Este artigo é dedicado àqueles cuja dor deixou de ser algo a suportar ou superar. Então… Salve!, gente que dói! Gente cuja dor, o medo, o desequilíbrio, dizem que é frescura, sem-vergonhice. Ó, pobres almas pós-modernas, condenadas à falta de deus! Pessoas acusadas de má vontade, mau humor, indiferença e preguiça porque estão mais preocupadas em morrer… Ó, sofrentes e trêmulos, tratados como maus-caracteres, indolentes, vagabundos, dorminhocos que mal conseguem pedir socorro, enquanto os acusam de egoístas… Gentes de pijamas estampados da vergonha de si mesmas, invisivelmente anedônicas. Almas chutadas que, às vezes, nem fome sentem, nem se lembram de quem são, mas padecem de falta de louça para lavar. E de seus quartos escuros, são convidadas a encontrar a cura numa enxada ou na culpa por um papel social. Gentes dos sentidos de viver perdidos, que os dedos apontam ordenando que voem de asas quebradas. Gente em pânico que tem que sorrir. Pessoas que o amor esqueceu. Gente que dói em silêncio uma vida toda. Gente que, para escapar ao flagelo da dor, à certeza de não valer nada, preferia estar morta… Gente unida por histórias de rejeição, negligência e abandono; largada para morrer, pura e simplesmente; porque não conseguia, não conseguiu por algum tempo ou não consegue, definitivamente, corresponder ao comportamento padronizado, prover renda, limpar a casa, manter uma atividade, dormir dignamente, pedir socorro com carinho, olhar para o futuro com esperança, trocar uma lâmpada, manter sua produtividade e resiliência…

Não é preciso rigor estatístico para entender que os transtornos psíquicos em geral tendem a crescer na proporção da avidez do mercado, da metástase do capEtalismo global. Em nosso Brasil, recém-mandado de volta aos meados do século XX, o que há de mais atrasado em matéria de senso comum ganha força, e deve repercutir na forma de estranhamentos de todo tipo à diversidade, e também aos que padecem de deficiências e transtornos mentais. Afinal, tanto transtornos como preconceitos não estão atados unicamente a quem deles padece. Mas como o capEtalismo pauta sua existência pela absoluta desonestidade autocrítica, a sociedade precisa se organizar em lutas para continuar existindo, apesar do olhar privado prevalente e, quase sempre, inclemente para com diferentes e machucados.

A competitividade em mercados cada vez mais monopolizados, a demonização dos movimentos sociais e dos direitos trabalhistas, a perda da pouca soberania, a negação calamitosa da diversidade e decorrente negligência para com as minorias e os direitos humanos; a miséria em contraponto à imposição de padrões de bem-estar e prioridades equivocados; a desumanização pela meritocracia; os passivos ambientais e danos permanentes à qualidade de vida; a pressão econômica sobre a moral social, o narcisismo que justifica predicados de insensibilidade como métodos de sucesso; a segregação ideológica, étnica e de gênero, e tudo mais que não seja mercantilizável – são indicativos que confirmam as previsões das principais instituições sistêmicas.

A OMS aponta, em relatório de 2014, que dez por cento das pessoas no mundo sofrem de algum transtorno mental. São mais de setecentos e quarenta e cinco milhões de pessoas em números conservadores e já superados. Os casos de depressão e ansiedade, por exemplo, já são a maior causa de incapacitação laboral em todo o planeta, antecipando previsões do final do século XX, quando projetavam esta realidade para depois de 2030… Somente este ano, em dados de outubro, para além de óbitos naturais e clínicos, guerras e crimes, a humanidade atingiu a marca autoexplicativa de oitocentos e oitenta e cinco mil suicídios registrados.

O IPq-USP(Instituto de Psiquiatria da USP) e a ABP(Associação Brasileira de Psiquiatria),  motores da campanha contra a psicofobia no Brasil,  afirmam que mais de vinte por cento dos brasileiros — cerca de quarenta e um milhões de pessoas – sofrem atualmente de algum transtorno mental. A prevalência de transtornos está entre mulheres, idosos, minorias e desempregados… Números não faltam, mas podemos ter uma certeza: há uma fatia significativa da população fora das estatísticas.

