O surgimento dos movimentos estudantis articulados não é recente e a influência deles na história do Brasil tem importância centenária. O primeiro movimento estudantil brasileiro data de 1901, com a Federação dos Estudantes Brasileiros. É verdade que sua relevância foi, a princípio, pequena, mas o cenário começou a mudar já na década de 30, com o nascimento da União Nacional dos Estudantes (UNE), que desde seu surgimento teve conquistas históricas não só no campo da educação, mas das reivindicações sociais como um todo. Seu início coincidiu com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, quando estudantes enfrentaram os nazifascistas que buscavam implementar essa ideologia no país. Os estudantes também tiveram importância fundamental na criação da Petrobras, com a campanha “O Petróleo é Nosso”, na luta contra a instauração do regime ditatorial (sofrendo graves ataques, demolição da sede do movimento e assassinato de secundaristas) e, posteriormente, na campanha das “Diretas Já” e na promulgação da Constituição de 1988. Falando sobre os dias de hoje, é possível afirmar que a criação do ProUni só aconteceu devido ao esforço dos estudantes da UNE em pautar, debater e defender com seriedade a proposta junto ao governo federal.

A história se repete, os ataques continuam, mas as conquistas também avançam. Na última semana, acompanhamos um movimento que vem se intensificando desde meados de 2015, quando a articulação dos jovens secundaristas ganhou corpo e força. Uma ocupação aqui, outra ali, até que, quando nos demos conta, já eram mais de cem escolas ocupadas ao redor do país. Em dezembro de 2015, os estudantes conseguiram suspender a reorganização das escolas estaduais paulistas e o fechamento de diversas unidades, ainda que temporariamente. Como consequência, derrubaram o então secretário da Educação de São Paulo, Hermam Voorwald, que comandava a reorganização, e derrubaram também a reputação de Geraldo Alckmin, que teve taxa de rejeição recorde desde 2001. A luta foi árdua, a repressão policial do governo do estado à base de bombas e cassetetes foi intensa, mas saíram vitoriosos. Hoje esses alunos voltam a se organizar. A atual reivindicação dos estudantes da rede estadual de São Paulo é clara: querem a instauração da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da merenda, para que se investigue o esquema de desvio de recursos e se punam os responsáveis. Em outros estados, reivindica-se a melhoria das condições das salas de aulas, a democratização dos métodos de escolha de diretores e formação de grêmios estudantis e maior atenção por parte do governo quanto às necessidades de alunos, professores e funcionários.

Tais cobranças e reivindicações, não só justas como imprescindíveis, são a parte visível e palpável dos protestos, mas há algo ainda mais poderoso e com enorme potencial transformador por trás das ações desses alunos. Pautar e refletir o papel da educação numa sociedade altamente capitalista é tarefa dificílima; são diversos os mecanismos de manipulação que permeiam e limitam as oportunidades de reformulação das propostas pedagógicas – mais que necessárias – por parte dos sistemas de ensino. Os jovens de hoje vêm nos mostrando, cada vez mais, que não estão dispostos a aceitar calados uma educação repressora, que não só os reprime física e moralmente devido ao descaso perante suas necessidades mais básicas, mas, sobretudo, os reprime socialmente, ao não ampliar e democratizar os métodos pedagógicos, limitando assim as possibilidades de serem agentes sociais libertos e capazes de contribuir efetivamente para a emancipação humana e para a transformação da realidade.  Não é mais possível tapar este sol com a peneira, esta “falsa concepção de educação”, tal qual sinaliza Paulo Freire, que busca domesticá-los, segue na contramão da inteligência e dos potenciais de nossas crianças e adolescentes. Dos brilhantes gritos de guerra compostos pelos estudantes secundaristas que ocuparam a ALESP (Assembleia Legislativa de São Paulo), há um que deixa isto explicito. Eles entoam: “Quem são vocês? São estudantes! Não escutei… São estudantes! Mais uma vez… São estudantes! Sou, sou estudante, eu sou, eu quero estudar, a minha escola transformar. Vamos à luta!”

 Nicole Miranda, presidente do grêmio da E.E. Maestro Fabiano Lozano lê a carta aberta aos estudantes e ao povo paulista. Foto: Christian Braga / Jornalistas Livres. 

A luta foi dura. No dia 6 de maio, logo ao amanhecer, aconteceu a reintegração de posse do Centro Paula Souza. Através do porte de metralhadoras e gás de pimenta por parte do Batalhão de Choque da Polícia Militar, os alunos foram retirados pelo braço e alguns, notadamente os negros, foram arrastados. Surpreende notar que parte da grande imprensa noticiou o fato utilizando-se da palavra “confronto”, em que adolescentes armados de flores brancas “confrontaram” uma polícia truculenta armada letalmente para uma guerra.

