“Nenhum homem é hipócrita nos seus prazeres”, escreveu o brilhante escritor argelino Albert Camus em seu romance filosófico A queda, publicado primeiramente no ano de 1956.

Prazeres: a observação de Camus toca em um dos dilemas-  dentre uma imensidão – que o consumo de substâncias psicoativas desperta. Tão antiga quanto a própria humanidade, os usos destes psicoativos – categoria que abrange do simples cafezinho ao rivotril, passando pela cannabis, álcool, tabaco e afins-  suscitam reações intensas, comumente tratados com uma ingenuidade que a complexidade do tema não permite.

Entre o prazer e o vício; entre o medo da degeneração e as fruições da vida; entre o pavor e o cinismo; entre o rechaço absoluto e a veneração, poucas plantas condensam em sua história reações e sentimentos tão intensos quanto a cannabis sativa.

Atualmente caracterizada em boa parte do mundo como uma droga ilícita – vale ressaltar que o termo “droga” se refere aos psicoativos ilícitos, mas também aos lícitos, como aqueles produzidos e incentivados pelas corporações farmacêuticas- a popularmente conhecida maconha tem ofendido certas mentalidades há décadas, sendo seu plantio e seu consumo considerado um grave crime, digno de reclusão ou penas menos severas, mas nunca impunes.

Não sai impune sequer seu uso medicinal. Comprovadamente benéfica para o tratamento de algumas condições que causam sofrimento- como dores e convulsões- a cannabis apresenta potencialidades defendidas por aqueles que mais profundamente conhecem seus benefícios: os que tiveram suas dores diminuídas após o consumo. Estes experts no assunto sabem que o uso medicinal pode ser feito de diversas formas, algumas não contendo aquilo que poderia causar um estado alterado de consciência, ou mesmo um prazer condenável. Estes conhecedores sabem, por experiência, o que funciona e quando funciona. E por isso, lutam pelo direito ao uso.

Para os que se ofendem com a planta, pouco importa: o apelo de mães e pais que precisam dela para manter a saúde de seus filhos e filhas não são capazes de ultrapassar as resistências psicossociais, tristemente mantidas por noções gravemente cínicas de que um psicoativo é tem o poder de causar ou potencializar os males deste maltratado mundo.

Para melhor compreensão destas resistências, há três caminhos possíveis e necessários: ingressar em uma perspectiva histórica que escancara as hipocrisias do proibicionismo, que ora exaltam uma droga, ora condenam outra (mesmo que de efeitos semelhantes) e, não raro,  em um momento seguinte tudo invertem; a perspectiva social, que expõe os danos incalculáveis que a ingênua guerra declarada ao tráfico sustenta; a perspectiva psíquica, que tanto expõe os possíveis danos dos usos exagerados dos psicoativos quanto permite ponderar sobre os benefícios da temperança.

Há evidências do uso da cannabis que remontam ao terceiro milênio antes mesmo do nascimento do Cristo que marca o início do nosso calendário. Tais evidências e registros permanecem em profusão até a época da primeira proibição, decretada por Napoleão Bonaparte, quando no Egito em 1798. Poucas décadas se passaram até que o Brasil, em 1830, também decretasse a proibição do consumo da planta, sempre a associando a algum traço social degenerativo, como o crime ou o comportamento indolente.

O tempo que separa os decretos proibicionistas do tempo presente é permeado por movimentos de resistência e luta pelo direito aos benefícios e malefícios da planta, alegando que a decisão sobre suas potencialidades cabe ao plano individual. Os militantes munem-se de dados que, por exemplo, a assemelham à cerveja, culturalmente consagrada e tão antiga quanto. Muitos estudos comparativos foram conduzidos com o intuito de definir, em números, qual destas drogas, fármacos -ou, se preferir apenas alimentos psicoativos-  são mais ou menos nocivos.

Na ânsia por uma definição, os números, tiranos, brigam entre si. Mas há de se combater esta visão. Neste quesito individual, é preferível se pautar pelo  paradigma indiciário que considera o corpo, seus ritmos e vontades como um objeto de estudo científico individual. Os números podem fornecer preciosas pistas para os planos coletivos, mas não devem reinar, soberanos, numa área do conhecimento que clama pela superação dos reducionismos. Reducionismos que alimentam, inclusive, o higienismo dos prazeres promovido pelas corporações da saúde e seus fármacos que promovem o apagamento das sensações.

Felizmente, nestes dias assistimos a vitórias cotidianas das militâncias, formadas por consumidores recreacionistas, por pacientes e por aqueles que nada consomem, mas que anseiam por direitos civis.

Tais vitórias chamam a atenção para o urgente debate sobre o modelo de legalização da cannabis. Afinal, se a palavra de ordem é a temperança, devemos defender o autocultivo e os direitos dos pequenos produtores, bem como a reversão dos impostos oriundos da atividade ao campo social. Há uma grave armadilha no modelo que transfere o poder do cultivo exclusivamente aos grandes conglomerados. Historicamente sabemos que estes se alimentam da promoção do consumo insensato. Do que quer que seja. Se devemos permanecer prudentes e cultivarmos algum medo, é este.