Não entrarei aqui em questionamentos ao universo volátil dos diagnósticos… Como depressivo, tenho a clareza de que qualquer definição de transtorno se basta pelo prejuízo pessoal e social, e demanda tratamento digno… Diagnósticos podem e irão mudar segundo a indústria farmacêutica e sua medicina, novas classificações podem ser criadas e algumas cairão em desuso por questões de mercado, mas o preconceito — que devia constar do DSM como patologia — será quase sempre o mesmo! É disso que vamos falar aqui, particularmente, no que toca a transtornos psicoafetivos — que alguns chamam psicossociais — à sombra do alheamento institucional, da medicalização, da rígida moral conservadora e do consumismo.

Psicofobia é um neologismo. O termo foi cunhado para definir preconceito, discriminação ou negligência quanto a transtornos, deficiências, deficientes e transtornados mentais. Inclui negligenciar cuidados adequados e tratamentos, causar sofrimento intencionalmente, privar de medicamentos, consultas ou condições mínimas de cuidado e dignidade. Sabotar emocionalmente: culpabilizar com cobranças sociais e juízos de caráter diante de incapacitação, banalizar a doença, desmoralizar, humilhar, ridicularizar, incitar ao suicídio, etecétera… Psicofobia é crime e pode resultar em penas de dois a quatro anos de reclusão sendo que, nos casos de negação de acesso ao estudo, ao trabalho e às instituições — por motivo de deficiência ou transtorno — a pena pode chegar a seis anos. Recentemente, o Senado e a Comissão de Direitos Humanos do Ministério da Saúde aprovaram o PLS 74/2014, do Senador Paulo Davim, que passou a considerar a psicofobia como crime.

É preciso dizer, de plano, enquanto mais esta lei não é aplicada plenamente: – Somos uma nação negligente, discriminatória e preconceituosa, portanto, psicofóbica no que toca ao trato com problemas mentais em geral. Não bastasse a anticidadania crônica, o baixo valor da vida; o sofrimento psíquico no Brasil bem como as deficiências, ainda são piada e estão mais aferrados aos juízos morais sobre personalidade, caráter e incapacidade que ao cuidado, ao acolhimento, ao alento psicológico das pessoas doentes…Também deve ser dito que não faz tanto tempo que qualquer anormalidade psíquica poderia significar afastamento do convívio social sob severas condições de isolamento, desalento e tratamentos, por vezes, desumanos e estigmatização definitiva. Os reflexos de séculos de estranhamentos são muito presentes entre nós.

Enquanto há pouco investimento global na redução da incidência de transtornos, há uma ciência cindida lutando para mitigar sofrimentos que são, ao mesmo tempo, patológicos e sintomáticos do capEtalismo. Em contraponto aos cientistas e profissionais da área clínica que lutam contra as doenças e o preconceito; a face venal da mesma ciência investe pesado na medicalização irrestrita da vida e do trabalho, abrigada no argumento da produtividade. Difícil saber quem é quem, mas uma coisa é certa: é por improdutividade, incapacitação e prejuízo à renda que os maiores preconceitos e julgamentos morais são nutridos. Somos uma sociedade materialista, mas não há questionamentos sobre as causas sistêmicas em tantas patologias, ainda que esteja claro que o mesmo mercado que produz a doença produz o preconceito social que piora as doenças, e vende os medicamentos. A moral do trabalho não é nem um pouco profilática. Nosso país, historicamente, não gera renda e emprego pleno, além de carregar uma pesada herança escravagista e sustentar até hoje suas dinâmicas coloniais, o que compromete todo o sentido do trabalho.

O acolhimento e o acesso a diagnósticos e tratamentos, principalmente, devido ao fato de que transtornos mentais estão intimamente relacionados à vulnerabilidade social, são extremamente precarizados em todo o mundo. E pioram à medida que grassa desinformação e preconceito. Nesse sentido — não apenas no Brasil, mas com um vasto mercado farmacêutico em expansão por aqui — a mídia hegemônica tem pautado em profusão os tratamentos medicamentosos e pouco tem promovido em entendimento sobre transtornos mentais, luta contra o preconceito e a necessidade de acolhimento psicológico como prevenção ou tratamento. Não por acaso, no Brasil, temos índices mínimos de investimentos públicos na área, mas o viés psiquiátrico é prioritário ao acolhimento psicológico.

