Como já dito algumas vezes nessa coluna, a moda representa uma sociedade de uma determinada época e lugar. É por isso que muitas vezes ela nos demonstra alguns paradoxos que, na verdade, são um tanto reais e presentes na vivência humana.

Na sexta-feira, dia 28, eu e a Bruna participamos de uma roda de bate-papo sobre moda, consumo e identidade. E em algum momento foi comentado sobre um dos principais e mais antigos paradoxos da moda: o consumo e uso de roupas para sentir-se parte de um grupo.

É aquela “preocupação” se não vai estar destoante de como as outras pessoas vão estar, por exemplo, se é para ir mais arrumado ou mais informal. Porque não quer se destoar de uma forma que poderia ser “negativa”.

Uma história contada no bate-papo foi a de uma adolescente que saiu com as amigas para comprar roupas. A maioria gostava de short curto e croppeds. Ela não, mas teve alguma resistência para admitir como gostava de se vestir, assim como teve alguma resistência do grupo para se vestir da forma como se sentia mais à vontade.

De alguma forma, há o querer de ser aquilo que se é, de usar o que se)\] gosta, sente bem e bonito. Mas há também o receio de olhares julgadores e feios, o olhar de aprovação.

Outro paradoxo que vemos na moda passa pela relação do novo. Embora reconhecida pela busca constante da novidade, o que vemos muitas vezes são ciclos e releituras, ou seja, apesar da busca do novo, sempre olhamos para o passado numa tentativa de se criar, e o que temos, principalmente, se observarmos os anos 2000, é nada mais do que novas vivências de estilos já passados.

E nessas buscas, ainda podemos ver uma outra relação paradoxal: da inovação com a morte. A busca pela novidade é também a “morte” de tudo que é criado. Ou seja, o novo significa também o velho.

Por fim, e talvez, o maior paradoxo atual é a busca, procura e exigência de uma criatividade, mas sem o tempo para tal. Como se o criar não fosse um processo e sim algo que pode ser feito a todo momento e de forma cada vez mais rápido. Como criar se a indústria trabalha sem tempo de criação?

Assim como é difícil o olhar para si e reconhecer defeitos, erros e falhas, a indústria da moda também precisa exercitar tal olhar. Até para perceber o quanto ela é impactada por nossas características humanas, afinal, ela é construída por pessoas e por isso é preciso entender que para um melhor funcionamento dela, não há de passar pela exclusão de tais características. Mas sim pela aceitação e aprendizado de como lidar com elas.