Quase nenhum dos meus amigos sabe, mas João Dória Jr. teve um papel significativo na minha formação e na minha vida, e nunca tive oportunidade de agradecê-lo.

Durante anos ele foi pra mim um modelo. Fazia economia no início dos anos noventa, já desiludido com o liberalismo econômico (sim, antes de estudar, eu achava que era um liberal), e ainda mantinha o péssimo hábito de tentar me informar pela imprensa sobre a economia brasileira. No fim da noite, na TV aberta, Dória tinha um programa de entrevistas chamado “Show Business”, na Manchete.

Esse era fundamentalmente um talk show sem talk nem show, em que sua mediocridade era compensada por um senso de bajulação sem limites. Quando eu ouvia aquela música da vinheta do programa, que começava imediatamente após o jornal da noite da emissora, era remetido imediatamente a um estado depressivo e ansioso, em que não conseguia evitar pensamentos sobre a decepção com os rumos de minha vida e minha formação.

Então, como por punição, muitas vezes assistia, entre enojado e terrificado, àquele programa de entrevistas. Sucediam-se nele, um após o outro, predadores sem cultura subjetiva desfiando sua ausência completa de valores e rendição total ao dinheiro. Gente que se orgulhava de trabalhar 16 horas por dia muitas vezes sem produzir nada para a sociedade, como era o caso de donos e executivos de bancos de investimento (o nome yuppie para especulação financeira) e publicitários.

Aquele mundo para mim era aterrorizante, petrificante. Não consigo me esquecer de um cartaz de recrutamento do Banco Pactual, do recém-encarcerado André Esteves, no alto da escada do IE da UFRJ. Procurava por jovens ambiciosos, gananciosos, implacáveis, audaciosos e workaholics.

E João Dória pra mim se tornou um símbolo daquele mundo horrendo, um modelo de anticristo. Porque ele conseguia ser ainda pior moralmente do que tudo aquilo. Ele era um socialite yuppie perdido dos anos oitenta sem sequer os valores yuppies: cafona, malandro, parasita, um sujeito que posava de empresário sem nunca ter arriscado ou produzido coisa alguma, um ignorante que vivia da mais rasteira bajulação e do dinheiro de sua família oligarca. Um homem que só respeitava e admirava o dinheiro.

Esse homem que hoje é apresentado como empresário em São Paulo sempre viveu de cargos públicos dos governos Sarney e PSDB e de sua “empresa” de produção de seu péssimo programa, bancado por seus bajulados. Além disso, vive de captar dinheiro público para organizar encontros sociais de empresários e editar revistas, das quais a mais famosa deve a fama somente a seu nome repulsivo: “Caviar Style”.

Esse homem hoje, o mesmo que ainda usa um suéter amarrado sobre os ombros, está em primeiro lugar nas pesquisas para a prefeitura da cidade de São Paulo. Esse é o estado atual daquela cidade. Esse é o estado de nosso país.

Mas eu só tenho a agradecê-lo, até agora. Porque, afinal, meu desespero noturno ao ver sua figura e aquele programa foi um dos maiores motivadores para abandonar a carreira, que não cheguei a começar, de economista. Lembro como ontem o dia em que assistindo àquilo tive a epifania: “prefiro o suicídio a uma vida em que minha sobrevivência dependa do convívio com essas pessoas”. E minha vida seguiu outro rumo, o rumo da felicidade. Por isso deixo a ele, aqui, meu muito obrigado. Obrigado, João Dória.