Quando esquentaram os rumores sobre o pedido de impeachment da então presidente Dilma Rousseff, no segundo semestre do ano passado, confesso que não dei muita bola. Apesar de sua vitória sobre o segundo colocado ter sido conquistada com uma margem bastante apertada, não achava que ele tivesse força para levar a cabo o processo.

Existia outro porém. Desde o impeachment de Collor em 92, os inconformados com os resultados eleitorais descobriram que esse recurso era uma possibilidade real. Então, passaram a buscá-lo sempre que encontravam uma brecha aberta. Isso aconteceu durante todo o mandato de Fernando Henrique, assim como no decorrer dos oito anos do governo Lula.

No entanto, sempre foi mais uma encenação barata do que tentativa de fato. Mas não nos enganemos. Isso não aconteceu porque os congressistas – ou mesmo a população – tinham consciência de que impeachment não é remédio para governo ruim, e só devendo só ser usado em situações muito graves, pois traz graves problemas para a estrutura democrática.

A resposta é bem simples. Nunca levavam a cabo esse intento porque o meio político é um grande jogo de comadres. Sempre que alguma ameaça surge para colocar em risco o privilégio de meia dúzia, eles fazem um acerto interno e está tudo bem.

Como bem escreveu Maquiavel, a política existe para garantir o poder. Se no meio do caminho surgir a necessidade de construir algo que possa favorecer a população, que seja feito. Porém, apenas como meio de chegar ao lugar onde se comanda a carroça. Bem como de se se manter lá.

Dito isto, fiquei extremamente surpreso quando, em 3 de dezembro de 2015, o senhor Eduardo Cunha, então presidente da Câmara dos deputados, acolheu o pedido de afastamento da presidente. Não fazia sentido. Mas continuei acreditando que fazia parte do teatro cotidiano deles.

Ainda havia um problema a considerar. A Dilma não quebrou o país. Contudo, ela omitiu a respeito da crise mundial que teve como marco inicial a bolha americana de 2008. Ela fez algo ainda mais grave. Na contramão do mundo, decidiu manter a economia aquecida. Entre outras coisas, continuou injetando dinheiro no mercado através de crédito subsidiado do BNDES, e de medidas como as exonerações fiscais.

Ninguém, em sã consciência, teria interesse em pegar o país nestas condições, pois eles não poderiam fazer nada significativo em apenas dois anos e meio. O mais inteligente seria deixar que o cenário se agravasse sozinho, ganhar de lavada em 2018, pois a esquerda já estaria desacreditada de qualquer jeito, e ter longos quatros para encontrar soluções de médio prazo – coisa que brasileiro adora.

Contudo, tiraram a mulher. Havia algo mais por detrás de toda essa cortina de fumaça, e que não estava tão fácil de visualizar. Logo descobrimos que existiam beneficiários diretos do golpe, bem como uma agenda de interesses norte-americanos, grupos plutocratas que não aceitavam a ascensão de classes menos favorecidas, e mais de dois terços de um congresso que não são do PSBD, e por isso não têm a isenção do judiciário, que precisava estancar a Lava-Jato.

Pronto! Encontramos o que estávamos procurando. Mas… e a economia? Então, lembrei de uma parábola.

Era uma vez um homem muito pobre, com uma mulher e com doze filhos. Todo o seu patrimônio era uma casinha de um único cômodo, onde todos comiam e dormiam, e uma vaquinha que ele criava no terreno atrás de sua residência, e que produzia leite suficiente para o sustento deles.

Ele, sem saber como melhorar sua vida, foi a um sábio e explicou sua situação. Ele pediu que o velho lhe desse uma solução. O sábio então ordenou que ele colocasse a vaca para morar com eles dentro da casa. O homem não entendeu muito bem, mas não o contrariou. Afinal, era sábio.

Um mês depois ele retornou à casa do velho. Disse que sua vida havia piorado bastante. A vaca passou a cagar em tudo e mugir a noite toda impedindo-os de dormir. As crianças ficaram cheias de doenças por causa das fezes, e a mulher tinha ameaçado largá-lo. Então, o sábio lhe deu o conselho de ouro: coloque a vaca para fora da casa novamente.

Temer é a nossa vaca. Ele não veio para salvar nenhum de nós. A não ser os interesses daqueles que financiaram o golpe. Mas teremos a sensação de alívio quando ele sair da jogada. No fim das contas, deixará o terreno limpo para que aquele que for eleito em 2018 possa nos dar a migalha a que estamos acostumados, e que nos fará sorrir agradecidos novamente.

Mas ainda existe o ato final nos esperando. É bem provável que precisem ferrar a Marina, e terminar com a reputação do Lula para que tudo saia como planejado. Contudo, meus amigos, não podemos nos dar ao luxo de sermos ingênuos mais uma vez. Ainda que não consigam completar o golpe, e Lula volte a ser eleito, a nossa realidade não será muito melhor.

Não importa quem ganhe a eleição de 2018. O estrago já foi feito. Desculpando-me pelo latim, “nós estamos todos fodidos e mal pagos”.