Era um belo sábado de sol em Belo Horizonte. Desses sábados pra você curtir um grande show de jazz. E foi o que eu fiz, junto com meu amigão Luciano, grande baterista. Ele sabe tudo de música e um pouco mais. Suas baquetas são como as pernas tortas de Garrincha: Elas nos encantam. E eu aprendo muito com ele. Iríamos assistir ao show do Trio Corrente, excepcional grupo de música instrumental. Aprender sobre o 2-5-1 do Jazz. Sobre os tempos malucos da tão rica música popular brasileira. Fico fascinado com a mudança de tempo das músicas. Começam em dois e no meio estão em sete. Isso é fantástico.  Fazia um calor de verão em Belo Horizonte, em pleno outubro. À noite o clima ficara mais ameno. Como o show seria às 20h, o clima ficaria excelente.

Iríamos encontrar com mais algumas pessoas que também gostam de música instrumental e jazz. Como essas pessoas eram de outro lugar e estavam em um hotel no centro, preferi ir a pé para buscá-los. Era um casal de nigerianos, que não conheciam o Brasil, muito menos Belo Horizonte. Como o show seria perto do centro da cidade, convidei-os para irmos caminhando até o local do show. Eles toparam. Iríamos fazendo um tour pela cidade das montanhas. De longe eles avistaram a Praça da Liberdade, localizada no ponto mais alto da cidade. O palácio do governo, que tem arquitetura em estilo neoclássico, está abrigado ali. A praça é muito singular. Um lugar mágico que contagia as pessoas. Ainda conta com um coreto e uma fonte luminosa, inspirada no Palácio de Versalhes. O casal de nigerianos estava maravilhado. A todo momento tiravam selfies que enviavam à Nigéria.

Só que uma desagradável surpresa iria acontecer em segundos. Saímos da praça em direção ao local do show e, em frente a um restaurante tradicional da capital, ocorreu uma cena lamentável. Cena que talvez ocorra nas grandes metrópoles todo dia. Gente pobre pedindo esmolas. Infelizmente, acostumamos com essa desigualdade que assombra nossos corações e mentes, naturalizamos o fato.

Uma senhora e uma criança estavam pedindo um prato de comida. Queriam alguma coisa pra comer. De repente, na direção contrária, aproximou-se um casal com dois carrinhos de bebê. Aí eu pensei: Tá resolvido o jantar da senhora e da criança. Como eles estão com crianças no carrinho, serão solidários. Com certeza. Ledo engano!

Eles começaram a xingar a senhora e a criança e pediram para sair da frente, que estavam atrapalhando a passagem. A criança, curiosa para ver os bebês no carrinho, correu e foi até onde os bebês estavam. Para nossa surpresa, os bebês não eram bebês. E a criança levou um susto e uma mordida. Nos carrinhos, estavam dois cachorros. Isso mesmo, dois cachorros. O casal enfurecido com a criança e com a situação começou a xingá-los: “Sai para lá, seu mal-vestido”. Na hora, interviemos e saímos com a senhora e a criança do local. E o casal desapareceu com os dois carrinhos de bebê. Provavelmente com medo de alguma retaliação ou providências mais enérgicas. Naquela hora, preocupei-me mais com a criança e a sua reação diante daquela arbitrariedade. Sinceramente, fiquei sem saber o que fazer naquela situação. Fiquei atônito pelo menos alguns minutos. Caiu por terra a tão falada cordialidad07e brasileira. Não acho absurdo você ter um animal de estimação. Não é isso que está em questão.

Conversa pra lá e conversa pra cá, acalmamos a senhora e a criança. Oferecemos dinheiro pra eles jantarem e seguimos calados para o show. Chegando no show, encontramos o Luciano, que não sabia da história. Ele só falou que seria a terceira música. Apresentei o casal de nigerianos a ele e sentamos.

Para minha surpresa e obra do destino, a música a ser tocada era do mestre Pixinguinha. Meu astral começou a melhorar novamente. Comecei a entrar no clima. Quando finalmente a anunciaram qual seria a música, Desprezado.

A vida imita a arte. Neste país tão desigual, Pixinguinha já tinha dado o recado há tempos. Os desprezados existem desde sempre. E provavelmente serão muitos, com a direita e o Temer no poder. Viva o mestre Pixinguinha!