João Vitor, estudante secundarista, arrancado violentamente pela Tropa de Choque de Alckmin da ocupação do Centro Paula Souza. Foto: Marlene Bergamo, fotógrafa da Folha de S. Paulo. Reprodução: Jornalistas Livres. 

Em outro ponto da cidade, alunos que por quatro dias ocupavam o plenário da ALESP foram ameaçados não física, mas judicialmente: 30 mil reais de multa diária para cada um deles, caso insistissem em permanecer. O presidente da Assembleia, Fernando Capez (PSDB- SP), investigado na Operação Alba Branca (que investiga fraudes em licitações de merenda escolar) e principal suspeito pelo desvio de verbas, disse achar a multa justa, já que os adolescentes estavam “depredando o patrimônio público e usando notebooks da Mac de 20 mil reais”. A afirmação não demorou a ser desmentida. Diante da notificação judicial, os alunos decidiram, através de acordo coletivo em assembleia, explanada num emocionado jogral*, desocupar pacificamente o local e continuar a luta nas ruas.

 Vale ressaltar que Capez entrou com uma ação judicial contra Camila Lanes, a presidente da UBES (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas). O crime de Camila? Essa curiosidade inconveniente de querer saber para onde foi o dinheiro da merenda de que ela e seus amigos não veem nem a cor desde o início do ano, tampouco sentem o cheiro. Além disso, Capez ainda dificultou o acesso aos banheiros, chegou a cortar a energia e o sinal de internet da ALESP e proibiu a entrada de alimentos no local a partir da primeira noite de ocupação, visando levar os estudantes à exaustão. Ou, no caso, a uma possível greve de fome. Parece que, no governo tucano, comer é proibido ou, no mínimo, artigo de luxo.

 Foto – Reprodução: Facebook Diário da Merenda. 

Apesar da proibição, o padre Júlio Lancelloti foi até o local com uma caixa cheia de pães e garrafas de chocolate quente, preparados por moradores de rua, para manifestar apoio aos estudantes. O padre declarou ser a favor dessa rebeldia e desobediência civil. Nas palavras dele: “Nós estamos num tempo em que é uma virtude ser desobediente e não obedecer nenhuma ordem injusta. Resistam!” O cantor Chico César e o guitarrista Edgard Scandurra também deram suporte à ocupação, além de Eduardo Suplicy. No Rio de Janeiro, as ocupações contaram com a presença de Marisa Monte, Letuce, Ava Rocha (filha dos cineastas Glauber Rocha e Paula Gaitán), entre outros.

 Foto – Reprodução: Mídia Ninja.

A resposta autoritária e impositiva que os estudantes tiveram não é de se estranhar, mas deveria, pois ocupar espaços públicos num regime democrático a fim de estabelecer vias de diálogos com autoridades eleitas para servir a população é o cerne da democracia. Como era também de se esperar, houve uma tentativa frustrada por parte da grande imprensa e do antipetismo raivoso e desprovido de discernimento crítico de converter os secundaristas em “vândalos” e “baderneiros”. Assim fizeram certos colunistas da Veja e da Época, com o intuito de minimizar a atuação dos movimentos estudantis, buscando qualificá-los como governistas. Tal pensamento estapafúrdio não admite meio-termo: ser contra os estudantes significa ser a favor do roubo de merendas de crianças e adolescentes e do sucateamento da educação estadual. Ignorância e nada mais. Se é verdade que os secundaristas tiveram apoio de representantes petistas, é igualmente verdade que eles estavam abertos a receber o apoio de quem quisesse apoiá-los. Inclusive do PSDB, que poderia e deveria tê-lo feito, mas não o fez.

A ALESP exige 32 assinaturas para que a CPI seja instaurada. Ainda faltam sete. Em reunião coletiva, Capez prometeu aos estudantes conseguir as assinaturas, já os estudantes prometeram a Capez que não irão parar de lutar até que isso aconteça. Isso é fazer política. É não permitir que se sucateie a cidadania e o direito à dignidade, fazendo valer os deveres mínimos do governo e do Estado. Isso é ser político. É participar ativamente dos processos de transformação necessários para que se viva em justiça e equidade. É se revoltar contra um sistema que reprime jovens que lutam por um prato de comida roubado por bandidos milionários incapazes de dialogar – e que batem panelas de barriga cheia. Isso é a Política! A pura práxis política: reflexão transformada em ação revolucionária, ação revolucionária re-transformada em demanda reflexiva.

