Reportagem do Jornal Tribuna de Minas

Algumas atrocidades só se repetem em países sem memória. Infelizmente, o Brasil não se acostumou a transformar os erros do passado em ensinamentos para mudar o presente. Esta semana, recebi por WhatsApp uma mensagem cujo conteúdo me deixou preocupada. Sob o título “O pior é que o milico tem fortes razões”, o texto, supostamente extraído do discurso de um general, questionava a liberdade.”Liberdade para quê? Liberdade para quem? Liberdade para roubar, matar, corromper, mentir, enganar, traficar e viciar? Liberdade para ladrões, assassinos, corruptos e corruptores? Falam de uma “noite” que durou 21 anos, enquanto fecham os olhos para a baderna, a roubalheira e o desmando que, à luz do dia, já dura 26!”

Lá pelas tantas, o militar pergunta se vivemos mesmo anos de chumbo ou se aqueles tempos foram de paz? Eu respondo, senhor general. Em nome das famílias que até hoje não conseguiram enterrar os seus mortos, vivemos, sim, anos de terror. Em nome dos jornalistas calados pela censura e assassinados pelo regime civil militar, como Vladimir Herzog, em 1975, sofremos muito com uma ordem que se impôs pelo medo. Embora o medo ainda nos acompanhe diante da violência que nos assola, jamais trocaria a nossa caótica realidade por um governo que usa a força para maquiar um país.

Afinal, que mérito há em governar sob o manto do silêncio? Também não posso aceitar que o mito de uma sociedade perigosa, que alimentou tantas injustiças, ainda seja usado para nos convencer de que a paz que necessitamos seja conquistada pelo uso da arma ou pela pena de morte. Por acaso não havia violência e corrupção na época da ditadura? Sim, havia, principalmente governamental. A diferença é que as vítimas não tinham voz. Permaneciam na invisibilidade, como muitos outros inocentes confinados aos porões que a lei jamais alcançou.

Mais do que o medo que sinto diante da falta de justiça, me arrepia pensar que podemos voltar a ser comandados por pessoas que encarnam o protótipo de pacificadores, mas são movidos pelo desejo de guerra e poder. Respeito as nossas instituições e os seus representantes, conheço militares que honram sua farda, e os admiro por isso, mas também conheço de perto personagens que muitos livros de história jamais citaram.

Por isso, defendo, acima de tudo, o poder de escolher o que eu devo pensar. Não estamos alienados diante do desgoverno do Brasil. Mas nenhuma derrota me convencerá de que o melhor para nós é o retrocesso de um período marcado pela dor imensa da mordaça e a vigilância do cativeiro. Fico com Dom Paulo Evaristo Arns que jamais se deixou calar. Viva a liberdade!

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