Comemorei dias atrás os 150 anos de trabalho da bicicleta, esta duas rodas em formato de bípede deitado. Bipedalismo lembra dois pedais. A bike magrela foi inventada para suprir a falta de cavalos em carruagens. É um dos veículos do futuro; pura energia limpa. Mas há ainda há muita bosta no meio do caminho. Montes Claros (MOC), no norte de Minas, anda na contramão desse avanço. Até 2013, beirando os 400 mil habitantes, a cidade registrou três mil carroças em circulação e 121 táxis. A dor desses cavalos deságua na cidade quase próxima, em Olhos D´Água.

No sul de Minas, fiquei meio órfão com a despedida do trem de ferro. Ao pé da letra, eu gostava de ouvir os nativos falarem: “prega espora nesse trem”. Foi lenta a substituição dos cavalos e charretes pela motocicleta. Um dos maiores divulgadores da moto na região foi o agro Getúlio Agnaldo, que usava espora para andar na moto e colocava capacete para dar umas voltas de cavalo. Eita!

Tem sonhos de criança que só chegam na fase adulta. Eu faço de conta que fui um menino andador de bicicleta, pedalando com um calçado idêntico a um abacaxi. Aquele problema – quem vai descascar o abacaxi – se tornou solução. Com as fibras daquela casca rugosa são produzidos couros e tecidos ecológicos. Fica estiloso. Getúlio Agnaldo só usa botina, boné, cinturão e carteira de couro vegetal. Não lhe custa nada colar um abacaxi em cima da cabeça, feito Carmem Miranda. É pra divulgar o produto. “Uai, se não precisar usar balangandã, nem cantar tico-tico no fubá, eu grudo o abacaxi na cabeça com cola goma-arábica feita em casa”, prometeu Getúlio.

Em vez de prometer, eu cumpri. Foi bonita a minha contribuição socioambiental na infância. Coisa de vanguarda. Eu quase respeitava a natureza dos 22 dias que uma galinha leva para chocar. Mas por que não contribuir com o parto? Era só o pintinho começar a quebrar a casca, eu usava pinça de sobrancelha e acelerava a coisa. Nascia molhadinho, podia pegar resfriado. Tão fácil usar um secador de cabelo e deixar a criança quentinha.

Declarei guerra às patas. Levavam 40 dias pra chocar. O motivo eram as longas saídas para descanso. Mais de uma hora longe do ninho. Nadavam e voltavam molhadas. Nesse intervalo, eu deixava o farol ligado para os ovos não esfriarem. Hoje, sem galinha e patos, coloco guarda-chuva aberto entre galhos de árvores, para proteger ninho de passarinhos contra chuva e sol.

Os filhotinhos têm dificuldade de adaptação nessas oscilações climáticas. Na falta de um biju de farinha de “mio”, coloco ao lado do ninho um pratinho com semente de girassol, uma saladinha de fruta. Domingo tem quinoa. É uma ajudinha aos pais, que levam vida moderna na cidade, onde não tá fácil arrumar alimento nem para passarinhos.

Sou criticado por isso. Povo feio fala muito. Riem quando pergunto a quem tem cachorro e gato: “como vão as tuas crianças?” Riram quando dei o meu nome a uma cachorra de rua. A Júniar era sangue do meu sangue. Aquele sangue do coração. É claro que a gente se decepciona com os filhos. Quando adotei a Eurrica, coloquei este nome pela certeza de que ela era rica em todos os sentidos. Mas a menina tinha instinto assassino. Mordeu e quebrou o rabo de macaquinho-prego que entrava na cozinha de casa pra pegar azeite. Bebia no gargalo, feito bêbado. Sem o rabo, teve dificuldade de pular entre galhos e árvores. O rapaz morreu. Eu não enterro animais para alimentar vermes. Deixo os urubus realizarem o trabalho ambiental.

Por essas e outras, muita gente quebra o pau comigo, assim como já quebrei o pau com o Guimarães Rosa, quando lia as obras dele. Concordo totalmente: “cavalo que ama o dono, até respira do mesmo jeito”, mas aquela tropa de “Grande Sertão: Veredas” se feriu muito naquelas matas fechadas, carregando carga pesadas. Hoje, a minha discussão com o Rosa é por outro motivo. Ele se maquiava antes de escrever. Tudo bem. Só quero saber se a marca da maquiagem era testada em animal. Na época, não tinha a listagem PETA e PEA que informa empresas e marcas que testam produtos em animais e aquelas que respeitam os bichos.  A falta de crueldade é simbolizada pelo coelho.

Falando em coelho, num desses acordos internacionais de Direitos Animais ficou decidido que os ovos de Páscoa passarão por mudanças. As coelhinhas continuarão botando ovos de todos os tamanhos, mas serão proibidos chocolates com leite animal. Vacas e outras produtoras leiteiras estão espalhando o vírus de intolerância à lactose. Chocolates – sem trabalho escravo – só poderão ser feitos com leites vegetais de aveia, amêndoa, amendoim, coco, quinoa, gergelim, inhame, semente de girassol e de melão, leite de arroz e outras fontes. “Isso é muito bão, diz Getúlio Agnaldo. Eu nunca gostei de ovo de Páscoa galado pelo boi, nem de leite de proveta.”