Background, bacon, best-seller, bike, blackout, blockbuster, boom, boy, business, cameraman, cartoon, check-in, close, cover, delivery, derby, designer, display, donut, doping, double, feedback, feeling, ferryboat, fitness, flashback, flat, freelancer, freezer, hobby, hostess, hype, job, link, make-up, mall, mix, performance, ranking, remake, rush, show, slogan, smoking, socialite, sold out, startup, voucher, whatever, workaholic, workshop, zoom…

De acordo com o deplorável projeto de “reforma educacional” do governo golpista, apenas três disciplinas serão obrigatórias em todo o ensino médio: Matemática, Português e Inglês. Inglês. Mais importante do que História, Geografia, Filosofia, Sociologia, Biologia, Física, Química… Inglês. Dá para um país ser mais vira-lata do que isso? Dá para um país ser mais colônia do que isso?

De qualquer forma, por falar em escola, sempre me recordo quando, no último ano do ensino médio, uma das melhores professoras que tive, a de Redação (matéria que hoje atende por nomes muito mais pomposos, como “Produção de Texto” – mas que ao menos ainda mantém sua denominação em português), pediu que compuséssemos uma atividade usando o máximo de palavras em inglês que fosse possível – tentando nos fazer ver como vivíamos em um contexto de intensa expansão cultural norte-americana, já nos anos 90. Achei aquela proposta muito legal – e acabou se tornando inesquecível – porque me fez perceber de forma muito mais clara como se estabelecem as relações culturais entre os países e como há, efetivamente, um imperialismo estadunidense que transcende as questões unicamente econômicas, e que as fortalece. Na época, onde exatamente essa presença era mais marcante? Principalmente na alimentação e na música, mas geralmente envolvendo coisas que não tínhamos originariamente: hot-dog, cheeseburguer, ketchup, sundae, milk-shake, rock, punk, jazz, rap, hit. Uma dúzia de palavras, que já eram capazes de refletir uma expressão bastante considerável do chamado american way of life entre nós.

Hoje, uma geração depois – com a consolidação do fim da Guerra Fria e da vitória do capitalismo ianque – é muito fácil notar como esse movimento de aculturação se disseminou intensamente por aqui e como há uma colonização efetiva dos EUA no Brasil e em boa parte do Ocidente – e até do Oriente. Uma parcela considerável desse fenômeno se deve ao que nos acostumamos a chamar de Globalização, que por sua vez também abrange o aparecimento de uma série de novidades, principalmente nos campos da tecnologia, como a internet, e que passam a ser nomeadas da mesma forma em todo o mundo, e se relaciona ainda ao surgimento de modas universalizadas, como a do “food truck”. Mas o processo é bem mais profundo. Eu, que cresci falando “salgadinho”, “cachorro”, “viagem” e “balada”, por exemplo, e agora ouço “snack”, “dog”, “trip” e “party” – substituições absolutamente desnecessárias, porque já tínhamos termos bastante adequados para cada um desses signos – me sinto não apenas em um outro lugar, que não é o meu, como me vejo em um lugar que não pode ser o que é, e é justamente isso o que me incomoda, porque é muito mais do que uma troca de palavras, muito mais. É um sinal do que é bom, positivo, adequado, e do que não é.

“Off” como sinônimo obrigatório para “desconto” me soa – desculpem a sinceridade – como uma diarreia nessa epidemia de vira-latismo. No mesmo sentido vai esse “affair”, palavrinha venerada pela imprensa de fofoca (alguma imprensa não é de fofoca? Enfim) para o lugar de “caso”. O uso endêmico de “crush”, por exemplo, em vez de “paquera”, ou algo que o valha, mostra bem como a cultura anglo-saxônica, a partir de mecanismos de hegemonia e de reconstrução de valores, é capaz de se posicionar no imaginário social como a “top” (perdão…) e definir a nossa cultura (ou as outras culturas todas) definitivamente como um conjunto de manifestações inferiores. Para isso, basta verificar o estrago que a indústria cultural, made in USA por excelência, tem feito nos corações adolescentes que, não raramente, acreditam mesmo – e se apoiam – na ilusória possibilidade de viverem um conto de fadas hollywoodiano. A troca da simpática “vaquinha” pelo afetadíssimo e coxinhíssimo “crowdfunding” foi, a meu ver, um símbolo antológico da nossa derrota como povo. Em nome do quê? De parecermos modernos? De parecermos com Nova Iorque? Mas, no fundo, somos o quê? Uma nação que se recusa a si mesma, que é incapaz de se reconhecer e, portanto, querendo ou não, uma nação em desmanche, uma terra que não pode ser dona do próprio destino. Esse é o fucking thriller de um país loser, man. Loser e on sale.