Ao final de 2016, na soleira do próximo ano, o espectro da melancolia ronda nossa obsessão retrospectiva e os receios e agouros que nos colocamos. Terminamos o ano como quem termina um casamento à revelia: com o luto típico da morte e a intensidade insuportável que somente as presenças anacrônicas podem dar. Fantasmagorias, como diria Walter Benjamin, que não sabemos se queremos exorcizar ou cultivar. 

Nossa tendência de analisar os fatos políticos do período 2015 – 2017 (pois não se pode negar uma futurologia que já impera) segue o caminho do ressentimento, da negação, da revolta, da primeira infância. Perdemos, e perdemos pelas inúmeras traições do Partido dos Trabalhadores, perdemos pela ingenuidade e alienação dos setores da sociedade que apoiaram os golpes que os acertariam logo na sequência, perdemos pelo golpismo da mídia corporativa, perdemos pela “onda conservadora” (esse ente místico tão confortável já que nos libera da tarefa da refutação sistemática)… Perdemos, perdemos, perdemos. 

Perdemos: e que isso nos aponte o caminho de equilíbrio necessário, não para apagarmos, mas para dominarmos alguns de nossos instintos de autoengano. A ilusão de que a Revolução nos irmanará, nos livrará do desejo em sua forma capitalista e de-todo-o-mal-amém nada mais é que uma fábula te(le)ológica que nos inventamos. Enquanto nossa política seguir depositando uma crença sem suspeita no progresso, na Razão, no Além-futuro, seremos derrotados pelas contingências da vida cotidiana, que escapa toda hora do esquematismo que tentamos, tolos!, lhe imputar. 

Perdemos: que esse perder seja então não apenas transitivo (perdemos algo para alguém), mas também reflexivo (perdemo-nos, perdemos algo de nós para nós mesmos). Algo de nós ficou, algo se passou conosco, algo surgiu no meio da zona de turbulência. Veja: em meio à nuvem de gás de pimenta das polícias de Michel Temer e Rodrigo Rollemberg em Brasília, havia garrafas de vinagre estendidas por desconhecidos como forma espontânea de solidariedade – abraços ao mesmo tempo acres e acolhedores em meio ao pandemônio que se instalou na capital federal. Na acidez do momento, do líquido que nos protegia da violência de Estado, na mistura dessa com o sal de nossas lágrimas roladas e da bile amarga que emergia de nosso interior, algo passou, algo se passou entre nós e em nós que situou nossa perda política no campo mais amplo da perda reflexiva a que nós fomos submetidos. Algo passou, atravessou os vários “eus” isolados, reconfigurou-os para além de seus grupos políticos, suas linhas de pensamento e ação. Algo passou de mão em mão que se estendia para doar e receber, não como coisa que se pode segurar e preservar, mas como um catalisador de um processo que não pudemos ainda compreender. 

Revoltamo-nos, não apenas por haver motivos de sobra para isso (e há), mas também porque não há ainda um acolhimento das transformações que nos deslocaram profundamente. Alguns terminarão essa travessia pelo lado do ceticismo, do conformismo, do colaboracionismo, do revisionismo, do fatalismo, do pragmatismo. Cansados, a covardia lhes será sempre um travesseiro macio para repousar a cabeça à noite sem maiores preocupações. Porém, haverá aqueles dentre nós que nem sequer dormirão. Entenderão que cada mínimo detalhe da vida deverá ser escrutinado, destrinchado, problematizado, submetido à lacração das performances políticas e intelectuais (sobretudo no mundo virtual). Apelarão ao espírito opiniático, constituirão para si legiões de seguidores, plateias, pois o que lhes interessará, sempre, será desviar o olhar para o fato de que transferem para o domínio do espetáculo, dissimulando-as, as amarguras da perene transformação que nos constitui politicamente. 

Essas sentinelas semi-intelectuais, vivendo em regime de semiestrelato, mal veem como deixam de assumir que a vida política remete diretamente ao espírito de assembleia, de um se colocar-com, permanecer face a face, ombro a ombro, que não vem do teatro de sua desenvoltura performática, mas dos encontros e esbarrões dos cidadãos que convivem na pólis. Todo autoengano vem da negação do choque, da dor, das feridas que nossas lutas trarão, mas também da tentativa de submetê-los ao crivo de uma forma de razão menor, mero malabarismo dialético, que tratará todos os afetos decorrentes de nossa luta como simples perfumaria, naturalizando tanto a emergência da dor quanto a sua permanência. 

Dói-se, doemos, não por desejo, não por querermos ficar na dor, assim como não nos doamos para nos convertermos em um homo filantropicus. Nos afetamos para que algo passe entre nós e em nós. Por isso é preciso descansar o corpo, o intelecto, a nossa zona afetiva. Por isso precisamos do lúdico sem o qual nunca convalesceremos. Se Nietzsche tinha razão, se convalescemos apenas como exercício de saúde, não é possível que permaneçamos escolhendo aquilo que nos adoece – a exigência imposta ou escolhida de sermos inatacáveis, infalíveis, insensíveis, invencíveis. 

Há algo de trágico, talvez, na política. Algo que somente a perda pode dar na medida exata do que tira. A mesma disciplina que exige a crítica do mundo reside na aceitação de que nem sempre a crítica e nossa verdade absolutista poderão nos libertar. A mensagem cristã, neste ponto, não poderia ser mais enganadora. A verdade não liberta, a crítica não previne a ferida. Mas, à diferença dos que se cansam, aqueles que se ferem e retorcem de dor nos confrontos do cotidiano buscam nas palavras e nos gestos a força no instante em que ela parece se exaurir. Conforme nos perdemos nas perdas que nos afligem, somente a palavra que nos ajuda a suportar e atravessar a dor é que pode nos salvar. É essa a letra, e não a da desenvoltura espetaculosa e da infalibilidade quase papal que atribuímos como nossas tarefas primeiras tantas vezes, que poderá nos nortear doravante.  

Convalesceremos da dor do nosso autoengano somente quando perdermos a crença na política como instância redentora do mundo. A política não salva, não redime o pecado do mundo, não garante o paraíso. Ela é poiesis, criação – do mundo e de nós mesmos – e não se acumula eternamente. A perda constitui seu lado mais difícil, certamente, mas também aquele que precisamos assumir, se não como natural, no mínimo como reorganizador do projeto que damos a nós mesmos. E quando não pudermos vencer, quando a perda se abater sobre nós, que saibamos conquistar a perda em nosso benefício para que ela não se converta em derrota. Muito possivelmente, para isso serão bem mais úteis duas taças de vinho na companhia de um amigo generoso do que nossa análise de conjuntura recém-saída do forno – ou melhor, da frigideira que nossa cabeça e nossa língua se tornaram e que fritam até torrar toda paciência, cuidado e apreço que precisamos nutrir para seguirmos lado a lado. Essa perda aparente – a do tempo ocioso, da vadiação, do devaneio e do sonho, presente tanto no cotidiano do ser-com-outrem quanto no extraordinário que a arte ainda pode nos legar – é que pode nos curar da prestidigitação da política, seja em sua forma meramente executiva, seja por sua romantização como martírio necessário. Perdermos tempo, perdermos um pouco de nós junto a outrem, junto ao que não somos: talvez seja este o imperativo para um bem-viver político, tão necessário num momento em que a política deixa de ser horizontalmente lugar de encontro para ser palanque autolaudatório que não é altivo, mas rasteiramente elevado.