A primeira pergunta que caberia é: existe algum conhecimento sem ideologia? Existe conhecimento neutro?

Se você responder que sim, que existe neutralidade no conhecimento, eu vou te informar que sua resposta está carregada de uma ideologia da qual você nem se dá conta, porque “não se dar conta” faz parte do objetivo dela.

É nessa mentira que a ESCOLA SEM PARTIDO se escora para confundir pais e alunos, e até professores, sobre suas reais intenções. O grau de hipocrisia dos proponentes desse projeto chega a ser preocupante, se não assustador.

A ESCOLA SEM PARTIDO propõe eliminar conteúdos ideológicos dos conteúdos escolares. Mas, como é impossível eliminar ideologia de qualquer conteúdo, até o matemático, então o que ela está propondo é eliminar UM conteúdo específico.

A ESCOLA SEM PARTIDO engana os desavisados quando sugere que “ideologia” é um termo designado apenas para ideologias de esquerda. Como se a direita não fosse uma ideologia também. Ela quer convencer que existe um conteúdo neutro sem ideologia nenhuma. É assim que atua qualquer ditadura: finge que não é.

Uma falsa propaganda anticomunista se instaura no Brasil desde o golpe militar, de forma ostensiva, com objetivos muito precisos.

Falsa porque não existe nenhuma sustentação no real a afirmação de que o Brasil sofre uma ameaça de comunismo. Nenhuma.

Apesar dos infantis argumentos desse projeto tentando transformar Paulo Freire ou Marx nos responsáveis pelas ditaduras comunistas, nenhum desses artifícios sobrevive a uma discussão profunda sobre o assunto.

E esse é o perigo: a superficialidade, o estereótipo, sobre os quais se baseia.

Apesar de o PT nunca ter proposto um sistema comunista, o fato de ter representado (estou colocando o verbo no passado, atente-se) movimentos sociais, de ter representado o pensamento de esquerda (não necessariamente comunista), de ter representado parcelas excluídas da sociedade permitiu que forças conservadoras e de direita, e o poder econômico, projetassem os sentimentos de medo contra ditaduras proletárias (que, aliás, nem existem mais) sobre esse partido. Dedicaram-se a construir essa projeção.

Apesar, também, de os governos petistas terem se alinhado, comercialmente, a países que viveram revoluções comunistas, ou socialistas, ou a países antiestadudinenses, jamais os governos de Lula ou Dilma deixaram de servir ao liberalismo econômico, aos mercados financeiros, aos bancos e toda a estrutura capitalista clássica. Jamais deixaram de governar sem a participação desses que hoje os acusam de comunistas.

Antes o tivessem feito!!!

O fato de esses governos supostamente de esquerda terem melhorado o poder de consumo das classes mais pobres, diminuído a miséria e criado uma série de programas sociais muito importantes, de forma alguma impôs mudanças fundamentais que apontassem para um sistema minimamente socialista, que dirá comunista. Menos, bem menos.

Porém, devido aos anos de ditadura no Brasil controlando o conhecimento acessível à sociedade desde as escolas, devido à manipulação de informações articuladas há décadas pelo poder midiático e devido à vontade da elite de permanecer com o poder político e econômico do país, o brasileiro não sabe o que é comunismo. Aliás, não sabe nem o que é mais-valia, ou qualquer outro pilar do próprio capitalismo em que vive.

A ignorância, vinda da desinformação, é instrumento ancestral de controle.

Já desde a ditadura militar vem sendo construído um terror contra o comunista comedor de criancinhas, terrorista, invasor da propriedade alheia, destruidor de valores familiares, pervertido, e toda a sorte de invenções muito bem pensadas para iludir a sociedade de que a esquerda brasileira se confunde com as terríveis experiências de ditaduras comunistas no mundo.

Até hoje há quem chame os guerrilheiros contra a ditadura brasileira de terroristas, pois essa foi a propaganda contra a resistência.

Até hoje há quem acredite que suas casas serão invadidas por pobres sujos e animalescos, e todo seu dinheirinho será distribuído na esquina.

Até hoje há quem acredite que os contrários ao comunismo serão fuzilados num paredão e todos seremos pobres como em Cuba!! (Imaginar que as informações sobre a vida cubana sempre foram filtradas por interesses, ninguém imagina!)

A intenção é iludir a sociedade de que a esquerda é o mal da humanidade, o próprio diabo. Sim, porque não faltaram memes em que os símbolos da esquerda foram ilustrados como sendo de satanás!!!

Tudo milimetricamente calculado, usando e abusando da iconografia mais tosca que assola nossas mentes ignorantes e excessivamente religiosas.

Mentiras. E quem está mentindo sabe muito bem aonde pretende chegar: na ESCOLA SEM PARTIDO.

