O racismo é um fenômeno que atravessa e constitui violentamente a sociedade brasileira. Fato social negado devido à intensa reprodução do mito da “democracia racial” e/ou ignorado olimpicamente através da sobreposição do discurso socioeconômico em detrimento de análises mais rigorosas sobre a questão étnico-racial (que não deixa de representar também um problema de classe social). Nesse sentido, qualquer manifestação de caráter classista demanda um certo conhecimento sobre o racismo e as relações étnico-raciais no Brasil, da mesma forma que manifestações antirracistas não podem estar desconectadas da produção material da vida e, indubitavelmente, necessitam trazer à tona os mecanismos que caracterizam o “racismo brasileiro”.

Partindo desse pressuposto, farei uma breve reflexão a respeito de um aspecto específico da contracultura brasileira, mas que, em alguma medida, evidencia o mesmo problema que se apresenta em vários outros espaços político-culturais. Me refiro à abordagem da questão racial na contracultura punk.

Palavras de ordem, violência estética – sonora e/ou visual –, autogestão, oposição à lógica do capital são algumas das características que constituem, via de regra, o punk no Brasil e no mundo. Por se tratar de uma contracultura heterogênea, cada segmento dentro do punk opta por priorizar o discurso/ação que lhe é mais conveniente a partir das possibilidades existentes na própria contracultura. No entanto, minha exposição diz respeito aos segmentos do punk que, acima de tudo, reivindicam justiça social a partir da sua práxis política e se servem do racismo para levantar bandeiras no underground nacional.

Há um fato que, apesar de óbvio, precisa ser mencionado para início de problematização: o punk é hegemonicamente branco; os negros continuam sub-representados na contracultura. Tanto no Brasil quanto no exterior, é possível contar nos dedos as bandas que são referências na cena e que apresentam integrantes negros em suas formações – bandas formadas apenas por integrantes negros só tenho conhecimento do BadBrains, PureHell e do Death, sendo que somente em relação à primeira podemos trabalhar com a dimensão de ter sido um nome consolidado internacionalmente e influenciado gerações.

Por este viés, a identificação visual/estética da juventude negra com o punk já se apresenta de maneira muito restrita, pois as referências são poucas e ao mesmo tempo marginalizadas pela indústria cultural. Já a identificação política pode ocorrer, em alguma medida, pelo fato de o punk reverberar os discursos inerentes à opressão de classe, problema enfrentado pela maioria da população negra no Brasil. Todavia, nós, negros, sofremos a opressão racial que ainda nos mantém na condição de subcidadania e nos condena sistematicamente à pobreza – somos majoritariamente pobres porque somos negros. De tal forma que falar de desigualdade social no Brasil, onde raça e classe quase se confundem – onde raça é quase classe –, demanda diálogo com o oprimido e conhecimentos sociológicos locais. Porém, o punk não somente carece de representatividade negra, como também não estabelece interlocuções com os negros que refletem sobre a opressão racial que sofrem cotidianamente. Por essa razão, o punk acaba sendo cúmplice da barbárie brasileira, do racismo que diz combater através de palavras de ordens e guitarras distorcidas, mas que no fundo termina legitimando-o por não compreender seu dinamismo em nossa sociedade.

“Goodnight,whitepride!”– comodismo ou ingenuidade?

É muito comum, inclusive um clichê na cena punk, a oposição ao nazismo e aos grupos urbanos que se autodeclaram neonazistas. Camisetas, patches, botons, entre outros acessórios apresentando a imagem de uma suástica com um risco vermelho em cima (“nazismo é proibido”), são exibidos por todos os lados onde há a presença de punks. No entanto, a despeito de grupelhos sectários aqui no Brasil praticarem a violência e reproduzirem discursos de ódio inspirados em um regime totalitário que não existe mais – sim, o nazismo sucumbiu na Segunda Guerra Mundial e nazismo não é sinônimo de racismo –, eles representam uma minoria. Digo mais, uma minoria que sequer tem influência significativa na constituição e reprodução do racismo brasileiro que subordina historicamente a população negra. Então, por que razão o discurso antinazista é tão reproduzido na cena punk, chegando a ser traduzido como antirracismo, em última instância? Aliás, por que a dor dos judeus ainda choca mais do que a nossa? Aimé Césaire nos deixou algumas pistas nesse sentido:

“O que o burguês supercristão do século XX não perdoa em Hitler não é o crime em si, não é a humilhação do homem em si, mas o crime contra o homem branco […] de ter aplicado à Europa procedimentos colonialistas que até então só abrangiam os árabes, os ‘coolies’ da Índia e os negros da África” (CÉSAIRE, 1978).

