Se existe um país emblemático da nossa América Latina, é a Colômbia – conforme já aprendemos com Gabriel García Márquez. O seriado Narcos, até agora ambientado na 15Medellín do cartel de Pablo Escobar, se visto com a devida atenção, pode deixar pistas interessantíssimas sobre o que é o lugar onde vivemos – embora muitos, inclusive uma certa categoria de intelectuais brasileiros incapazes de ultrapassar suas prateleiras de filosofia europeia, não considerem a América Latina um seu lugar, mas, enfim. O ponto é que a pergunta célebre e inexorável de Escobar, diante do impasse, diante do próximo passo e do ato seguinte da sua história, representa, ao fim e ao cabo, o dístico derradeiro que a um só tempo reflete e assombra a América Latina: ¿plata o plomo? Negociação ou violência. Na realidade, Negociação e Violência, já que ambas são partes complementares da mesma coisa – a vida latino-americana. A negociação – seja política, comercial, cultural, identitária – sempre existiu como eixo basilar do fazer histórico na região, mesmo antes da chegada dos europeus. No entanto, a partir da expansão das dinâmicas capitalistas no século XX, conhece um intenso processo de monetarização e, em função da necessidade premente de uns e dos desejos desmedidos de outros, acaba por potencializar uma impetuosa cultura da corrupção, e, quando se esgota e se rompe o âmbito da plata, impulsiona a violência mais inclemente. Sobre a presença do conflito físico e da agressividade como traço cotidiano no Novo Mundo, nem seria preciso dizer nada. Os três séculos de escravidão debaixo de maus-tratos falam por si.

A História sempre deixa sua herança.

Há, no seriado, um diálogo entre Escobar e seu perseguidor oficial, Coronel Carrillo, que ilustra antologicamente essa condição geral: “Gonorrea malparido, por qué no recibe la plata mas bien como todo el mundo? Podría ter lo vivido como um rey, pero ahora sabe qué? Toca matar su papá, su mamá, sus hijitos, toda su familia.” – promete o chefe do Cartel de Medellín, com sangue nos olhos. Os livros de História nos oferecem uma outra confissão impiedosa e obstinada dessa alma sudaca: pela força da grana, mas também pela ameaça dos tanques de guerra, presidentes legítimos são destituídos e governos vira-latas e entreguistas são empossados. A lógica da plata o plomo garante a eterna permanência da condição de colônia e, consequentemente, a manutenção dos privilégios aos poderosos. Não seríamos o que somos sem a plata dos talheres nos banquetes que negociam os direitos do povo e sem o plomo da polícia que esmaga a resistência.

O Coronel Aureliano Buendía promoveu trinta e duas revoluções armadas e perdeu todas, foi uma das lições que nos deixou García Márquez. Alguns, entretanto, não aprenderam com o mestre do realismo mágico, ou por não o conhecerem, ou porque são teimosos demais para desconsiderar, assim, sem experimentar, a possibilidade do chumbo. Ou porque somos feitos de sangue. Ou, talvez, porque elas, as revoluções armadas, de todo tipo, estejam no sangue. Ou, ainda, quem sabe, porque se tem a cristã esperança de que a trigésima terceira, a da idade de Cristo, enfim vencerá.

Há, ultimamente, no Brasil (que tem a formação histórica, a realidade social e as relações políticas típicas dos países latino-americanos, para desespero de alguns), a banalização de uma compreensão equivocada a respeito do que Sergio Buarque de Holanda chamou de cordialidade. Seu conceito do homem cordial fala sobre agir com o coração, e não – como querem alguns – com amor ou com carinho. De modo que o ódio também é fruto do coração. Em determinado episódio da série – a propósito, comandada pelo brasileiro José Padilha e estrelada pelo também brasileiro Wagner Moura – um norte-americano comenta que o maior problema da Colômbia é que as pessoas tomam decisões intempestivas, passionais, no calor do desejo de vingança. E a vingança acaba por virar a trágica expressão local, nacional, continental da Justiça. O ódio que ativa essa represália enfurecida, bem como o suborno do público pelo privado, é, em larga medida, subproduto do capitalismo instalado em uma sociedade escravocrata e se vincula, ainda, a um ancestral e profundo rancor de classe, revelando uma sociedade polarizada, que se mantém dividida por vastos abismos e cujas oportunidades são dadas, via de regra, de acordo com a posição individual ou familiar na pirâmide econômica.

Aquilo que, em tese, estaria acima de tudo e de todos, independentemente da faixa que se ocupa na hierarquia social, a Lei, aqui pode ser quebrado, reinterpretado ou alterado ao sabor da plata, antes de se apelar para o plomo. Porque, no fim das contas, aqui a Lei não está acima de tudo e de todos. A plata fala muito mais alto – incluindo o interesse econômico do, digamos, capital legal, como o da burguesia industrial ou o do latifúndio.

Enquanto a violência só for percebida no outro – nas milícias revolucionárias paramilitares, no morro, na periferia, nos movimentos sociais – ela jamais será contida. A recente decisão colombiana, mobilizada pelo eleitorado urbano e pelas elites agrárias, de se negar a assinar o acordo de paz com as FARC, tratado que vinha sendo costurado a duras penas havia pelo menos sete anos e cujo esforço rendeu o Nobel da Paz deste ano ao presidente Juan Manuel Santos, é, induzida pelo medo mais do que irracional do “comunismo bolivariano”, a vitória do ódio e da violência. É a vitória do mais cretino foda-se a 250 mil vidas perdidas. É a vitória de quem acredita que pode esmagar a reação violenta aos descompassos violentos do país com mais violência, e é a derrota, principalmente, de quem não tem plata, porque nem lhes a oferecem corrompendo – ou flexibilizando, como gostam alguns de dizer – a lei, nem lhes a oferecem dentro da lei. O cessar-fogo entre o exército colombiano e as FARC termina dia 31 de outubro. Adivinhem como será o próximo capítulo da história dos nossos vizinhos, a partir de novembro…

Mas, o que é mais uma crônica das mortes anunciadas, diante do sonho de ser El Patrón? Se não o da série, outro (mais ao estilo político mineiro, talvez). Ter grana para exclusividades de todo tipo, para estar acima da Lei, para não conhecer desejos irrealizáveis, pra ser presidente, governador, prefeito, pra acender lareiras com dólares e, especialmente, pra evitar o chumbo grosso dos que também querem ter mais, mas que, por algum motivo, não podem.