Esse projeto-blefe é exatamente a mesma vontade de controle do conhecimento e redução da capacidade de reflexão usada na ditadura militar, porém disfarçada de proteção contra o monstro vermelho.

Pior: disfarçada de democracia, disfarçada de liberdade, disfarçada de livre expressão.

Ai meus sais…

O mais sórdido golpe que está sendo dado na sociedade brasileira hoje é esconder uma ditadura descarada e avassaladora, numa fachada de democracia e legalidade. Sabe o lobo na pele do cordeiro?

Como já vem sendo perguntado pelos opositores do projeto: é escola sem qual partido?

Há um partido por detrás do projeto. Há uma coligação de partidos por detrás do projeto, que pretende manter-se no poder, destruir a soberania brasileira entregando o país a escolhidos capitais financeiros, e atirar a sociedade no obscurantismo, religioso principalmente.

Digamos que existem dois tipos de educação.

A que mais conhecemos, aquela pela qual todos passamos, é a escola que treina o indivíduo para corresponder ao que dele é solicitado. O aluno decora postulados e os emprega quando lhe é perguntado; não cria pensamentos, apenas reproduz. As supostas verdades que são ensinadas nesse tipo de escola omitem fatos históricos importantes, omitem fatos científicos, para que o educando não perceba as contradições políticas, econômicas e filosóficas em que está inserido. A crítica não é permitida. A dúvida não é permitida. É o treinamento de comportamentos submissos, controlados, formatados por uma moral definida por quem detém o poder das instituições. Nesse ambiente escolar, o indivíduo é preparado para viver numa sociedade hierárquica, atolada em diferenças sociais, e monocórdia do ponto de vista do pensamento humano. Há uma ideologia!!!

A outra possibilidade, que vem sendo explorada em vários países, é uma educação crítica. Nessa, é apresentada ao indivíduo a realidade com suas contradições, com suas exclusões, sugerindo que o aluno desenvolva criticidade, reflexão e, principalmente, autonomia. O conteúdo não é treinado, é descoberto, reinventado, recriado.

Mas, que Poder quer indivíduos com autonomia de pensamento e de comportamento?

Nenhum, sem exceções.

Para existir uma sociedade mais democrática, os indivíduos devem ser capazes de pensar e relacionar informações, construir conhecimento, e desenvolver criatividade. A aceitação da igualdade de direitos, a vontade de fraternidade, é consequência de pensamentos criativos e críticos, e não de comportamentos robotizados.

Portanto, impedir o pensamento crítico, castrar a criatividade, é excelente arma contra a democracia, muito utilizada no fascismo inclusive.

É isso que o projeto ESCOLA SEM PARTIDO pretende: voltar a adormecer uma sociedade que começa a despertar, que começa a desejar democracia ampla.

É mentira que a ESCOLA SEM PARTIDO pretenda a liberdade de pensamento. É o contrário. E essa é a parte mais sórdida desse jogo: a inversão de valores.

No programa da pretensa proposta, por exemplo, um articulista do blog desse projeto afirma que Paulo Freire propõe um sistema ideológico de educação (obviamente acusado de esquerda) com a mesma técnica e lavagem cerebral criticada na escola tradicional. Ele, infelizmente, não estudou numa escola libertária para que pudesse aprender a refletir sobre os textos que lê (se é que leu Paulo Freire) e não falar tanta asneira sobre o trabalho do autor citado. Superficialidade é o mote das afirmações da ESCOLA SEM PARTIDO.

Mas, quando chega na discussão sobre a presença do estudo da sexualidade como matéria obrigatória, esse projeto nefasto mostra a cara.

Com o argumento de que o aluno deve ter o direito de receber na escola a mesma formação moral e religiosa que recebe em casa, a ESCOLA SEM PARTIDO aplica suas teses mais conservadoras. Querem impedir que crianças e adolescentes recebam informações adequadas sobre sexualidade, práticas e preconceitos!!

Claro, o controle sobre os corpos é a principal arma do poder moderno.

Sendo assim, a neutralidade proposta desaparece, já que a moralidade da família deve definir a coloração do conteúdo, dando explícita vertente religiosa ao ensino (claro que de uma religião aceita por eles. Se a família quiser que o aluno tenha a mesma formação religiosa que tem em casa e for do candomblé, é mais fácil que expulsem o aluno.).

Sórdido também é transformar alunos, em formação intelectual e crítica, em denunciantes de seus professores, em policiais de conteúdos.

Esses instrumentos do poder servem para internalizar normas de conduta, robotizando alunos contra um pensamento que não terão oportunidade de conhecer.

A ESCOLA SEM PARTIDO, que pretende eliminar conteúdos ideológicos no ensino, TEM UMA IDEOLOGIA clara e evidente e, portanto, a ideia de “SEM” partido quer impor apenas um partido: o dos donos do poder!!

Fascistas não passarão!!!