Niède Guidon nasceu no ano de 1933 na cidade de Jaú, no interior de São Paulo. Logo nos primeiros anos de vida demonstrou pendor para algo essencial aos investigadores e investigadoras das coisas do mundo: a curiosidade. Afirma Niède que, ao ser presenteada com uma boneca que falava, seu ímpeto logo era de abri-la e compreender como se dava aquela fala, o que levou a família a crer que se tratava da manifestação da vocação para a Medicina.

Anos depois, acometida por uma forte dor de cabeça, Niède perdeu a prova para o vestibular que a iniciaria na tecnociência de Hipócrates. Logo remanejou sua escolha e -para nossa franca sorte- optou por cursar História Natural na USP, área que logo despertou sua paixão e a inseriu na vida de cientista e na docência das ciências da natureza.

Logo no início do magistério enfrentou forte resistência ao tentar ensinar a teoria da evolução em uma escola no interior, o que a deslocou para o Museu do Ipiranga, prontamente acolhida pelo Departamento de Arqueologia e inserida na luta pela preservação dos vestígios arqueológicos.

Na busca por solidificar seu conhecimento na área, voltou-se para a terra natal de seus ascendentes e especializou-se em arqueologia pré-histórica na Sorbonne, em Paris, onde também concluiu seu doutorado e pós-doutorado. As idas e vindas para Paris também tiveram outra motivação, já que Niède, como tantos brasileiros e brasileiras injustiçados pelos anos da ditadura civil-militar, precisaram sair do país ao terem decretadas prisões gravemente arbitrárias sob falsas acusações. Em Paris também se tornou professora da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, pela qual se aposentou.

Mas foi no ano de 1963 que Niède se deparou com o que seria seu futuro e mais longo trabalho: enquanto ainda estava no Museu do Ipiranga, um morador do Piauí mostrou a ela uma foto de pinturas rupestres que estariam perto de onde morava. Pela foto logo percebeu algumas singularidades daqueles vestígios que permaneceram em sua mente até que, anos depois, já na década de 70, decidiu investigá-los.

Encontrou os sítios no Piauí até então de potencial arqueológico desconhecido, mas preservados pela própria natureza. Assim, em 1973 conseguiu reunir uma missão francesa para construir a pesquisa científica na região da Serra da Capivara, em São Raimundo Nonato, que logo se demonstrou uma riqueza arqueológica imensurável.

Deu-se a criação da missão arqueológica permanente no Piauí, sob coordenação de Niède e apoio francês.  As primeiras pesquisas forneceram dados que corroboraram a importância da região, tanto no aspecto ambiental quanto cultural. Parecia que ali havia muitas perguntas a serem feitas e respostas a serem buscadas. Estes dados foram suficientes para que Niède e sua equipe justificassem ao governo brasileiro a necessidade de se criar um parque nacional para a preservação daquele patrimônio. Foi criado, desta vez pelo governo brasileiro, o Parque Nacional da Serra da Capivara. O projeto, que logo se demonstrou se tratar de mera formalidade, passou a existir de fato a partir da criação da Fundação Museu do Homem Americano.

 As escavações e análises das amostras logo proporcionaram grandes surpresas, seja pela quantidade única de vestígios, quanto por demonstrarem – por técnica de luminescência- ser muito mais antigas do que postulava umas das teorias hegemônicas sobre a ocupação humana na América do Sul. Niède e sua equipe levantaram, assim, a hipótese de que a ocupação humana remetia a pelo menos 100.000 a.c. Hipótese que suscita uma série de questionamentos fortemente transformadores sobre a origem do mundo e confirma que a presença na América se deu a partir de grupos africanos que já usavam embarcações em cerca de 130.000 a.c.

Hipóteses que confirmam, também, que o mesmo processo evolutivo se deu para grupos diferentes, no mesmo tempo, mas em espaços bem distantes.

A riqueza e a importância inominável do conhecimento produzido a partir das pesquisas na Serra da Capivara, no entanto, parecem ser inversamente proporcionais a importância que é dispensada a sua preservação.

A história do descaso para com o parque é longa e culminou, neste mês de agosto de 2016 – décadas após a fundação – com o anúncio da saída de Niède da coordenação do parque.

Alguns levianamente alegam que um projeto deste porte não é viável em um país com outras emergências. Tais alegações não possuem fundamento algum, já que a preservação ambiental e a pesquisa científica – grande patrimônio filosófico e cultural-  podem ser sinônimos de desenvolvimento econômico alicerçado sobre o turismo bem projetado. Os ganhos para o Piauí seriam enormes. É plenamente possível, se houver vontade.

Mas os constantes apelos parecem não encontrar ouvidos dispostos. A dura sobrevivência está ameaçada, os orçamentos oscilam, os funcionários diminuíram e agora, tristemente, o parque está sob a mais grave ameaça de fechar suas portas.

Por sorte a possibilidade do fechamento conquistou novas atenções e há mobilizações para reverter a situação. Nenhuma, por enquanto, se concretizou, o que deve nos colocar em estado de alerta. E de apoio.

Que o parque permaneça. Ganharemos todos, munidos de mais conhecimento sobre nós mesmos, o que obviamente é nossa grande falta.