Acreditei que o meu voluntariado fosse movido apenas pela causa social. Alguém beneficiado com as minhas doações revelou o meu egoísmo. Eu só ajudo para poder escrever. Não é tanto assim, mas tem verdade nisso.
Três anos atrás, fui a uma casa de cidade do interior para divulgar uma tragédia familiar. O objetivo era sensibilizar leitores e conseguir donativos para a família, com a notícia de que “Marido bêbado incendiou a casa com os filhos dentro.” Não era bem assim. Vizinhos socorristas acreditavam que a mãe poderia ter provocado o incêndio, com o marido dentro, bêbado a ponto de não conseguir andar. Ela também tinha bebido e não daria conta de salvar as crianças.

Na casa, o mais impressionante nem foram os estragos do fogo. Tinha um orelhão balançando. O aparelho público de telefonia virou berço para recém-nascido. A mãe percebeu o meu espanto e me conduziu à realidade. O orelhão não funcionava havia anos, por falta de manutenção e vandalismo. Tirava espaço de circulação de pedestre na calçada estreita. Todo mundo tinha celular e não ia mais usar aquilo. Foi o filho mais velho, de 13 anos, quem cortou o aparelho, em dia e horário comercial. Muita gente viu, não denunciou e ainda encomendaram um berço ao adolescente.

Pensei nessa família, fui levar verduras, legumes, roupas seminovas e um antigo aparelho celular. A mãe me reconheceu como “aquele que escreve”. Nem agradeceu os donativos. “Não vai ter serventia”, disse. Nenhuma das crianças comia verdura, aquelas roupas eram feias. O filho mais velho, 16, tinha vários celulares para vender. “Só coisa cara.”

Eu poderia ter ido embora, mas a minha vontade de rever o berço era incontrolável. Aquela mãe percebeu essa intenção e me comparou com alguns voluntários que não se cansam de ajudar moradores daquele bairro. Para entrar naquela casa e ouvir histórias, eu tinha que dar uma ajudinha. As cinco crianças assistiam TV e estavam esperando pelo almoço. Já eram três da tarde. O mais velho foi fazer um serviço, ia trazer dinheiro para almoçarem.

Quis ajudar. Ofereci um macarrão, molho. Isso já estava pronto. Faltava refrigerante e um pote de dois litros de sorvete. Não quis compactuar com aquilo, mas o olhar da mãe mostrou que a minha pobreza era igual ou pior. Eu era o tipo que precisava doar para sentir alguma paz. Para poder escrever sobre aquele mundo, eu pagaria por isso.

MST, ciganos ou Igreja?

Paguei, entrei e não gostei. O orelhão tinha sido vendido. O filho mais velho ia arrancar outro antes do nascimento do sobrinho, da irmã de 15 anos. Casa suja, escura, mau cheiro. Egoísta e impotente nas minhas ações solidárias, suportei desconforto para ouvir boas histórias. Aquela mãe pensava no futuro do primogênito. Próximo dos 17 anos, logo ficaria “de maior” e não mais ajudaria em casa, como se a única forma de sustento fosse roubar.

Depois que o marido tentou incendiar a casa, ela mandou o safado embora e tentou fazer parte de uma família de ciganos. Não conseguiu. Ela me perguntou se era vantagem entrar para o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Viu pela TV o acampamento do MST na Av. Paulista. Ficou bem impressionada. Quem ia garantir o futuro daquela família seria o mais velho, que acatou as ordens da mãe e estava namorando uma adolescente religiosa.

O rapaz chegou do serviço. Me olhou com desprezo. Lembrou quando  me recusei a conseguir um convite pra ele numa competição de MMA. Trouxe latinhas de cerveja para a mãe. Deu o dinheiro do almoço e foi assistir TV. Os irmãos reclamaram do cheiro de suor misturado com perfume de mulher. A mãe deu razão às crianças. O menino tinha que tomar banho na casa das mulheres atendidas.

Até que os meus donativos não foram em vão. Deram verduras ao periquito da gaiola. A mãe descobriu que minha roupa de gente velha serviria pra o filho ir na missa daquela noite. Era um investimento. Assim que ele completasse 18 anos poderia se casar com a namorada religiosa. Transformar um infrator em fiel era muito importante para aquela igreja.