I
Ética cristã: Judas se matou por horror aos próprios pecados. Logo, é um pecador. Cristo se deixou matar para redimir nossos pecados. Logo, é o nosso salvador.
 
II
De renúncia em renúncia o suicídio acaba por se parecer uma ninharia.
III
Regra de ouro: não deixar a mesa porque a comida é ruim, nem ficar por último mastigando a ossaria.
IV
Por que Adão e Eva, depois de provar o fruto da árvore do conhecimento, não se atiraram num precipício?
V
A Aristóteles e Tomás de Aquino: se Hitler tivesse se suicidado, teria sido um crime contra a comunidade?
VI
Tantas teorias para explicar o suicídio
e nenhuma, nenhuma só,
para explicar o apego à vida!…
Como se entre as duas alternativas
– entre a morte e a vida –
fosse óbvio que a vida está para a morte
assim como a sorte está para o azar…
Mas se a vida é um atroz suplício,
como os supliciados admitem,
e se a libertação só pede o exercício
do que a filosofia chama de liberdade
e a teologia de livre-arbítrio,
não deveria o suicídio, em vez de ilícito,
ser o objetivo único da vida
e a objeção ao suicídio o único enigma?
VII
Um suicídio frustrado dispensa justificativas para a reincidência: quem é inepto para se matar não pode ser apto para viver.
VIII
Eu vou, eu vou
À Golden Gate eu vou,
Eu vou, eu vou,
Eu vou
À Golden Gate eu vou…
IX
O suicídio é a realização do fracassado.
X
O histrionismo de Hamlet: para o verdadeiro suicida não é o fogo e o enxofre o que assusta.
XI
Como uma grávida, eu também sinto desejos: às vezes, tenho uma vontade louca de me jogar fora.
XII
Às vezes, o suicídio é a única coisa que dá profundidade a uma pessoa.
XIII
É melhor que dê certo: ninguém conhece melhor o desprezo do que o suicida frustrado.
XIV
A única causa pela qual é vergonhoso morrer é a causa de si mesmo.
XV
De dez em dez anos
eu faço penitência
por não ter me matado
com dez anos de antecedência