– Full house ganha do par de valetes do Boni. Mão do Adolf.

– Nossa, meu Füher, hoje você está com a corda toda. Não perdeu uma desde que começamos.

– Sorte no jogo, azar amor… bem isso…

– Vira essa boca essa boca pra lá, Boni. Não fica jogando macumba, não.

– Vamos outra que eu ainda acho que as coisas vão melhorar. Barman, coloca mais uma dose de vodka, por favor. A essas alturas nem precisa ser da boa, pode ser até uma blasvovova…

– Larga essa cachaça, Dostoievski. Se concentra mais na partida. Além de já estar viciado em jogo, vai acabar virando alcoólatra.

– Na Rússia todo mundo precisa ser alcoólatra, Duce. Como você acha que conseguimos suportar aquele inverno? É só na base da marvada.

– Nem me fale do inverno Russo. Foi aquilo que me quebrou. Eu tô dizendo isso pro Adolf faz tempo, pra ele não inventar de invadir a Rússia no inverno, que aquilo não é coisa de gente. Mas ele não me ouve… deixa ele. Eu digo é por experiência própria.

– Ninguém no mundo é páreo pro exército do terceiro Reich, caro Boni. Não vai ser um inverninho russo que vai nos deter.

– Apoiado, Adolf.

– Eita homenzinho puxa-saco esse Benito. Tu ainda vai se dar mal fazendo tudo que o Adolf manda. Anota aí.

– Small Bind pro Tiradentes e Big Blind pro Napoleão. Aposta mínima de dez milhões.

– Essa ninguém me toma. Cadê o barman com a minha dose? O Atendimento aqui tá meio caído, Churchill. Da próxima vez vamos jogar em outro país.

– Eu não tenho nada a ver com isso, não. Sou apenas a banca. O bar está a cargo de Vossa Majestade.

– Mesa.

– Eu pago e aumento em cinco milhões.

– Eu pago, seguro os cinco milhões do Duce e ainda coloco a cidade de Praga na rodada.

– Não vale apostar cidades, Adolf. É só o que está na mesa.

– Cala a boca, Boni. Deixa o cara apostar o que quiser.

– Fica na tua, puxa-saco. Ninguém falou nada sobre apostar cidades antes do jogo começar, não.

– Mas nós não vivemos infringindo os tratados internacionais? Qual o mal em violar umas regrinhas de poker?

– Relaxa, Boni.

– Beleza. Já que vai poder apostar cidades, por que você não aposta Viena?

– Viena não. Aquilo ali foi um projeto pessoal. Em hipótese alguma a cidade de Viena entra no jogo.

– Eita, homenzinho rancoroso. Isso tudo é só porque tu não conseguiu entrar pra tal Faculdade de Artes de lá?

– Olha a boca, Boni. Se você continuar tentando me ofender, eu vou invadir a França na minha próxima empreitada.

– Senhores, vão jogar ou não?

– Fica na sua Churchill, que a conversa aqui é entre ditadores. Quanto a você, Adolf, só lhe digo uma coisa. Experimenta colocar os pés em solo francês que você vai ver o que é bom pra tosse.

– Ui, ui. Tô morrendo de medo, Boni.

– Cadê o barman com a minha dose?

– Tá bom, tá bom. Deixa Praga então na rodada. Mas não é porque eu tô com medo, não. Sou baixinho, mas sou invocado. Eu pago.

– Pago também.

– Eu corro. Essa não dá pra mim mesmo. Até tenho um jogo mais ou menos, mas não tenho grana. Muito menos cidades pra apostar.

– Putz, Tiradentes. Mas tu és um liso mesmo. Bem coisa de brasileiro. Não sei nem por que tu tá nesse jogo, nunca conquistou porra nenhuma. Eu falei pra chamarem o Saddam.

– E a Inconfidência Mineira, Duce? Vai dizer que não teve sua importância na história?

– De ter importância até que teve, mas não foi nada original. Foi só uma cópia malfeita da Revolução Francesa. Depois o puxa-saco aqui sou eu.

