Sempre que começa a primavera, minha alma fica mais leve. Penso que tudo vai melhorar e que as pessoas ficarão mais alegres, solidárias e fraternas. Eu sei que isso é delírio puro, mas um pouco de otimismo não faz mal a ninguém.

Voltando de um show muito massa que fiz para estudantes de uma escola pública, esse meu espírito estava mais aguçado e mais leve. Estava eu pensando em como a vida das pessoas pode e deve ser melhor. Estava cantarolando uma música dos Paralamas: “eu quis dizer, você não quis escutar…”

Mermão, tudo mudou em segundos. Pertinho da minha casa, está em atividade uma grande construção de apartamentos. A tal verticalização das cidades. A especulação imobiliária. E logo ali onde nasceu o clube da esquina. Mas o bairro ainda conserva um ar bem amistoso e musical. Bem legal.

Voltando ao meu espanto, vejo dois pedreiros aos gritos. Palavrões estilo cinderela arrependida e coisa e tal. Parei bem distante para ver a cena dantesca. Estavam discutindo sobre futebol. Neste momento do campeonato brasileiro em que galo e raposa estão em posições bem opostas. Esse era o motivo da discussão. E o ‘pau comia’ legal.

Falaram mal da mãe um do outro, mandaram tomar naquele lugar, ameaçaram sair na mão, e isso tudo aos berros. Parecia UFC de graça na praça. A rua foi enchendo, enchendo de curiosos para ver a briga dos pedreiros. Fisicamente eram bem parecidos. Acho que eram amigos do mesmo bairro e, ao que parece, o grau de escolaridade devia ser o mesmo. Como se diz por aí, eram da mesma envergadura e do mesmo peso.

Mas, engano meu. Um tinha uma arma letal, que ele usou sem dó e sem piedade. No meio da discussão, o pedreiro negro, de pele mais clara, xingou o outro pedreiro, negro de pele um pouco mais escura, de tudo o que você pode imaginar quando alguém discrimina uma pessoa pela cor da pele. Fiquei sem acreditar. Como assim? Como pode? Mesma classe social, mesmo trabalho, mesma origem e cor.  E o outro pedreiro foi murchando, murchando, murchando, ouvindo todos aqueles impropérios no maior silêncio. Aquilo foi como uma bomba nuclear. O racismo, praticado por quem quer que seja, já é uma questão abominável. Praticado por iguais é muito mais doloroso e deletério.

Nesse meio tempo, o “dono da obra” veio intervir na discussão. E falou mais alto a voz do capitalista cujo dinheiro não é capim “pras mocinhas ficarem brigando” no horário de trabalho. “Dois negão, homens veio de guerra brigando por causa de time. Esqueceram que time não enche barriga de ninguém?” O outro pedreiro, para ir à forra, disse o seguinte: “Tá vendo, você é negão também”. O outro pedreiro ficou calado. Sabe-se que a tal proclamada miscigenação é uma característica forte no Brasil. Ela nos faz diferentes perante o mundo. Gilberto Freyre propagandeou isso pelo planeta. Sabemos também que ela cria distorções no mundo concreto.  Aqui o cromatismo de cores faz você ser opressor e oprimido. Vai depender muito (de) qual o grau de conscientização que você possui. Já vi muita gente que é oprimida no local de trabalho, principalmente se trabalhar em algum lugar de poder (aeroportos, televisão, empresa multinacional), por ser miscigenado e, na sua comunidade, ser opressor. Já vi caso até dentro das famílias brasileiras. O racismo no Brasil é uma questão ideológica que estrutura a sociedade. Por isso, de uma complexidade enorme. A classe dominante fez questão de confundir ainda mais a grande maioria da população. Quando interessa, você é moreninho. Quando não interessa, você passa ser o macaco, entre outros impropérios. É um tema espinhoso. Que devemos  encarar. Precisamos revisitar o grande professor Paulo Freire sobre a pedagogia do oprimido. Será que há uma indústria cultural para fazer que os iguais briguem entre si?

Eu saí pensativo, ainda sob o impacto da cena, pensando que há muito que fazer ainda. O primeiro dever de casa é unir a classe trabalhadora, pois do contrário vamos passar séculos e séculos brigando entre nós. Enquanto isso, os senhores da guerra ficam tranquilos, pois sabem que aqui embaixo as leis são diferentes. O Haiti é logo ali. Para a puliça, não tem essa de preto claro, escuro ou mais ou menos. É mão na cabeça, negão !!!!