Florestan Fernandes teria dito, por ocasião da inauguração da Escola Nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra que leva seu nome, que a ENFF simbolizaria para ele um retorno a três de suas moradas: da escola, da ancestralidade e do socialismo. Em tempos de recrudescimento da criminalização do MST – não apenas pela participação ativa da mídia corporativa, mas pela ação direta do Estado, que se vale da Lei Antiterrorismo proposta e sancionada por iniciativa do primeiro governo de Dilma Rousseff –  não é exagero levar a sério a imagem de uma escola socialmente engajada tal como na bela metáfora das três casas. Ela coloca, na verdade, não três, mas quatro elementos em cena: os atos de habitar, educar, conviver e admitir a alteridade, com o respectivo espaço onde estas ações se desenrolam e que elas também ajudam a constituir.

Primeiro, habitar. Habitar não corresponde a uma simples ocupação espacial, o uso meramente pragmático de edifícios ou construções para nossas demandas biológicas ou sociais de comer, dormir, reproduzir-se e proteger-se. Habitar, cujo sinônimo morar reverbera tanto o adiamento de uma de-mora quanto a suspensão de uma mora-tória, traz consigo o campo semântico das ações que, em relação à espacialidade à qual se voltam, acabam por extrapolar o instante e o utilitário. Talvez tenhamos aprendido a morar em ambientes fechados para nos protegermos do frio e de ameaças externas; talvez para preservar da vista alheia nossas riquezas e fraquezas. Mas morar, se nos dá esses confortos, se talvez tenha sido uma adaptação na evolução das espécies, nem de longe se esgota aí. Morar, habitar, envolve o desejo de se alongar ou permanecer junto a outrem, e implica, sobretudo, o cuidado que esse estar-com exige.

Se Hölderlin tem razão, se “poeticamente o homem habita”, este habitar não é uma disposição natural no homem, um instinto ou impulso que cumpre simplesmente efetuar à margem da cultura e da História. Habitar implica desde seu fundamento as ações de educar e conviver. Mas habitar não ocorre apenas como a simples coexistência espacial entre entes determinados; morar, muito menos, seria o simples efeito tardio da diminuição das hostilidades sociais que permitiria uma convivência. A relação entre educar, conviver e habitar reside, antes, na possibilidade da construção de espaços sociais comuns como chamado a uma vida que se recusa ao claustro. Habitar, por isso, não é a tarefa daqueles que se recolhem em suas casas, no espaço cerrado que esconde, traz aconchego e intimidade. Habitar é colocar os homens face a face, é, melhor dizendo, colocar homens em face das mulheres, as mulheres em face de si mesmas, os habitantes da cidade diante uns dos outros, com seus rostos marcados de cansaço, riso e angústia. Habitar jamais é a tarefa de preservar seu quinhão e de afirmar a própria biografia. Habitar é o aprendizado duro daqueles que são colocados a descoberto diante de seus iguais: é aprendizagem exterior, às vezes do confronto, mas sempre do com-fronte.

Habitar é simultaneamente esse demorar-se junto a, colocar-se frente a, e o aprendizado que torna possível um viver com o outro. Outro que não é um ente abstrato, mas o outro que se coloca diante de mim com toda a urgência e a força de sua existência. Outro tampouco que se manifesta apenas pela empatia que nos causa ou por sua presença atual ou física. O outro é tanto o semelhante quanto o díspar, e é também aquele que alcanço e o outro que chega a mim apenas por ecos longínquos. O outro é o índio, é o preto, é o camponês; é o dizimado que persiste como História indigerível, incontornável, que não é luto – porque este luxo talvez não tenha sido dado a todos – e que nem por isso é recalque ou falta de aptidão para superar o trauma que o atravessa.

Há, assim, esse outro que nunca passa, que retorna incansavelmente para nos lembrar, quase numa oração, que é preciso desejar sempre o outro nosso de cada dia. Este outro, cuja forma de existir é o retorno (e que, ao menos hoje, nem poderia ser diversa), habita entre nós também para que nossas faces, umas diante das outras conforme aprendemos a habitar conjuntamente, nunca percam a capacidade do rubor e do silêncio, sem os quais o fratricídio e o cinismo se tornariam leis inescapáveis. Esse outro se coloca diante de nós com sua face implacável como um terceiro que, se não pode colocar o juízo derradeiro da História, também não habita como simples testemunha de nosso ser. Esse outro é exigente e traz, como imperativo, o dever de sermos para além do que nossas narrativas, carregadas de provisoriedade na compreensão que fazemos de nós mesmos, são capazes ou querem estabelecer como verdades.

O projeto da Escola Nacional Florestan Fernandes se situa justamente nessa alteridade profunda, no compromisso radical com o co-habitar que devemos aprender com seriedade. Seria desnecessário repetir a estupidez da ação policial que tomou de assalto a ENFF na semana passada, mas é preciso que o Estado fite este outro que ousou atacar. Não atacou, evidentemente, com a franqueza de um confronto, e sim com a vileza da a-fronta, da ação que não dá sua face ao escrutínio e à oportunidade da resposta e da defesa. Esse Estado sem rosto, sem dignidade e sem humanidade, que não é um outro, mas é um Absoluto sem face, estilhaça qualquer possibilidade de educar e conviver, requisitos de todo habitar.

A afronta daquele que se dissimula na ação sem face não deve ser admitida por nenhuma sociedade que se pretenda democrática. Seja pela ação policial, seja pela ignóbil pretensão de neutralidade que se quer enxertar a todo custo nas escolas brasileiras, ou ainda pela ação de um judiciário covarde que se abate apenas contra aqueles que tentam dar o mínimo de sentido democrático a nosso aparato jurídico, urge realizar uma defesa ampla e tenaz de movimentos como o MST que pautam a existência de espaços voltados ao bem comum. A escola, e em especial a Escola Nacional Florestan Fernandes, é o espaço por excelência da vida compartilhada, com-vivida. Nela queremos habitar contra o Estado de exceção que nos viola sem descanso.