A psicofobia é orgânica em nossa sociedade e colabora, com anuência do mercado, na piora da autoestima dos doentes… Mas não é só contra doentes. O estranhamento e a negação dos diferentes é parte de nossas anticidadanias orgânicas, mas é muito útil ao mercadão de adequações e aceitações, em que o consumismo é a forma de pertencimento à normalidade e, por vezes, confundido com cidadania. A questão é entendermos que há um limite claro entre as compulsões de que as pessoas são capazes para serem aceitas e os casos patológicos. Absurdamente, a sociedade é afável com desequilíbrios amparados em produtividade, faturamento, sucesso, prestígio, imagem, mas é terminantemente áspera diante da incapacitação de seus doentes, inclusive, os de doenças-sintoma, como boa parte dos transtornos mentais.

Imagine-se na seguinte situação: destruído psiquicamente, literalmente sem chão, querendo morrer ou no limiar da dor, você está tentando explicar a um familiar, ao seu empregador, a um advogado, a alguém no serviço público de saúde, a um atendente da previdência social que você não está em condições de trabalhar. Dá pra imaginar o constrangimento, a dificuldade de comunicação? A não ser que já tenha passado por aí ou acredite nas palavras de quem está passando – não, você não consegue imaginar! A incapacitação, nesses casos, mais que laboral, pode ser funcional.

Decorre do preconceito que deficientes e transtornados mentais são dos grupos mais marginalizados pela sociedade. E dos que menos conseguem reivindicar cuidado  e respeito, pelas próprias limitações clínicas. A maioria, mesmo os mais fluentes e comunicativos, a depender do estado, mal consegue se expressar, traduzir o que está sentindo, vencer o sofrimento psíquico para sair da cama, tomar iniciativas, gerar movimentos. Como pode interagir com pessoas desinformadas de seu histórico, despreparadas para o acolhimento, alheias ao encaminhamento e repletas de conceitos prévios sobre distúrbios? E outra: deveria, mas não é evidente que, em muitos casos assim, pode haver perda da capacidade organizacional, incapacidade de gerir tempo e compromissos, cumprir prazos, lidar com burocracia, autoridades, grana… Se um doente está incapacitado para o trabalho, para a vida social, por que estaria capacitado para, por exemplo, procurar emprego? Se estiver sem renda, dada a patologia, como poderá se alimentar, circular? Por que deveria ser natural que, sozinho, fizesse a via-sacra da previdência social em desesperada busca por um auxílio-doença, que dificilmente será deferido? Como procurar apoio jurídico no caso de negligência familiar, se mal consegue sair de casa? Como denunciar o preconceito? Como prover o próprio tratamento ou internação? Ir para onde? Pedir para quem?

Se você pensou: família!? A chance de ter errado feio é grande. A dificuldade de comunicação, de locomoção, de alimentação, manutenção da medicação, a paralisia, a indiferença e a completa solidão são inerentes à maioria dos acometidos, e muitos, muitos mesmo, não têm ajuda dentro de suas casas, enquanto outros tantos foram postos na rua por perderem a utilidade ou serem muito difíceis de cuidar. A tal psicofobia está nas entranhas da humanidade e empurra essas pessoas para a anticidadania completa. E pior que a psicofobia é a subserviência das pessoas “saudáveis” aos valores do mercado, como se o direito à saúde dependesse da produtividade. Está implícito na fala dos patriarcas. No discurso de plástico dos empregadores. Nas entrelinhas dos relacionamentos amorosos. É parte intrínseca da moral familiar e do convívio social corriqueiro. Quem não produz não vale nada!…Falar em solidariedade, compassividade, cidadania – como?

Tá maluco? Nada!

