Que patriotismo é esse sedimentado sobre símbolos forjados pelas elites políticas e econômicas no transcorrer da história? Que patriotismo é esse que se resume a uma “exaltação” festiva à bandeira e ao hino? Que patriotismo é esse de profundo vazio conceitual e que reproduz ideias e posturas manipuladas por aqueles que oprimem? Que patriotismo é esse que não se dá à reflexão?

Que patriotismo é esse que se faz pela adoração de uma bandeira de simbologia forjada?

Sim, porque a história e significado da bandeira brasileira é muito diferente da que ensinam nas escolas. O retângulo verde e o losango amarelo estão presentes na bandeira desde o período colonial. O verde representa a cor da Casa Real dos Bragança e o amarelo-ouro a cor da Casa Real dos Habsburgo.

Em 1888, uma nova bandeira para o país foi desenhada, já sendo prevista a transição para a República. Esta nova bandeira, inspirada na dos EUA, ostentava listras horizontais pretas e brancas e o mapa brasileiro dentro de um retângulo vermelho no canto superior esquerdo.

Contudo, ao proclamar a República, Deodoro da Fonseca ignorou este projeto e decidiu manter as cores e formas da bandeira que perpassou os períodos colonial e imperial.  Ele também substituiu as armas do império pelo círculo azul e a inscrição positivista “Ordem e Progresso” dentro da faixa branca.

Portanto, o verde nunca simbolizou nossas matas e nem o amarelo o nosso ouro. Estes significados foram forjados pelas elites dominantes durante a ditadura Vargas, que também tentou cunhar uma identidade nacional única, como se isto fosse possível num país com dimensões continentais e extremamente diverso e plural.

Que patriotismo é esse de quem brada “a nossa bandeira jamais será vermelha”? Nossa bandeira é vermelha sim, sempre foi, ainda que não ostente essa cor. A história deste país, da colonização aos dias atuais, foi construída à custa do sangue do índio e do negro. Portanto, nossa bandeira é banhada no mais rubro sangue.

Que patriotismo é esse pautado na reverência a um hino entoado por aqueles que ignoram seus distorcidos significados? Hino pedante, de letra parnasiana, que distorce por completo fatos e interpretações de contextos históricos e sociais do país. Não foi o povo heróico que bradou às margens do riacho do Ipiranga. Que igualdade conquistamos com braço forte, se vivemos em um dos países socialmente mais injustos do planeta? A pátria é mãe gentil para quem?

Que patriotismo é esse que cultua falsos heróis?  Que patriotismo é esse que exalta picaretas que construíram fortunas à custa do povo, que se vestem e se pintam de verde e amarelo e sonegam os impostos que deveriam prover saúde e educação àqueles que construíram sua riqueza? E o argumento de que a corrupção política desvia esse dinheiro só serve para corroborar a desonestidade, hipocrisia e caráter degenerado do sonegador.

Que patriotismo é esse que quer negar a compatriotas o direito de migrarem em seu próprio país?

Que patriotismo é esse que coloca o amor ou ódio a partidos políticos acima dos interesses da população?

Patriotismo não significa “idolatrar” símbolos. Patriotismo significa amar gentes. Patriotismo significa valorizar e respeitar a diversidade e multiplicidade étnica e cultural do país. Patriotismo significa tratar o outro com respeito. Patriotismo significa não negar direitos, inclusive de estrangeiros que vivam aqui. Pois só assim se constrói uma pátria justa e digna para todos viverem. Patriotismo não é discurso, é ação.

Que raio de patriotismo é esse de significados e significantes tão distorcidos? A pátria é, antes de qualquer coisa, sua gente. E sua gente é todo aquele que vive nela, independente de onde venha.

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