Coloquei tudo em uma mala

decidida a nos incendiar

Eu tinha duas escolhas

:

desamar violentamente

ou

despedaçar  uma a uma

nossas lembranças

Fomos sociopatas profissionais

em nossos barbarismos cotidianos

Eu te rasguei muitas vezes

mas a carne decepada foi a minha

Choveu

você não soube

de raiva eu te omiti

houve tempestades

vendavais

e em cada palavra minha

o fel aos pingos

a dor a conta gotas

em cada dor,

novos  oceanos

Pari para dentro

um amor ao contrário

e a cada abortamento

aguentar calada

rebentar as vísceras

flagelei todas as nossas memórias

e agora

carrego só

essa enxurrada de afetos mutilados

à espera

de um dia de sol

na esperança

de  evaporarem.