A sociedade não consegue enxergar a deficiência e a dor psíquica, a incapacitação por doenças mentais. Nem dá conta de desconstruir a história de anticidadania que envolve os “inadequados” ao mercado. Longe de vitimização, quem precisa de ajuda e depende do preconceito — como disse, até mesmo de seus familiares — está desamparado. E que caia de joelhos e agradeça aos céus se tiver alguma ajuda financeira, alimentação ou encaminhamento psicológico… Rara a postura humana solidária de fato nesses casos. Menos raras são abordagens focadas em apelos motivacionais inócuos, fervores religiosos e até chantagem emocional aberta. E nada disso depende do status da família. A compreensão do problema está distante da maioria dos lares e classes. Não é preciso mais que algumas palavras para derrocar imensos esforços e são estas palavras e posturas que podem fazer processos de reestabelecimento serem mais longos que o esperado ou o caso evoluir para uma internação. Simples assim, evita-se o contato com o universo da psicologia, das patologias, da orientação profissional, o que resulta em desorientação para lidar com o problema. Obviedades, não?

A história dos transtornos mentais é a história da normalidade, refém da moral econômica e apropriada pela medicina. A maior parte dos transtornos psicoafetivos ou psicossociais registra a verticalidade das relações e, mesmo que não seja caso patológico, a negação da infinita diversidade humana diante de um padrão de comportamento exemplar… Talvez, por isso, antes de qualquer abordagem mais detida, as pessoas prefiram aceitar um diagnóstico raso e rápido, às vezes, por clínico geral, e tomar o primeiro medicamento que lhes for prescrito como elixir de adequação; a perderem a fonte de renda, a aceitação social ou mergulharem no processo psicoterápico – e no inevitável crescimento. É óbvio que numa sociedade infantilizada, materialista e fundamentada na mercantilização da vida, em que a exploração de mão de obra é escandalosamente injusta e naturalizada – quanto maior a tirania da normalidade, mais diagnósticos, mais medicalização, mais mercado farmacêutico vendendo curas incertas, mais preconceito e mais patologização de todo e qualquer um que não se submeta à carnificina desta economia… A psiquiatria em vigor é a psiquiatria a serviço da ideologia vigente, funcionando ou não, resiste às transformações com o mesmo conservadorismo da economia e tem por finalidade – salvo épicas exceções – a adequação.

É quase convenção que medicar é mais urgente que entender causas, promover o autoconhecimento, construir a individuação, debater a opressão nos relacionamentos, resgatar vocações, ímpetos, ideais, traços essenciais de personalidade e reduzir preconceitos… Há nas entrelinhas da rotina a ideia de que as soluções de saúde mental precisam ser objetivas e urgentes — às vezes, precisam mesmo –, mas é quase irrestrita a tônica industrialista que evoca para o indivíduo o mesmo padrão de produtividade linear do mercado. Simplesmente, nega-se a pessoa e privilegia-se seu desempenho institucional… Mas quem disse que processos psíquicos podem ou devem ser abordados assim? Nesse sentido, a medicalização tira a luz do debate sobre o acolhimento psicológico e o preconceito, banalizando-os pela adequação do doente, até mitigando sintomas, mas sem promover alterações cognitivas suficientes ou compreensões das causas.

Essa tal psicofobia está por toda parte, inclusive, entre profissionais clínicos, pacientes e envolvidos…Por mais que sintetize o preconceito, a expressão não é mais propriedade de quem a criou. Se, por um lado, a sociedade aponta o dedo para os acometidos e para os que dependem de medicamentos para manter seu desempenho, também é comum uma abordagem preconceituosa para com os doentes desenganados pela alopatia ou os que, simples assim, buscam soluções menos invasivas – aconteceu comigo quando consegui largar os medicamentos e me entreguei à meditação laica…

Em dezessete anos envolvido com este universo, digo que nem sempre a saída é exclusivamente alopática. Há muitos casos de péssimos resultados com medicamentos e recusa a esta via por outros imperativos… Venho frequentando grupos de depressivos, ansiosos, bipolares, cindidos, suicidas, surtados com todas as síndromes, e há alternativas de todo tipo, inclusive, curas por terapias holísticas e até mesmo pela radical mudança de paradigma, porque uma coisa é certa: o caminho mais seguro para o sofrimento psíquico é tentar ser ou fazer o que não está em você!, ou seja, o que está em completo desacordo com seu coração gera desequilíbrio. Por exemplo, ser escravo do senso comum, obediente cego à normalidade ou aceitar que alguém possa amá-lo e, ao mesmo tempo, aplaudir seus mais insanos sacrifícios! Claro, há casos endógenos em que não há origem certa para a patologia e, nesses casos, o tratamento medicamentoso é quase inevitável.