– Falou pouco, mas falou bonito, Duce. Depois que o jogo acabar aqui, vamos tomar umazinha na Toca do Lobo, que eu tô com umas ideias novas pra discutir com você. Sei que vai gostar.

– Se é para ditadores e conquistadores, o que é que o Dostoievski faz aqui? Até onde eu entendo de história, ele não foi nem um nem outro. Sequer tentou conquistar alguma cidade ou algum país.

– Eu não tentei conquistar nenhum país, nobre Tiradentes. Eu conquistei o mundo. O que é muito melhor. Minha obra dominou os quatro cantos do planeta.

– Que metáfora linda essa, não foi, Duce?

– Não sei de que mundo você está falando. Eu gosto muito mais de Gogol, Turguêniev, Anton Tchekhov… prefiro qualquer um deles a qualquer uma das suas obras.

– Mas vejam que temos um crítico literário aqui. Logo um brasileiro. Achei que lá vocês só liam Jô Soares.

– Engano seu. Só pra você, neste momento, tenho como livro de cabeceira Dan Brown. Melhorou pra ti, camarada?

– Nossa, e muito. Foi como sair de Jane Austin pra Marcel Proust.

– O que tem a Jane Austin? Eu gosto muito do trabalho dela. Tenho todos os livros dela em casa.

– Cala a boca, Duce.

– Gente, isso é um jogo de poker. Vamos parar de falar política e de literatura.

– Churchill, fica na sua. Que cara mais chato. Da próxima vez, vamos jogar em outro país e chamar alguém mais calado pra ser banca.

– No Cassino Royale, por favor. Sem o zero-zero-sete. O barman de lá é muito mais ligeiro que este aqui. Cadê a droga da minha vodka?

– Vocês da Europa como sempre estão tentando humilhar os brasileiros, né? Mas tudo bem. Essa é a última rodada que jogo.

– Essa era a última rodada que você jogava de qualquer jeito, Tiradentes. Ainal, tá sem um tostão. Nem o FMI pra te ajudar.

– Senhores, mostrem suas cartas.

– Cadê o barman que não chega de uma vez? Será que não tenho direito nem à expulsadeira?

– Quadra de ases pro Adolf contra uma trinca de reis do Bonaparte. Quadra de ases ganha. Mão do Adolf.

– Mas de novo? Também não jogo mais nenhuma. Vou pra casa que eu ganho muito mais.

– Rola uma carona até a rodoviária, Boni? Fiquei meio sem grana pra um táxi depois dessa última rodada.

– Rodoviária? Não seria aeroporto? Ou você não sabe que não dá pra chegar de ônibus daqui até o Brasil.

– Eu sei, mas ia até Lisboa de ônibus pra economizar. Lá pegava um navio até o Rio. De lá pra BH é um pulo. Meu irmão vai me buscar de carro.

– Eita, brasileiro liso.

– Pois é, mas as coisas hoje em dia estão difíceis. E aí, Boni. Vai rolar a caroninha até a rodô ou não?

– Nem pensar. Vai com o Churchill.

– Comigo também não.

– Não olhe pra mim, vou com o Adolf pra Alemanha ouvi-lo sobre umas novas ideias de invasão aí que ele falou que tem pra me falar.

– Vem comigo, camarada Tiradentes. Não liga pra esses caras, são todos uns esnobes. Já que não trouxeram mesmo a minha vodka, vamos tomar umas num inferninho que eu conheço aqui perto. Depois te levo até a rodoviária.

– Mas você se chateou com o que eu disse sobre seus livros? Desculpa, foi da boca pra fora. Eu até tenho em casa os Irmãos Karamazov. Muito bom.

– Claro que não fiquei chateado. Não iria te sacanear de jeito algum, Tiradentes. Além do mais, vocês já têm o Bolsonaro, o Cunha e o Sarney lá pra fazer isso todos os dias.

Texto do livro Mundo Surreal.