Há dias em que não quero compromisso e nem horário com nada. Há dias em que só quero sair por aí. Perder-me ou, talvez, achar-me. O que sei é que não quero horário. Sem obrigação, sem celular, sem compromisso, a não ser com minhas asas. Com minhas ilusões, que já estão quase todas perdidas.

E neste estado de ânimo fui ate a Paulista e peguei o primeiro ônibus que passou. Sem me preocupa com o número e o itinerário do ônibus. Queria circular um pouco pela cidade. Sentir as pessoas. Queria realmente prestar mais atenção na sua arquitetura, nas suas moças, tentar conhecer e entender um pouco dos hábitos e costumes. Isto porque quase sempre nessa selva de concreto e aço só andamos a mil por hora. Eu e você. E nesta correria do dia a dia as pessoas nem ligam mais pras outras. A impressão que tenho é que tudo é virtual, assim meio superficial. É zap zap e mensagens, quase sempre mostrando um mundo que não existe. Então eu saí por aí com intenção de prestar atenção nas pessoas de carne e osso, nas conversas nos ônibus, onde as pessoas fazem quase terapia de grupo. Isso mesmo. As conversas nos ônibus, quase sempre, são coletivas. E você descobre cada coisa! Histórias e estórias da vida e das coisas. Nesse dia, queria prestar mais atenção, ficar atento e colher a ‘essência’ de cada uma dessas histórias.

Nas primeiras falas, percebi histórias de sonhos. Todos querem ganhar na loteria pra realizar seus sonhos. Acredito que uma sociedade desigual produza uma espécie de alquimia cotidiana na qual todos querem mudar de vida. E lançar a sorte no jogo é a solução mais rápida para uma grande parte das pessoas. E na outra parte da cidade eles ‘montam empreiteiras’ pra ficar rico e realizar seus sonhos. Tem gente que se levanta só com o dinheiro da passagem de ida e de volta. Mesmo assim, não perdem a esperança de dias melhores.

De repente, entram no ônibus alguns artistas de rua tocando músicas populares e eruditas do Skank, Mozart e Zeca Pagodinho. Era uma mistura interessante que fez aquele momento no ônibus ficar mágico. É impressionante como uma bela música faz bem pra alma! Nos alegra, nos leva ao nirvana. Naquele caso, era um violão, uma percussão e um violino. Parecia uma orquestra de tão boa que estava a música e a interação dos músicos. O astral no ônibus mudou completamente. As pessoas ficaram mais falantes umas com as outras e os celulares foram para os bolsos e as bolsas. Realmente estes músicos mudaram a atmosfera naquele ônibus. Talvez os ônibus pudessem ser transformados também em palcos no dia a dia das grandes cidades. E assim o cinza habitual ficaria mais blue. Com um pouco de criatividade e de vontade política, as viagens diárias de grande parte da população poderia ser mais alegre, interativa e interessante. Fazer o trajeto diário na companhia de boas músicas e a meninada sendo colocada em contato com instrumentos musicais e sendo incentivada a aprender música. Levaríamos música, arte e poderíamos revelar grandes artistas de rua , da vida e da arte.

Acho que estava com sorte, pois aquele ônibus não tinha nada a ver com o 174 do Rio. Passou este filme na minha cabeça quando percebi o número do ônibus que pegara. Lembrei-me do filme em que o garoto Sandro, naquele 12 de junho, poderia ter feito outro caminho.

Pude perceber neste dia sem compromisso, em que estive leve e solto, que tragédias como a do ônibus no Rio, o 174, podem ser evitadas com muito pouco. Com tanta riqueza por aí, até quando esperar!?