A dificuldade prática em se buscar alternativas de tratamento é o tempo. Sem dúvida, tratamentos alternativos têm tempos próprios, menos industriais e nem sempre adequados à urgência do mercado. Mas é preciso ter claro que vender rapidez no reestabelecimento não significa entregá-la no prazo. Se o termo “psicofobia” foi criado pela psiquiatria para minimizar estigmas, seria bom que partisse da classe médica o combate ao preconceito contra outros métodos, comprovadamente eficazes, uma vez que a eficiência da psiquiatria não é, nem de longe, absoluta.

Se o pavor de ficar sem renda é uma constante para doentes e nem tão doentes, a limitação de renda tem outra implicação: a base da população não tem como pagar tratamento privado. Nem psicoterapeuta, nem psiquiatra, nem medicamento, nem clínica. Nada… O atendimento público, por maiores que sejam os esforços dos envolvidos, é raso, corrido, insuficiente e medicalizado. Entre o inferno do desamparo e a medicalização com todos os efeitos colaterais, o que escolher? Consumir medicamentos, óbvio. E vender medicamentos para um país em calamidade psíquica permanente, não tem nada a ver com saúde pública ou cidadania – é um tremendo negócio!

Foi-se o tempo em que psicologia e psiquiatria eram para loucos. Quer dizer, foi-se o tempo em que pensar assim abrigava qualquer um no senso comum… Isso não quer dizer que tenhamos vencido os inúmeros preconceitos contra doentes e doenças mentais. Menos ainda, que tenhamos atingido sombra de equidade no trato com dores psíquicas e dores físicas óbvias. A maioria das pessoas não concebe certos transtornos como doenças e tende a ignorar ou minimizar a dor psíquica.

Somos uma sociedade cristã que aplaude de pé os sacrifícios. A dor, a resistência à dor e sua superação são glorificadas. Rendemos homenagens aos esforços extremos e à negação de nós mesmos, sob a chibata meritocrática e sentimos orgulho pela aceitação dos mais próximos. Não bastasse, o formato patriarcal das relações de trabalho e de família não perdoa sensibilidades e fraquezas. A dor deve ser suportada ao máximo. Eu estaria louco se dissesse que vivemos em uma usina de moralismo, preconceitos e dores?

A indústria farmacêutica e seus apêndices vendem também ilusão. Até parece que tudo pode ser revertido automaticamente por medicamentos como quem troca o óleo de um motor. Esta é a visão consumista da psiquiatria… Deve ser por isso que é na surdina, sob esforços hercúleos e com o – ainda — sorriso na cara, que a maioria adia tratamentos injetando a tal psicofobia nas próprias veias. É também a partir dos próprios doentes, apavorados com os achismos sociais e comerciais — e o temor de ficarem sem renda e aceitação — que o preconceito é nutrido… E outra, é socialmente aceito que, para não encararem seus problemas, as pessoas busquem a automedicação no álcool e outras drogas psicoativas para darem conta de suas demandas socioeconômicas e mascararem suas angústias, fraquezas e dores. É por ter vivido assim que afirmo: – O uso recreativo e naturalizado de qualquer droga, qualquer mesmo, com a finalidade de mascarar sofrimento psíquico ou em nome da produtividade, da grana, dos papéis sociais, — quase sempre em rota traçada para o descontrole – apenas posterga o problema. De nada adianta fugir quimicamente de um enfrentamento consigo mesmo que, inevitavelmente, trará na bagagem as sequelas acumuladas nos anos de fuga e, muito provavelmente, substituirá porres, cafungadas e misturas por alopatia, seja lá qual for o estado de seu organismo. É mais uma das faces da psicofobia reinante sublinhada pela anticidadania em vigor que permite essa incoerência toda com um problema grave de saúde pública. Entre preconceito e doses cavalares de orgulho e onipotência, muita gente morre chapada fingindo que é normal… E a indústria da bebida, os traficantes e vendedores de paraísos em pílulas agradecem!

