Dia 21 de junho passado, durante um dos eventos programados para trajeto da tocha olímpica até o RJ para os jogos, uma onça que havia sido usada naquela solenidade foi abatida, após ter escapado e colocado em risco a vida de pessoas presentes.

Não tardou que, na imprensa nacional e internacional e, principalmente, na internet e redes sociais, um grande número de pessoas – ativistas dos direitos dos animais ou não – se manifestassem em repulsa ao ocorrido. As críticas eram dos mais variados matizes: que a onça em questão não era um animal agressivo e não deveria ter sido abatida; que deveriam ter sido usadas formas não-letais de contenção (dardos tranquilizantes); que o problema estava na má organização tipicamente brasileira; que o lugar da onça não era ali.

Minha opinião se ajusta a esse último argumento, o qual levaria a desnecessidade de todos os outros. O lugar da Juma não era ali. Isso resolve a questão de se era ou não dócil – a domesticação de animais selvagens é bastante questionável e criticável – bem como se deveria ou não ter sido tentado meio não-letal para conter o animal. Se o lugar dela não era ali, não há que se falar sobre sua ferocidade ou sobre quais os métodos mais adequados para lidar com ela.

O argumento dos que sofrem de ‘complexo de vira-lata’, de que o problema seria a má organização brasileira, já seria esdrúxulo antes mesmo de aceitarmos aquele último argumento como o mais válido. Recentemente tivemos vários outros casos internacionais, tais como o do gorila Harambe num zoo e dos jacarés num resort, ambos nos EUA; a girafa Marius e uma zebra, nos zoos da Dinamarca e da Noruega, respectivamente, abatidas por questões logísticas, apenas para citar alguns, todos em países ditos ‘desenvolvidos’ e mais ‘civilizados’, que comprovam que a questão não diz respeito a qualquer déficit brasileiro no quesito ‘organização de eventos’, mas sim a um recorrente e transfronteiriço desrespeito à vida e aos direitos dos animais não-humanos.

Ainda sobre tal desrespeito, um relatório da ONG One Green Planet aponta que, no mercado de espécies e filhotes entre zoológicos e aquários ao redor do mundo, os animais não são tratados diferentemente de qualquer outra mercadoria, podendo ser descartados se ‘defeituosos’, em excesso ou – como são animais a ser expostos – perderem seus ‘atrativos’ perante o público.

Apenas para fazer uma analogia, como a ‘função’ que damos a esses animais é a de nos entreter, imaginemos que, quando um ator/atriz não seja mais famoso, ou esteja muito velho para atuar, pudéssemos promover-lhes a eutanásia, posto que sua utilidade no mundo do capital já teria findado. Chocante, não? Ora, durante boa parte do século XIX e início do século XX eram comuns os zoológicos humanos na América do Norte e Europa, onde eram exibidas pessoas de etnias diferentes das de origem indo-europeia, e para o público pagante não havia nada de mais, afinal tais animais humanos não eram tão humanos como seus observadores de pince-nez e cartolas. Para eles não era chocante, mas tão natural como para nós são os zoos e aquários que visitamos.

Boa parte dessa mentalidade se baseia nos mitos religiosos, que colocam o ser humano como centro e objetivo de toda criação do Universo. Tal raciocínio está tão enraizado em nossas sociedades que mesmo aqueles que rejeitam as teorias criacionistas, dizendo-se adeptos da ciência, ainda possuem essa visão egocêntrica de que o ser humano é o mais importante; de que somos o ápice da vida na Terra, o ponto de chegada da evolução darwiniana. O cume mais elevado na cadeia alimentar.

Os que argumentam nessa linha antropocêntrica alegam o fato de que sermos onívoros foi fundamental para a sobrevivência e evolução da espécie humana. Não discordo. Ocorre que hoje a sobrevivência da espécie humana pode depender, justamente, de revermos a forma de nosso consumo das reservas biológicas de nosso planeta. Ou fazemos uso de todo nosso intelecto superior e damos um rumo à nossa evolução que garanta a sobrevivência da nossa espécie, ou continuamos agindo como um vírus que destrói tudo ao redor até nada restar.

Assim, quer se acredite numa divindade que criou o mundo a nossa volta para nos servir, quer se acredite no antropocentrismo científico, fato é que a maioria da população ainda crê numa superioridade do homem sobre os animais não-humanos. Esse é o real motivo para a morte da onça Juma.

Não sou vegano e luto diariamente contra hábitos adquiridos durante  quatro décadas para, pelo menos, me tornar vegetariano; e para reduzir minha ‘pegada ambiental’ que, direta ou indiretamente, afeta os demais seres vivos do planeta. Ainda estou muito longe do mínimo necessário para realmente poder dizer que respeito as demais formas de vida na Terra.

A mudança de paradigma pode ser radical ou gradual quando observamos indivíduos ou pequenos grupos. Pessoas próximas a mim mudaram radicalmente, enquanto eu o faço a cada dia. Para muitos indivíduos, essa mudança poderá nunca ocorrer. Todavia, podem estar certos de que ela ocorrerá para seus filhos ou mais tardar seus netos. Esse paradigma já está em revisão. Para uns, por uma conscientização de que não temos mais direito à vida e à liberdade do que os demais animais. Para outros, por conta de uma conscientização de que nosso modelo egoístico de enxergar nosso planeta e tudo que nele habita como combustível de nosso hedonismo não é viável, na verdade é irresponsável e estúpido. E para outros tantos, uma soma das duas coisas.

Não foi a má organização do COB que matou a onça Juma. Nem foram os pais do menino que caiu na jaula do gorila ou os da criança que entrou no lago com jacarés no resort estadunidense os responsáveis pela morte daqueles animais não-humanos. Somos todos corresponsáveis na medida em que não os tratamos como merecedores de vida, liberdade e respeito. Somos todos responsáveis quando somos tão seletivos ao lutarmos pela proteção de cães e gatos contra maus-tratos (estejam aqui ou na China), mas consideramos os animais que, involuntariamente, constituem nossa dieta como tão dignos de direitos quanto um pé de alface.

Numa sociedade global e tão complexa, milhares de anos de subjugação e exploração de uma única espécie sobre todas as demais não serão facilmente modificados. Mas paradigmas e tabus que também tinham forte defesa argumentativa foram vencidos no decorrer da história. Ocorreu com a escravidão; está ocorrendo com os direitos das mulheres e dos homossexuais; vem ocorrendo quanto à seletiva ‘guerra às drogas’. Nada é imutável.

O paradigma de respeito à vida dos demais animais está atrelado à necessária mudança da maneira de enxergarmos nossa posição espaço-temporal na Terra. Num mundo capitalista, fortemente marcado por ideologias religiosas teocêntricas, ou mesmo de um antropocentrismo egocêntrico, esse paradigma não será facilmente modificado. O universo, para muitos de nós, ainda gira demais ao redor de nosso umbigo, quer sejamos teocêntricos ou antropocêntricos, pois em um caso ou noutro somos egocêntricos. Mas a revolução já começou.

The Shocking Truth About What Happens to ‘Surplus’ Zoo Animals