Eu sempre defendi a polícia, sempre defendi o policial e não vejo nisso nenhuma incongruência ou oposição a minha posição de esquerda, até porque não tenho notícia de nenhum estado, quer seja de direita ou esquerda, que prescinda de seu uso. Lamentavelmente, no mundo real, é impossível manter uma sociedade, por mais civilizada que seja, sem ela.

Porém, essa defesa não é cega ou sectária, não se estende a maus policiais, a maus servidores e ao pior deles, que é o que usa a farda ou a carteira para tirar proveito próprio, se mancomunar ou se promiscuir com o crime. Não, esse tipo de gente não é policial, é criminoso em dose dupla e, em minha opinião, deveria ter uma agravante criminal pesada.

No resto, posso dizer que uma polícia é o retrato fidedigno do seu povo, assim como o judiciário e todas as instituições acabam refletindo estatisticamente a moral e a índole média do nosso cidadão. Efetivamente, quando uma categoria tem milhares de partícipes, obviamente toda a gradiente estatística se baterá sobre ela.

Porém, no Brasil, um fenômeno chamado mídia foi iconizado pelo povo em geral como um deus, um ente dono da verdade absoluta. Nesse monoteísmo midiático, tudo que emana desses órgãos soa como se verdade fosse sem nenhum tipo de contestação, e assim inventam verdades, criam mitos, endeusam categorias e mistificam santos com os pés de barro.

Em oposição a isso, a resposta da esquerda foi um comportamento parecido, que copia os piores métodos de manipulação aliados a um conjunto de medidas próprias de patrulhamento e ativismo que, em vez de combater o que está errado tanto na mídia quanto no poder público, prefere apenas o antagonismo puro e imbecilizante. No fim, perdemos todos.

A mídia criou no subconsciente coletivo a ideia de que nada no Brasil presta, nem o seu povo e nem as suas instituições, com a exceção, é claro, da mídia e do Judiciário, incluindo nele o Ministério Público.

Mas também faz parte dessas exceções a nossa gloriosa Polícia Federal, com todos os seus agentes elevados à condição de semideuses e com salários que justificam essa fama, seres acima do bem e do mal.

Fora desse triângulo mítico da segurança pública, temos em contraponto o sucateamento do policiamento ostensivo nas mãos das polícias militares, do judiciário estadual a cargo da civil e da carcerária. São os três pontos do triângulo enlameado pela sociedade, enlameamento corroborado e apoiado tanto pela mídia da direita quanto atacada pela esquerda sectária.

Bem, semana passada, no Rio de Janeiro, essa vaca foi pro brejo com chifres e tudo. Policiais da Delegacia Especializada em Armas, Munições e Explosivos (DESARME) e da Delegacia de Roubos e Furtos de Cargas (DRFC) apreenderam 60 fuzis de guerra, no Terminal de Cargas do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro.

Para quem não se deu conta, essa foi uma investigação e uma apreensão levada a cabo pela Polícia Civil do RJ, salários atrasados, baixos, telefones cortados, viaturas sem gasolina. É o complemento de uma apreensão de 32 fuzis pelo BOPE da não menos desprezada e maltratada PM na comunidade do Chapadão, na zona norte da cidade.

Essa apreensão de semana passada, que renderia em torno de quatro milhões de reais, explica como não faltam armas e munições para que facções armadas transformem a nossa vida em inferno e como mais de 100 pessoas, entre civis e policiais, tenham sido assassinadas na cidade nos cinco primeiros meses do ano, o que deu mais um título macabro a nossa cidade.

Pois bem. Enquanto a Policia Civil do Rio de Janeiro fazia o trabalho da Polícia Federal desbaratando uma quadrilha de tráfico de armas, esta última estava preocupada em deflagrar a bilionésima fase da Lava Jato, tentando agora achar algo contra o Haddad que conseguisse ferrar ainda mais o PT.

Ou seja, usavam todo o aparato que foi adquirido exatamente pelo PT para proteger o povo brasileiro de tráfico, armamentos militares, terrorismo e outros crimes, se ocupando apenas de revisar o passado longínquo de 2012 atrás de gráficas, lambe-lambes e seguradores de faixa.

É difícil atravessar estados sem ser incomodado não tendo uma carteira de policial federal. Parece também impossível enfiar 60 fuzis automáticos no Rio de Janeiro atravessando incólume um dos maiores aeroportos do país sem a conivência e a cumplicidade de agentes federais e auditores da receita, sempre tão ciosos e cumpridores do seu dever na caça a iphones e notebooks de turistas.

Com esse desabafo, espero deixar claro que não rejeito todo policial federal, mas sim que jamais deveríamos endeusar uma categoria quando todas são compostas por seres humanos, e deveríamos usar o mesmo critério para não jogar na vala comum do crime toda a nossa polícia militar e civil.

Um dos mais célebres e famosos bandidos que esse país já teve e se chamava Lúcio Flávio Vilar Lírio, morto na década de 70. Ele proferiu a mais popular e certeira frase sobre o que se espera da conduta de um policial: “polícia é polícia e bandido é bandido”. Quem pisa na lama bandido é, não há espaço para a venda da alma a dois senhores, nem que o cara seja um laureado e endeusado policial federal.