Nesse esconde-esconde tão útil à indústria do desespero e à competição doentia, é tão comum que os diagnósticos venham à tona em situações extremas, surtos, crises, internações e até mesmo tentativas de suicídio, que as reações psicofóbicas parecem o que há de mais sensato… Dor, desespero, desequilíbrio interior são assuntos tabu em qualquer situação, e quando não são óbvios com hematoma estampado, osso exposto, câncer diagnosticado, cateterismo urgente – as pessoas não enxergam o sofrimento psíquico. E quem o sente, enquanto suporta, quase sempre prefere não pedir ajuda a ser tachado de maluco, desequilibrado ou, pior, muito pior: de negativo, desmotivado, improdutivo, fraco – em pleno planeta de narcisos competitivos, todos perfeitos, fortes, potentes, inquebráveis e inoxidáveis como posam nas redes sociais! E se estiver em questão o padrão hétero, é ainda pior!

A ditadura da felicidade – um entre os principais ingredientes da psicofobia — ocupa dez entre dez hierarquias profissionais. E nas relações comerciais é mais grave. Cenho franzido e olhar debilitado comprometem a imagem do produto e do vendedor. Respiração alterada, olhar de desamparo, taquicardias, suores, desmotivações e demais padecimentos causam estranhamentos incríveis. É como se não fizessem parte de nossa humanidade!

Olheiras? Dá-lhe base! Choro? Dá-lhe colírio! Tristeza? Vamos tomar uma! Desânimo? Mande um energético! O resto, a psiquiatria resolve… A dor da gente não sai no jornal, não pode aparecer. Ema, ema, ema, sabe?… Este é o território do autossacrifício, da completa falta de limites e de amor próprio. Solo fértil para o autopreconceito e a medicalização, não para a busca de alento, equilíbrio ou compreensão de si mesmo.

Que o sofrimento psíquico pode ser incapacitante devia ser óbvio… Mas, repito, nem todos conseguem aceitar que um sofrimento invisível incapacite… Doenças como depressão e ansiedade, por exemplo, demandam esforços imensos, extraordinários mesmo, para manter aparência de normalidade, apesar da dor. E o pior, comumente, tudo se passa sob profunda anedonia, ou seja, sem que os doentes consigam sentir prazer algum em estar vivos ou no que fazem, ainda que seja algo que gostavam de fazer antes de adoecerem… Resumindo, a vida passa a ser marra sem sentido! Um protocolo de obrigações a cumprir sem prazer, e sem questionamentos, uma vez que a simples ansiedade de parar para pensar é suficiente para muita gente entrar em pânico… A anedonia rouba os prazeres essenciais. A pessoa, simplesmente, não encontra prazer em si mesma e, a partir de então, não basta sua saúde, uma respiração satisfatória, uma alimentação razoável, um limite de saciedades, um momento de relaxamento, um banho, sensações táteis, lazer gratuito, enfim – a vida entra no automático…E quem vive sem buscar algum prazer, ainda que não encontre?

A anedonia é um prato cheio para o consumismo. Aliás, nossa economia é mesmo baseada na escassez, claro que lucra mais à medida das incompletudes… Talvez, na sociedade capEtalista, a anedonia endêmica – uma ideologia velada? — seja a razão para a indiferença das pessoas às prioridades básicas e à natureza. A saciedade e a consciência prejudicam o mercado porque a questão do mercado não está no serviço, mas no lucro. Quer anticidadania maior?

A opressão econômica é tão deprimente, rouba paz, saúde e tempo com tamanha voracidade e gera tanta ansiedade que mesmo quem não é consumista compulsivo, mesmo quem não está dando vazão a uma patologia, acaba procurando prazeres fugidios como compensações: na comida, na comida como entretenimento, no entretenimento travestido de cultura, no álcool, na vaidade, no próprio ato de comprar e consumir e acaba transformando a relação com o trabalho numa equação em que se trabalha para consumir e consome-se para continuar trabalhando.