Por este viés, é possível compreender por que grande parte dos punks preocupa-se demasiadamente com grupos neonazistas no Brasil em pleno século XXI. Primeiro, como já afirmei anteriormente, o punk é majoritariamente branco e os negros continuam sub-representados na contracultura. De tal maneira que, sem a presença da população que vivencia o racismo de maneira factual, são necessários os discursos de ódio de pequenos grupos neonazistas para os punks lembrarem que o racismo existe e esboçarem alguma sensibilidade para com a causa. O resultado desta operação é um embate entre punks e neonazistas (um confronto entre brancos) sob o pretexto racial no qual “blacklivesdon’tmatter”. Segundo que, neste contexto, a cena punk está longe de tocar no fundamental– por ignorância e/ou conveniência – no que diz respeito ao racismo que estrutura historicamente o Brasil e que impede negros e indígenas de participarem como iguais na interação social. Não existe diálogo com os negros e negras organizados, com as pautas da agenda política de quem sempre esteve na vanguarda da luta antirracista no Brasil: o movimento social negro. Caso contrário, não estariam dando tanta visibilidade a esses grupos extremistas que sequer têm o apoio da classe dominante, que segue sem abdicar de seus privilégios raciais.

O genocídio da população negra brasileira, os menores índices de escolarização, os menores salários, as posições de menor prestígio no mercado de trabalho, o encarceramento, o desemprego e a super-exploração não são implementados pelas gangues neonazistas. Lutar contra o racismo demanda compreender de que maneira ele opera socialmente e oprime determinados grupos sociais no contexto no qual estamos inseridos. Nesse sentido, a cena punk está muito longe de desconstruir os padrões institucionalizados que reproduzem o racismo no Brasil e, por isso, segue direcionando suas ações aos grupos extremistas, tentando reproduzir nos trópicos os dilemas de uma Inglaterra dos anos 80. Em outras palavras, reivindicando um antirracismo que não tem dentes para morder, pois não se relaciona com a realidade concreta de quem sofre a opressão racial. E quando há algum esforço nesse sentido, é o discurso dominante brasileiro que dá a tônica: “não faz sentido orgulho branco no Brasil, somos todos miscigenados, ninguém é puro, fora nazis!”, dizem os punks destituídos de um pensamento crítico e incapazes de compreender que não precisa ter “orgulho de ser branco” para usufruir dos privilégios de ser branco. Ou que este privilégio não está somente nos grupos neonazistas, mas em toda população branca, inclusive neles mesmos. Isso quando não desferem ataques ao “capital” sem a mínima atenção ao próprio bordão clássico de Malcon X: “o capitalismo não existe sem racismo”. De tal maneira que não há como engendrar um projeto de sociedade mais humanitário sem resolver as questões fundamentais da divisão social do trabalho no contexto de capitalismo dependente, o que demanda necessariamente reflexões e um programa de ação que contemple raça e gênero, no mínimo. Sem isso, não começamos a fazer política e seguiremos semeando ilusões.

Portanto, o engajamento na luta antirracista requer disciplina intelectual e um debate permanente com os indivíduos/grupos que historicamente enfrentam esse problema. Abordei aqui a contracultura punk, mas a reflexão pode se estender para qualquer organização majoritariamente branca que pretende investir na luta contra o racismo no Brasil. Ou a práxis política que orienta esses grupos se renova, ou permanecerá o dilema abordado com muita lucidez pela banda paulista de punk rock Flicts:

Há décadas falamos em revolução

Em resistência e luta, luta e união

Ninguém está conosco

Não há ninguém ao lado

Não sabemos estender a mão, solitários a lutar em vão

[…]

Avançar ignorando cidadão comum

Avançar sem direção rumo a lugar nenhum

Então tudo se revela

Tragédia, farsa, a mesma história

Não sabemos assumir os erros e sonhamos com triunfo e glória 

A chama que se apaga

Reconhecer cada batalha perdida

Perder as ruas de novo

Ignorados pelo povo

E o povo onde está? E o povo onde está?

Não sabemos ser ouvidos e esperamos ser seguidos!

E o povo onde está? E o povo onde está?

Não sabemos estender a mão e aguardamos a evolução!

Wellington Navarro é graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); mestrando do PPGEDU da Faculdade de Educação da mesma instituição; Baixista da banda Porto-alegrense Estive Raivoso. É também leitor da e-revista Língua de Trapo.