Por que é tão difícil entender o que está acontecendo no Brasil? A resposta é simples: existem tantos interesses envolvidos, tanta ignorância política, tanta falta de vontade de pesquisar a história do próprio país e seus desdobramentos recentes, tanto ranço cultural apregoado à alma do brasileiro, seja pobre, rico ou intermediário, que se torna uma tarefa quase impossível de explicar. No entanto, temos algumas pistas.

Se o tempo e a tinta nos fossem favoráveis, seria necessário recorrer à linha do tempo para explicar como chegamos à maior crise econômica da história: a bolha de 2008. Evitarei dizer que ela é imobiliária e tão somente americana por dois motivos óbvios: a primeira é que apesar de ter estourado no setor de imóveis ela é financeira – revelou-se a impraticabilidade do sistema neoliberal como conhecemos; em segundo, porque ela é global. O fato de ter acontecido nos EUA se deu exatamente porque nesse país é praticada a forma mais voraz de capitalismo: quase sem regulação ou intervenção estatal – é preciso certa calma ao afirma isso, pois houve intervenção do Estado em momentos críticos antes da crise.

Precisamos dar algumas breves pinceladas em torno da fatídica bolha para iniciarmos nossa dialogia. Numa linguagem clara e direta, ela aconteceu, em parte, por causa do excedente de dinheiro no mundo. Simples assim. Usando uma regra básica sobre oferta e demanda, é o que acontece quando temos um produto, como o citado, em excesso no mercado.

Esse dinheiro virou crédito e financiou a bolha. Quando venceram as carências dos bens – principalmente do setor mencionado – e ninguém tinha dinheiro para pagar, uma onda de inadimplência devastou o mercado americano e depois o mundo. Outros setores, como o de seguros, que tinha a tarefa de garantir a viabilidade dos negócios, acompanharam a dança.

Mas e depois? O que aconteceu com a economia global quando os dois maiores mercados consumidores do mundo, o estado americano e o bloco europeu – que já vinha enfrentando dificuldades –, arrefeceram o consumo e entraram em recessão? O maior centro produtor do planeta seguiu o mesmo ritmo. Não tinham pra quem vender. O PIB da China caiu pela metade nos anos seguintes à bolha. Em consequência, TODOS os demais mercados do mundo sofreram perdas. Uns mais, outros menos.

Chegamos ao Brasil. Por diversas razões, o governo da Dilma foi um governo lamentável. Entre outras coisas, porque a presidenta descumpriu o que havia prometido durante as campanhas eleitorais. Também porque, para que ela fosse eleita e reeleita, praticou a chamada política de coalizão com a parte mais canalha dos representantes públicos do país – leia-se PMDB. Por fim, somou-se um despreparo generalizado em administrar a crise citada nos primeiros parágrafos do texto.

Chegamos ao golp… quer dizer, ao impedimento da presidenta. Se por um lado existia uma insatisfação da população com os rumos adotados pelo governo, havia também a necessidade da manutenção dos privilégios rentistas de cerca de 10 mil famílias – que custarão aos cofres públicos cerca de U$ 550 bilhões somente no ano de 2016 – e a urgência de realizar uma agenda entreguista do patrimônio nacional.

A partir de agora, vamos tocar em dois detalhes curiosos sobre o processo de constituição do golp… desculpem-me novamente, do impedimento. Dois terços do congresso nacional são investigados por corrupção. Sabemos que existem muito, mas muito mais que isso. Então quem é favorecido se a atenção do brasileiro estiver ocupada alimentando o ódio de classe – que nunca deixou de existir – e, como consequência da queda da presidenta, o fim da operação lava-jato?

Sim. Eles mesmos. Os representantes públicos de uma sociedade que se viu refletida no show de horrores da votação do… do… vocês entenderam. Ainda é preciso ressaltar que foi no governo Dilma que a polícia federal e o judiciário alcançaram a maior autonomia da história do nosso país – evitando discutir a parcialidade de alguns grupos da classe.

Entretanto, para que tudo isso acontecesse, ainda seria necessário que existisse certo apoio popular. É agora que entramos numa seara lascivamente ridícula. Os ricos, ou seja, os rentistas interessados nessa balbúrdia, não odeiam pobres. Eles não precisam. Pelo contrário, dependem deles para se garantirem na parte mais alta da pirâmide. Tudo que têm de fazer é terceirar o sentimento à mesquinha classe média do nosso país. A oligarquia midiática, que no país é de posse de apenas 5 grupos e que também se soma à seleta corja dos que ganham com os juros altos, se encarrega do suporte propagandístico.

O tragicômico disso é que parte dessa classe mediana ascendeu graças a programas sociais criados no governo do PT. É válido lembrar que em 2003 o salário brasileiro era de U$ 50. Em 2010 chegou a U$ 340. Mesmo na atual conjuntura, respirando sôfrego em torno de U$ 220, ainda está acima do valor entregue pelo mandato FHC. A outra parte dos brasileiros apenas acredita que é classe média e pensa que tem privilégios de classe média. Como bem disse Beauvoir, o opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos.

Para finalizar, fica minha lista de ganhadores para o próximo Oscar da Rebimboca da Parafuseta Tupiniquim:

Melhor filme: O golpe parlamentar brasileiro através da fantasia democrática.

Melhor diretor: Eduardo Cunha, o capitão.

Melhor roteiro: Luiz Carlos Trabuco, presidente do Bradesco, indicado na operação Zelotes e representando a classe de rentistas; Paulo Scaff, presidente da Fiesp representando a classe de empresários que não quiseram dividir a conta provocada pela crise econômica e pela manutenção dos ganhos das partes mais abastadas; José Serra e Henrique Meireles, representando os interesses entreguistas do que resta do patrimônio do país.

Efeitos especiais: Sérgio Moro, que conseguiu criar uma técnica extremamente apurada para que a maior parte do público só visse aquilo que ele considerava essencial ao processo investigativo.

Melhor ator/atriz: Cláudio Pracownik, representando a classe de meritocratas e analfabetos políticos que burlam o imposto de renda, mas fingem indignação contra a corrupção.

Melhor ator/atriz coadjuvante: O José da Silva Brasileiro, o pobre neoliberal que pensa que é classe média, e que agora precisará trabalhar aos domingos para mandar o filho para o ensino superior, que em breve será privatizado, que precisará fazer bicos nos dias santos para ir ao médico e comprar remédios dantes encontrados nas farmácias populares, que não poderá descansar nos feriados nacionais por causa das horas extras que terá de fazer para completar a renda descompensada pela flexibilização dos direitos trabalhistas, e que ainda precisará ralar por mais 10 anos para se aposentar, porque a administração dos fundos de pensão foi terceirizada para empresas privadas.