Lembrando que muita gente tem o rendimento profissional medicalizado, está armado o moto-perpétuo de um mercado que depende do desequilíbrio e da sedação das pessoas para faturar. E elas dependem do mercado e pagam o preço para manter seus padrões adquiridos. Daí ao capEtalismo de desastre de fato, é um pulo. Que mercado compassivo, não?

As famílias comumente não estão preparadas para lidar com doentes e doenças mentais, insisto. A mesma família que acolhe um doente de dor óbvia pode constituir motivos de piora no caso de limitações de ordem psíquica – isso, quando a própria família não é a causa da doença… Mas se há algo em que a família é amplamente solidária é no consumo, pela manutenção de seu padrão de bem-estar idealizado e demandas sociais de sua classe… Sabemos que as equações de aceitação e rejeição, adequação social e profissional, regem dinâmicas psíquicas em família. Também regem relações de consumo numa sociedade em que ter, ostentar, parecer, comprar, rendem prestígio – mais prestígio que a solidariedade ou o desapego, por sinal.

Neste mundo de narcisismos irrestritos, suponha que uma família lute por um determinado padrão de consumo e nutra sua autoestima através da imagem – independente do padrão. Se os hábitos e compromissos familiares são bancados em conjunto e consumidos em regime de cumplicidade – o que pode acontecer a alguém que deixa de produzir renda ou cumprir tarefas, sem um motivo visível ou compreensível? Eis o que ocorre na maioria dos casos em que não há histórico de doenças mentais por perto. Até que haja compreensão de todo o processo, o conflito e, portanto, a piora do doente, sob a óbvia psicofobia cerzida aos discursos, marcará presença.

Será mesmo que há amor que sobreviva à inviabilização dos sonhos materiais à venda? Será que a relação com os prejuízos causados por incapacidade são as mesmas em caso de doenças e acidentes convencionais e transtornos mentais? Será mesmo que pessoas são mais importantes que coisas e padrões, em todos os casos?

É muito comum o amor acabar quando a utilidade termina. Por isso, a psicofobia fala alto – Doente mental na família é peso morto! E ainda há quem ache supernatural tratar transtorno mental como escolha e maltratar o doente. Não faltará uma legião de negados confirmando o que digo… Claro que é natural que as pessoas fiquem frustradas pela perda de seus sonhos e projetos, por dificuldades financeiras. Mas isso justifica não aceitar um diagnóstico, negligenciar cuidados, verter preconceito, como é tão comum acontecer?

Nada é melhor para uma economia inconsequente, consumista, aética e linear que vender prazeres fugidios e sensações extremas para gerações sistematicamente educadas — pela família, pela escola, pela mídia e pelo mercado — para suprir seus vazios e rejeições pelo consumo… Por que será que a medicalização infantil só aumenta e inaugura vidas inteiras dependentes da indústria farmacêutica? Nunca se viram tantas crianças ansiosas, compulsivas, deprimidas, transtornadas – e consumistas! Na proporção dos diagnósticos, nunca se viram tantas infâncias roubadas. Isso tem relação estrita com o roubo de futuro pelo uso inconsequente dos recursos naturais e pela privação do contato das pessoas com a natureza… Sustentabilidade? Só se for do caixa dos que lucram com tanta iniquidade, e o pior: sempre alegando serviço, satisfação, realização e entregando mais incompletudes.

O consumismo, em sua essência, historicamente, pregou exatamente isto: – Consumir produz felicidade! Quando excede o essencial, não produz… Produz fakes, incompletudes e normalidades, obediência a padrões para contornar rejeições e preencher ocos à custa da desumanização, do desrespeito às diferenças e da devastação ambiental.

Será tão difícil encerrarmos essa conta pelo número total de miseráveis em todas as categorias de dor, revogando a economia da escassez e a escassez de saciedade?

Desde que caí da árvore da classe média, e aprendi a viver apenas do essencial — graças a uma história assim –, carrego comigo duas frases que compartilho.

A normalidade é a única exceção!

Gente feliz consome pouco!