Sexta, 24/07/15. Família na estrada pra curtir uma roça no fim de semana. Faltando cerca de 4 km pra chegar… Acidente. Gravíssimo! Olho pra trás e o que vejo é um carro destruído atrás de um caminhão. Algumas pessoas tentavam (em vão) tirar ocupantes do meio daquele amontoado de ferro retorcido.

“Pára, Atila. Encosta.”

Calcei um par de luvas que sempre levo na maleta e corri pra ver se ainda havia algo pra ser feito. Pedi para o meu marido sinalizar antes da curva e pedi para os que estavam perto do carro pra sinalizarem do outro lado.

Um carro enorme, desses caros que não sei falar o nome havia sido reduzido a metade. O motorista andava sem rumo pedindo ajuda. Dentro, duas moças choravam de dor no banco de trás. Em meio ao ferro retorcido e aos componentes pláticos do painel, agonizava um jovem. Um jovem como eu. Como você. Negro, forte, bonito. Olhos fechados, entregue a quem quisesse ou pudesse ajudá-lo a sair dalí.

“Já ligaram para o resgate?” “Já.” “Liga denovo e coloca o aparelho aqui no meu ouvido.”

Segurei a cabeça daquele menino, não sem antes pensar em sua mãe, seu pai e seus irmãos.

“Qual é o nome dele?” “Marcos” – alguém gritou. “Marcos, me escuta: o resgate já está chegando e nós vamos te tirar daqui. Fica calmo. Vai dar tudo certo.”

Um sangramento no ouvido já tinha me desanimado bastante. Ele nem esboçava qualquer reação.

“Alguém sabe me ajudar? Pega luva com o meu marido. Segura assim. pega aquilo pra mim. Canivete. Corta o cinto. Não deixe ele tombar a cabeça. Observa a respiração. Me avisa se mudar. Não mexe a cabeça da menina aí atrás. Segura a porta. A porta que tá segurando ela.”

“Doutora, é do resgate.” “Alô. Na sua ambulância vem médico? Tem kit pra intubação?” “Não.” “Olha, daqui de onde estamos não conseguimos contato com o SAMU. Liga no Hospital João XXIII e pergunta se eles podem mandar resgate aéreo. Tenta contato com a coordenação do SAMU em BH, anote o telefone.”

5 minutos… ambulância não chega.

“Marcos, aperta minha mão.” E ele apertou. “Fica calmo. Vai dar certo. Você vai sair daqui.

10 minutos… Chega o resgate.

“Você é médica?” “Sou.” “Então, nos ajude. Devemos proteger a coluna dele ou é melhor tirarmos sem proteção, por causa do tempo?…”

Responda em 3 segundos se os bombeiros devem tirar o Marcos dalí sem proteger a coluna dele pelo risco de não haver tempo suficiente ou se, sim, eles devem proteger a coluna do Marcos, mesmo demorando mais, porque sim, ele vai aguentar esperar e vai chegar vivo até a UPA para ser estabilizado e encaminhado ao Hospital de referência… 3…2…1… Alguém me dê uma visão de RX. Preciso saber se há uma fratura alí. Preciso saber!!

E o Marcus mexeu os braços, me segurou com muita força me sujando com seu sangue.

“Quanto tempo? “2 minutos.” “Protege.”

“Protegida. Podemos levantar. Prancha. 1. 2. 3. Inclina, segura, firma!”

Marcus dentro da ambulância. Tenta levantar sua perna direita, dobra o braço sobre o rosto.

“Sai, sai, sai. Vamos!!” Sirene, Luzes vermelhas… e lá se foi o Marcos.

É bem provável que eu nunca mais te veja. E foi pra isso que eu servi.

Há 15 anos, algo assustadoramente igual aconteceu com o meu irmão mais velho. Um grave acidente tirou a vida de 2 de seus amigos e o levou para uma estada no CTI do Hospital referência em trauma do estado de Minas Gerais. Também naquele fatídico dia, um carro com um médico passou logo em seguida e aquele colega, como um anjo, ajudou a salvar a vida do meu irmão. Ele e os socorristas do SAMU fizeram minha mãe e meu pai seguirem a vida felizes e completos. Fizeram eu ter meus 3 irmãos vivos e sempre perto de mim. Fizeram muita gente se unir em uma corrente de positividade e amor que eu nunca mais vi se repetir.

Enfim, é pra isso que serve ser médica. Pra segurar a cabeça do Marcos e falar mesmo sem ele estar ouvindo:

“Calma, irmão. Vai dar tudo certo. Nós vamos conseguir tirar você daqui.”