“O que nos move é apenas a fome! E o desejo de ter uma escola e uma educação que atenda às necessidades de desenvolvimento, emancipação e dignidade de todos e todas”, afirmaram os alunos em leitura de carta aberta à sociedade. Paulo Freire vive na resistência dessa meninada que não acata o retrocesso; desse grupo de educandos que, ao reconhecer seu espaço na sociedade e seu lugar no mundo, se ressignifica e, de repente, forma um corpo docente. E leciona. Mais do que nunca urge a necessidade de que esses jovens possam desfrutar daquilo que Freire propõe: de uma Educação Libertadora, que os excarcerem das amarras opressivas do pensamento e da falta de dignidade cidadã.

Registro aqui um sincero e emocionado agradecimento aos estudantes secundaristas, por nos ensinarem a incrível e penosa arte de fortalecer uma democracia frágil, que, antes de tudo, necessita ser ativa e participativa. Educar, dizia Freire, “é impregnar de sentido o que fazemos a cada instante”. E assim eles fizeram: impregnaram de coragem, de maturidade e de esperança cada sopro de instante desta luta, perseveraram e não engoliram a seco a tentativa de limar todos esses sonhos que guardam no peito.

“Quem tem fome tem pressa” e quem tem sonhos luta. Essa luta também é nossa, e ela continua!

 

*Carta aberta dos estudantes ao povo paulista:

Por: União Estadual dos Estudantes de São Paulo (UEE), União Nacional dos Estudantes (UNE), União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes), União Paulista dos Estudantes Secundaristas (Upes).

“Foram quatro dias de ousadia, resistência e luta. Pela primeira vez na história da ALESP e do Estado de São Paulo o povo se viu representado nesse importante espaço. Nós jovens, negros, mulheres ao lado do povo e toda sua diversidade, ocuparam o plenário do poder legislativo. Ensinamos e aprendemos muito. Resistimos. Mesmo com toda a desinformação, truculência e terror psicológico, nós nos mantivemos inabaláveis e convictos da legitimidade do nosso movimento. O que nos move é apenas a fome! E o desejo de ter uma escola e uma educação que atenda às necessidades de desenvolvimento, emancipação e dignidade de todos e todas.

Conquistamos a mais importante vitória que um movimento pode ter: a opinião de todos vocês. Recebemos o apoio e o carinho de mães, pais, professores, trabalhadores, funcionários da ALESP, artistas, intelectuais, autoridades e os mais diversos setores da sociedade, o que fez toda a diferença para nós. Tomamos um duro golpe da justiça. Nós, que não conseguimos nem comprar o lanche na cantina, não aceitaremos que nossos pais paguem pela corrupção. Há meses travamos uma luta democrática contra o ladrão da merenda. Sabemos o valor que tem a nossa democracia e a importância de se respeitá-la. Apesar de não ter repressão e violência policial, o governo decidiu pela truculência econômica. Por isso, nossa decisão coletiva foi desocupar a Assembleia Legislativa. Não recuamos, não desistimos e nada vai nos calar. Nossa luta, graças a essa ocupação, atingiu um patamar histórico. Através da nossa ocupação começamos a escrever mais um grande capítulo da história do Brasil, depois de muito tempo o povo pautou o principal parlamento estadual do país. Paralisamos o estado de São Paulo, o Brasil e o mundo travando os trabalhos da ALESP para que todos os deputados nos ouvissem nesse momento. Na próxima semana estaremos aqui novamente cobrando que cada deputado ouça a nossa voz, a voz de milhares de estudantes que há meses estão sem merenda. Seguiremos em luta intensa pela abertura da CPI, pela punição dos ladrões de merenda e pela escola dos nossos sonhos.”

Apenas começamos!”

 Alguns dos gritos de guerra entoados pelos estudantes:

 “Nas ruas, nas praças, quem disse que sumiu? Aqui está presente o movimento estudantil!”

  “Que vergonha que vergonha deve ser, que vergonha que vergonha deve ser, que vergonha que vergonha deve ser bater em estudante pra ter o que comer.”

 “Caraca, muleque, que Geraldo malcriado, sucateia a educação, rouba a merenda do meu prato.”

 “Eu não roubo merenda, eu não sou deputado, estudo todo dia, não roubo meu estado.”

 “Suco de laranja, bolacha de água e sal, roubaram a merenda da escola estadual.”

 “Governo tucano, governo ladrão, rouba a merenda e sucateia a educação.”

 “Eu, tu, nóis qué merenda, mexeu com os secundas o governo não aguenta.”

 “Não tem arrego, você rouba minha merenda e eu tiro o seu sossego.”

  “Eu tô boladão, não vou deixar Capez roubar a merenda não.”

 “Ai meu Deus, ai que fome, na escola ninguém come.”

 “Estudante unido tem fome pra caramba.”

 “Eu só saio daqui com uma CPI.”

 Foto – Reprodução: Rovena Rosa para Agência Brasil.

 “Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção. Quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender”.  Paulo Freire