As selfies tiradas com o Bruno, acusado de assassinar e ocultar o corpo de Eliza Samudio, em 2010, e de ter autorizado jogar o corpo dela aos cachorros, revoltaram muitas pessoas nas redes sociais. Também originaram uma matéria no site “Sensacionalista”, além de artigos e notícias em jornais tradicionais brasileiros.
Por Amanda Cotrim

Foto: Leandro Couri/EM/D.A Press.

Sobre esse fato há duas imagens: a fotografia* das selfies e as próprias selfies. Ambas são linguagem, portanto, práticas históricas, simbólicas e políticas. Para fazer sentido a linguagem se inscreve na história e produz discursividade, ou seja, tanto as selfies quanto a fotografia sobre as selfies são discursos, os quais funcionam como caminhões que carregam ideologia e cultura. E é sobre isso que eu gostaria de falar. Tanto as selfies como a fotografia sobre as selfies parecem ser a mesma coisa, mas penso que é importante diferenciá-las para compreendermos duas questões: 1) o lugar de onde “se fala” sobre Bruno, ou seja, neste caso a Imprensa que produziu a fotografia, e as pessoas que fizeram as selfies 2) e as condições históricas, políticas e ideológicas em que essas fotos foram realizadas. Tanto na foto que saiu no jornal quanto nas selfies, Bruno ainda aparece na posição de goleiro-celebridade.

Por ser polissêmica, a fotografia é capaz de despertar inúmeros efeitos no interlocutor. A foto de Bruno com seus supostos “fãs” congrega um conjunto de sentidos, entre eles há o efeito de denúncia, não porque a foto o seja, em sua “essência”, mas pelo seu funcionamento, não importando as intenções do autor da fotografia. Mas, também, a foto congrega o efeito de antidenúncia, que diz mais respeito à preservação da imagem do goleiro-celebridade.

Já as selfies parecem querer nos lembrar de nos esquecermos que Bruno é acusado de participar do assassinato de uma mulher, com quem teve uma relação e com quem teve um filho, fortalecendo, desse modo, o apagamento da vítima e, consequentemente, enfraquecendo os sentidos sobre o que significa matar uma mulher no Brasil.

É importante que se diga, contudo, que essas selfies se sustentam pelo que a Imprensa fez de Bruno antes; que por sua vez se sustenta pela ideologia, um modo pelo qual a sociedade funciona e interpreta o extermínio de mulheres. É uma relação retroalimentar. Não foi a Imprensa que inventou o machismo, mas ela é um meio fundamental para sua prática. Nessa perspectiva, a ideologia não é entendida como conteúdo, tão pouco como uma venda que não permite apreender a realidade, mas como um ritual, que “convoca” os sujeitos a tomarem posição, o que explica por que  Bruno é interpretado como celebridade e Eliza como vazio.

O apagamento da mulher-vítima está nas selfies e o mesmo foi produzido socialmente, e não pelas pessoas- empíricas- que fizeram as selfies. Esse apagamento contou com a contribuição da Imprensa e do Judiciário, os quais impediram a inserção de outros sentidos sobre Eliza Samudio quando narraram seu assassinato. Os jornais estiveram preocupados com a causa que levou Bruno a matar; e a esta foi associada ao sentido de amante que a vítima ganhou nas falas dos investigadores e ao longo da cobertura midiática. Os jornais reforçaram, o tempo todo, que Eliza havia sido amante do goleiro – sempre goleiro – e que ela estava “atrapalhando a vida” do ex-jogador, o que o teria levado a matá-la. Bruno nunca deixou de ser o goleiro do Flamengo. Bruno nunca deixou de ser aquilo que as pessoas que fizeram as selfies viram nele.

 Nessas condições apresentadas, o discurso da Imprensa sobre Eliza não permitiu que outras narrativas surgissem, pois elas poderiam representar uma ruptura na relação já instituída sobre o que significa ser um goleiro-do Flamengo- e o que significa ser uma amante. Eliza precisou ser deslegitimada, mesmo que os jornais não tivessem a intenção de fazer. E o discurso foi crucial para isso.

A imprensa e a própria instituição-justiça se referiram a Eliza como “amante de Bruno”. Esse dizer é aparentemente banal, mas produz ainda mais exclusão às mulheres, porque as palavras, como caminhões que carregam ideologia, são capazes de eleger quem é o subalterno e quem merece existir.

Essa posição de amante é uma posição onde tudo lhe é negado: o amor, o respeito, a dignidade e até mesmo a sexualidade, que é associada ao que é imoral e sujo. E foi assim que Eliza figurou no imaginário dos jornais: como uma mulher suja, que, ainda que não “merecesse”, procurou o fim que teve. Mais uma vez é embutido na mulher a culpa pelos seus desejos e pelo que o Outro/homem realiza.

As selfies são a materialização de como o machismo acompanhou e acompanha toda a construção indenitária de Bruno e, consequentemente, de Eliza. Ele é o ex-goleiro Bruno; ela é a amante do ex-goleiro. Dessa maneira, é possível dizer que o signo da “submissão” foi ressignificado ao longo da história e continua promovendo a exclusão da mulher.

O assassinato brutal de Eliza Samudio funciona como um atestado da manutenção do domínio do machismo. Soltar Bruno é institucionalizar, pelo Estado, esse domínio. Pois, para que o machismo continue existindo é preciso lembrarmos de esquecer que ele mata.

Amanda Cotrim é Doutoranda em Linguística e pesquisa na área de Análise de Discurso, na Unicamp.

*As fotografias que figuram esse artigo são de Lincon Zarbietti (O Tempo/Folhapress) e Leandro Couri (EM/D.A Press)