A extração de ouro em Serra Pelada, no Pará, superou 30 toneladas. Neste mesmo estado, a mineradora canadense Belo Sun pretende extrair 600 toneladas de ouro na Volta Grande do Xingu. Em 12 anos, o impacto ambiental vai muito além do estudo previsto: duas imensas montanhas de lixo tóxico em reservatório, comparadas ao volume duplo do Pão de Açúcar. Tem ainda as consequências da hidrelétrica de Belo Monte na região. Dois belos espetáculos de destruição da natureza.

A Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará  – Semas – deu licença para o empreendimento. O governo federal, Funai e Ibama são contra. A licença está suspensa. Porém, num país em que a Justiça prioriza interesses políticos e empresariais, o projeto pode se concretizar em nome dos R$ 60 milhões em royalties para o Pará. Em mais de uma década, serão R$ 130 milhões de impostos para o país, o estado e o município de Altamira.

“Quem era o que eu sou?”

Os “amigos da onça” nessas três esferas governamentais são também os inimigos da onça – animal símbolo do Brasil, ameaçado de extinção. Há exatos 30 anos, Milton Nascimento lançou o disco Yauaretê. Na linguagem indígena, Iauaretê é onça. A letra da música está bem atualizada em relação aos indígenas, nativos do mesmo hábitat desse felino. “Onça verdadeira me ensina a ser realmente o que sou / põe a sua língua na minha ferida, vem contar o que eu fui / me mostra meu mundo.”

Desde o descobrimento do Brasil, povos indígenas de todo o país assistem a um fim de mundo étnico. A definição dos portugueses, em 1500, é atemporal e atualíssima: índios têm alma, mas precisam ser ensinados. Dos portugueses e jesuítas eles ganharam espelhos. De umas décadas pra cá, recebem máquina fotográfica para conhecerem as suas novas imagens, mas a identidade continua e eles se perguntam: “Meu parente, minha gente, cadê a família onde eu nasci / cadê o meu começo, cadê meu destino e fim?”. O fim, para os brancos sem alma, é a promoção de etnocídios indígenas.

Branco da igreja evangélica, o atual presidente da Funai, Antônio Fernandes Toninho Costa, declarou que os índios precisam aprender a pescar. “O governo não tem mais condições de ser tutor”. A música Yauaretê fala o contrário. Ressalta a necessidade de onçar: “Tem de guerrear, lutar, matar pra sobreviver, pois assim é a vida.”