Só por hoje

dizer

Chega!

Só por hoje

me permitir:

hoje eu quero perder.

Não preciso mais…

E sair perdendo tudo por aí

perder a maternidade

finalmente

ser a tia do meu filho

não acordar todas as noites

nem trabalhar todos os dias

ou ter paciência

diante  da incompreensão

ser apenas

a filha

a vizinha, a que pariu Matheus

mas é desengonçada de qualquer balançar

calmamente

perder

Só por hoje

arrancar essa armadura de vidro

que só me esfola a pele

e perder

dançar louca e nua

e escarnicenta

em meio ao tiroteio

na rua

competentemente

perder

Perder muito!

pra caralhooo!

perder também  a casa

e não ter mais contratos com bancos

nem hóspedes

ou herdeiros de pouca sorte

companhia de gás, de água, telefone e transporte

sem companhias!

Sozinha!

e acabar

com esses respiros cortados pela falta de horizonte

ser a que recolhe a garrafa que vem do mar

antes de se suicidar

e não mais ser a que está na ilha

até o fim de seus dias

resistindo a esperançar

Eu quero mesmo é perder.

E ser a descontrolada

a galinha, a puta, a virulenta, a mal-amada,

a reprimida…

a imunda

que separou o mundo

e só gera em seu ventre

o que tanto desafia

e já com todos os argumentos devidamente documentados

e publicados

para o nojo de meu corpo

em vermelho menstruado

feder e perder

E que todos saibam que só fui amada

pois era mesmo é dissimulada!

que confirmem

“essa cara de lesa!”

E que esqueçam meus textos

meus esmos

meus “mais do mesmo”

era mesmo  pseudoliterária!

a que só caga

entendam

que sempre fui só uma “azinha”

uma aleijada mal-resolvida

uma problemática

Ufa!

E eu quero perder!

E, até,

perder

para você!

quero que possa  parar de rir pelas costas:

“otária!”

E possa ter a naturalidade de rir pela frente

que não precise mais

mostrar qual é o meu lugar

nem que

em seu contrário

a heroína

exemplo

firmamento

eu estou cansada

eu preciso perder…

quero até que me prendam

pela baforada de qualquer cheiro estranho

que encontrarem

sempre dizem

“olha, no que ia dar!”

não é mesmo?

E que eu perca a guarda do filho

a beleza e a safadeza de meus gemidos

de uma vez por todas

perder

que eu possa

deixar

o cabelo sujo

a casa suja

o filho sujo

a boca suja

a letra suja

a vida toda ela

suja

me saciar de perder

me embebedar de perder

me entupir de perder

***

tão desconstruída sempre

um dia desmoronou

as fibras pelo chão em desordem

emitem agora o som do que tanto pediam nomear

já não é mais

nem forte nem fraca

apenas entulho

finalmente morada de estrutura sincera

que perde a forma

compartilha e se mistura

a todas as vozes e silêncios

à terra e à água da chuva

ao esgoto

ao horror da morte

e à beleza do se despir sem muros

e sem curiosos

natural

está tudo ao chão

é dele sua essência

perder-se…

substantivo

suspenso

Perdição