas outras coisas.

Mas o  que mais surpreendeu foi a confissão do pai do Tales.

– Seu Tadeu, vou lhe confessar uma coisa.

– O quê ?

– Eu amo rock.

– O quê ?

– Amo rock.

– Seu crápula. Por que  não falou antes?

– Tinha ciúmes do Tales com você.

 Passou-se mais um mês. Quando num dia de tarde de sol a pino chegam à casa do seu Tadeu três convites para assistir ao show do David Gilmour em Sampa na arena do Palmeiras. Foi o pai do Tales que organizou a ida dos três a Sampa para ver este grande show.

Este show vai ficar na cabeça dos três por vários anos. Foi uma celebração de paz e amizade.

Agora os três montaram uma banda. Um power trio. Estão ensaiando quase todos os dias. O som lembra aquele punk dos anos 70 The Clash e Sex Pistols com uma pegada à la Nirvana. O som está ficando massa. Eles estão programando até um show.

Quem um dia irá  dizer que existe razão nas coisas do coração?