A moda nos mostra alguns hábitos, costumes e valores de uma sociedade. Podemos entender e reconhecer alguns traços nossos na moda brasileira. Um deles é o chamado ‘complexo de vira-lata’ usado por Nelson Rodrigues, a priori, para se referir ao futebol.

O fio da seda brasileira é um dos melhores do mundo, mas a maior parte da produção é exportada. O algodão orgânico paraibano esteve na Première Vision (evento que reúne as principais tendências de matéria-prima, tecidos, aviamentos, etc. de moda), realizada em fevereiro deste ano, em Paris, reconhecido pela excelência em artesanato e criatividade, fato que passou quase em branco nas principais mídias nacionais.

Ronaldo Fraga, um dos poucos estilistas que valoriza as raízes e cultura brasileira em suas criações, já foi selecionado para participar duas vezes da exposição ‘Designs of the year’, promovida todo ano pelo Design Museu de Londres, que seleciona os trabalhos mais inovadores e originais no período de um ano. Em todas as matérias que se falou dessa escolha, o título dava ênfase ao fato de o trabalho do estilista brasileiro estar junto ao de grandes marcas internacionais, como Prada e Dior.

Em maio deste ano, uma matéria da Folha de São Paulo sobre o Dragão Fashion (evento criado para lançar novos estilistas e marcas que tenham uma visão mais autoral de moda) ressaltava o fato de marcas do Ceará já começarem pensando no mercado externo e não interno. Nessa matéria, o estilista Lindebergue Fernandes explicou o motivo: “A elite cearense ainda valoriza mais as grifes internacionais ou as do Sul e do Sudeste do país. É muito difícil conseguir um espaço”.

O nordeste brasileiro é reconhecido por suas rendas. Masem um senso comum que diz ser caro o preço de um vestido de 700 reais, ainda que tenha demorado um mês pra ser confeccionado. Contudo, é aceitável um Dior de renda ter um preço com quatro dígitos.

E, se esses cenários parecem distantes, é só pensar: entre uma roupa da Zara e uma da C&A, de mesmo preço, qual seria a preferência? Ou usando ainda a marca europeia como exemplo. Aqui, mesmo sendo loja de departamento, ela possui um certo status. No entanto, lá fora, possui o mesmo valor que uma loja de departamento nossa tem para gente.

Os movimentos que estão surgindo de slowfashion (nome dado para falar sobre o consumo consciente de moda) podem nos ajudar a perder esse complexo. Talvez nesse incentivo a consumir peças atemporais, feitas a mão e em baixa escala, possamos aprender a nos valorizar e perceber o quanto somos ricos em matérias, materiais, autenticidade e criatividade.