A onda fascista que se formou no Brasil arrastou alguns amigos de longa data. Dois deles eram jornalistas, sendo que um, amigo desde o início dos anos 1990.

É verdade que não fazemos amigos por afinidade ideológica, mas há um limite ou embaralhamos nossas convicções e até nosso caráter.

Fico me perguntando sobre o que ocorreu. Os dois jornalistas são paulistanos. Dois homens. Tenho muitas hipóteses. Homens são criados para a guerra. Não há meio-termo. Mas esta norma cultural explica a violência, não a causa.

São Paulo foi tomada por uma pregação meritocrática. A mesma que alimenta um certo movimento separatista. A meritocracia destrói a generosidade. Orienta a busca desenfreada do crescimento individual, o ingresso no panteão daqueles que se fizeram por si. Como se nos fizéssemos sozinhos. Tentaram até mesmo capturar parte da esquerda pragmática com a invenção do frágil conceito de “batalhadores”. Felizmente, teoria não se faz com publicidade e marketing.

De qualquer maneira, a escalada pelo estudo premia em nosso país a classe média. E a classe média mais contemplada por um parque comercial de luxo em nosso país é a paulistana. Andar pelas ruas de São Paulo é caminhar sobre um imenso outdoor. Há convite por todos os lados ao consumo. O que faz a roda do individualismo meritocrático girar: “se me fiz por esforço pessoal, mereço ter o fantástico e o maravilhoso ao alcance de minhas mãos”.

Tudo isso explicaria a origem geográfica e de classe. Mas, o que envolveria jornalistas na trama fascista? Lembro da campanha de Lula em 1989. Ao final de uma entrevista coletiva no segundo turno, alguém perguntou em quem votariam. Todos, unanimemente, disseram que em Lula. O inverso do que havia ocorrido pouco tempo antes com diretores dos jornais. O que teria alterado esta perspectiva de classe? Arrisco dizer que pode ter sido o sentimento de inutilidade e frustração profissional.

Fernando Mitre me disse uma vez que o jornalista nutre uma ilusória sensação de poder. Sabe antes da maioria o que os poderosos tramam ou decidiram. Não raro, estão no olho do furacão. Teimam, contudo, a perceber que não são o furacão.

Para sentirem este poder, é preciso que o que noticiam seja apreciado e valorizado por leitores. Uma droga precisa fazer efeito para se popularizar.

Ocorre que nos últimos tempos a droga parou de dar resultados. A queda de vendas e assinaturas de jornais foi ao precipício. O campo de leitores se reduziu à classe média de alta renda e instrução. Esses são os leitores que leem e elogiam colunistas. Que os abordam em cafés e restaurantes. Que fazem o circo se manter em pé.

Muitos jornalistas parecem sentir certa decadência no prestígio social em relação à sua profissão. A frustração leva a uma procura desenfreada pela reconstrução do prestígio por saídas quase sempre individuais. Nada de cooperativas. Muitos cursos de especialização. Nada de sindicatos. Muita tentativa de saltar para o veículo mais comentado, mesmo como freelancer ou abdicando de direitos trabalhistas.

Ao final, o que sobra é sua reprodução como jornalista. E os leitores de alto luxo e de direita.

Talvez, por aí, consigo uma explicação por qual motivo perdi alguns amigos jornalistas para a onda fascista paulistana.