Celebridades. Quem se importa com elas?

Aparentemente, quase todo mundo. É fácil listar exemplos de como, através dos séculos, as pessoas olharam para figuras públicas e especularam sobre suas intimidades, seus segredos, suas vidas cotidianas. Antes de Hollywood, já acontecia de detalhes sobre os hábitos, casamentos e personalidades de reis e rainhas serem comercializados nas ruas fétidas e hoje tão romantizadas de eras passadas, desde os períodos clássicos de Roma, até os tempos obscuros do século quinze, quando boatos criaram crises políticas e pessoais tão grande que levaram Henrique VIII a decapitar não uma, mas duas de suas seis esposas.

Trata-se de fato de futilidade, ou de uma questão já debatida por profissionais da área da psicologia, de que precisamos não só da distração, mas também do conhecimento dos erros e fracassos alheios para nos sentirmos aliviados dos nossos próprios desastres pessoais? Nem ousaria dar um palpite, mas escolho acreditar nessa última teoria. Como indivíduos imperfeitos tentando nos encaixar nas vidas de sucesso vendidas com facilidade obscena em livros de autoajuda e discursos motivacionais, as traições, brigas, divórcios e deslizes de figuras públicas têm a qualidade de um bálsamo, oferecendo o alívio que posso comparar ao efeito de Tramal na veia de alguém agonizando com uma cólica renal.

E é por isso que muitos de nós ficamos intrigados com histórias de “fracasso” como o rompimento de relacionamentos aparentemente tão sólidos quando os de Fátima Bernardes com William Bonner e mais recentemente de Angelina Jolie com Brad Pitt. E as redes sociais expõem algumas mensagens inúteis, porém solidárias ao casal, alguns memes são produzidos para alívio cômico, e os posts mais cheios de ódio começam a borbulhar nas timelines de todos nós. Foca-se no começo do relacionamento, lembrando a todos de que houve uma traição ali, que fez uma vítima adorada por muitos, a atriz Jennifer Aniston. Esquece-se do pouco que sabemos de fato sobre o relacionamento do casal “Brangelina”, ignora-se momentaneamente que apesar de algumas atitudes questionáveis, a mulher se dedicou a muitas causas humanitárias, gerou um debate necessário sobre como criar um filho transgênero, e passou por cirurgias no mínimo agressivas para livrar-se do risco do câncer que levou sua mãe. Eu, que perdi minha mãe para um câncer antes mesmo que ela pudesse conhecer meu terceiro filho, consigo sentir empatia por esse tipo de atitude, e considero, na balança de um julgamento que não me cabe, considerar os deslizes da atriz como erros que todos os seres humanos cometem. Então não consigo sentir o júbilo venenoso de tantos que comemoraram esse divórcio como uma vitória do “carma”. E não que seja relevante, mas também conheço a dor de ser traída, e sim, consigo simpatizar com Jennifer Aniston, que seguiu em frente e aparenta estar muito bem resolvida.

Creio que existe um desequilíbrio macabro numa sociedade que se regozija com o sofrimento alheio, ao mesmo tempo em que compreendo nossa necessidade de ver o ruim dos outros para conseguir conviver com nosso próprio ruim. Há algo de muito humano em saudar o obscuro do outro. Há algo de humano em formar grupos de apoio para vítimas do mesmo tipo de trauma, em ajudar alguém sofrendo de uma doença que você conhece de perto. Encontramos formas diferentes de fazer isso, que variam entre trabalho voluntário e escrever livros, que é o meu caso, onde as personagens são tão podres e divinas quanto cada um de nós. Porque não é a qualidade de ser “humano” justamente a fusão desses dois conceitos antagônicos?

Sugiro um exercício no assunto. Conheçam o blog sem fins lucrativos mais acessado do mundo, o Post Secret. Ele começou com a ideia de Frank Warren de colecionar segredos e postá-los semanalmente no blog. Logo o fenômeno se tornou global e hoje ele coleciona mais de meio milhão de segredos, que variam entre divertidos, pervertidos, e simplesmente horríveis, com apenas um denominador comum: são humanos. Algumas confissões tocam apenas de leve nos traumas, fazendo com que imaginemos a história não contada daquela pessoa, como “Mãe, eu te contei o que ele fez comigo e você não acreditou.” Outros segredos são dignos de dias inteiros de reflexão: “Fico pensando nas várias maneiras de roubar um bebê. A infertilidade me deixou louca.”

Tenho o hábito de olhar o site todas as segundas-feiras de manhã, e usar a reflexão inevitável que os segredos me trazem para começar a semana me perdoando pelos meus erros, maldades, desejos ruins, e fazendo o compromisso de perdoar os outros pelos deles. Não, não sou zen a esse ponto. É como começar uma corrida com a intenção de percorrer três quilômetros, e ao perceber depois de 300 metros que você não é um atleta, que sempre fumou, que sempre preferiu os livros à academia, que sempre se encheu de porcaria “porque a vida é curta”, senta num banco, ofegante, e se perdoa. O único compromisso que você pode fazer é continuar voltando para a pista. E talvez na próxima vez percorrer uns cinquenta metro a mais. Uma hora a gente chega lá.