Sempre me perguntam por que escolhi o jornalismo, principalmente a investigação com ênfase na defesa dos direitos humanos. Desde a época da faculdade, me incomodava o fato de a sociedade ter em sua gênese a desigualdade, criando falsas crenças para tentar justificar a segregação. Na primeira vez que fiz uma matéria sobre a população de rua, lá nos idos de 1990, encontrei uma cena surreal. Sobre o asfalto havia uma cidade que pulsava, mas abaixo dele, um submundo que se escondia nos vãos, onde eu imaginava ser lugar para ratos.

Nunca me esqueci de uma jovem que dormia no buraco formado entre a terra e a estrutura metálica de sustentação de uma ponte no Centro. Durante a apuração daquela reportagem, encontrei outros tatus-humanos. Foi nessa época que ouvi pela primeira vez um termo simplista adotado por um especialista que tentava explicar o motivo pelo qual indivíduos dormiam nas ruas da cidade: “porque eles gostam.”

Recentemente, durante uma reunião de pessoas em situação de rua, ouvi a resposta mais crua sobre essa condição. Ela veio justamente do homem que passou mais de cinco anos carregando sua casa nas costas, porque lhe faltavam recursos financeiros e emocionais para se fixar em algum lugar.

– Gostar de morar na rua? Quem gosta de ser humilhado, de ser obrigado a vestir roupas usadas, de ser invisível para os outros, de ser considerado não humano?

O desabafo do indivíduo que havia um mês tinha conseguido alugar um quarto e vencer a situação de indigência social reforçou em mim a certeza de que é preciso combater a miopia coletiva que culpa a vítima pelo seu infortúnio, esquecendo que a vida em sociedade requer cooperação.

Dizer que a pessoa “gosta” de morar na rua é o mesmo que afirmar que mulheres vítimas de violência doméstica “gostam” de apanhar e, se apanham, é porque houve algum motivo. Só na capital mineira, a cada dia, mais de 40 mulheres são vítimas de violência doméstica, segundo dados da Secretaria de Estado de Defesa Social referentes a 2015. Será que elas “gostaram” de ser violentadas, humilhadas, agredidas por pessoas em quem confiavam, geralmente companheiros, pais, enteados, filhos? Lembro-me de uma mulher que entrevistei após ser incendiada pelo marido e da dor que ela carregava por estar presa a um corpo que o fogo destruiu.

E o que dizer sobre a loucura dos chamados normais, pessoas que durante décadas atribuíram a desumanidade dos manicômios aos próprios pacientes. O discurso dominante era de que pacientes despidos do básico ficavam nus porque gostavam, como se a cada louco tivesse sido dada a oportunidade de decidir sobre vestir ou não uma roupa. Quando, finalmente, Sônia foi tratada como gente, a ex-moradora do antigo Hospital Colônia de Barbacena passou a usar dois vestidos de uma só vez pelo prazer de cobrir o corpo constantemente exposto.

Me espanta perceber que discursos preconceituosos e descolados da realidade ainda predominem, afetando a nossa capacidade de analisar o meio no qual estamos inseridos. É mais fácil julgar o outro do que reavaliar as estruturas sociais e a nossa participação em tudo isso.

Sobre os motivos que me levaram a fazer jornalismo, estão todos eles expostos aqui. Sou jornalista, porque o silêncio imposto aos que não têm voz faz um barulho desconcertante. Você consegue ouvir?

Para ler mais Daniela Arbex:

http://www.danielaarbex.com.br